Cigarro eletrônico: a reinvenção da indústria do tabaco que ameaça décadas de progresso

Cigarros eletrônicos causaram 68 mortes nos EUA em 2019 por inflamação aguda dos pulmões, além de doenças respiratórias crônicas e cardiovasculares.
A indústria do tabaco talvez esteja mais forte do que nunca
Apesar de décadas de redução de fumantes, a reinvenção dos cigarros eletrônicos ameaça reverter esse progresso.
Mark

Por que a indústria do tabaco investiu tanto em cigarros eletrônicos se o mercado de cigarro tradicional estava em declínio?

Mimi

Porque a nicotina é o negócio, não o cigarro. A indústria percebeu que podia manter os consumidores dependentes usando tecnologia moderna, que parece mais segura e atrai jovens que nunca fumaram.

Mark

Mas os cigarros eletrônicos realmente causam menos dano que o cigarro tradicional?

Mimi

Essa é a pergunta que a indústria quer que você faça. A verdade é que não sabemos ainda. Temos 70 anos de pesquisa sobre cigarro tradicional e menos de 20 sobre eletrônicos. Já sabemos de inflamações agudas nos pulmões, doenças respiratórias crônicas e cardiovasculares, mas os danos de longo prazo ainda estão sendo descobertos.

Mark

Se a ANVISA proibiu em 2009, como esses produtos estão tão acessíveis?

Mimi

A fiscalização é fraca. A proibição existe no papel, mas na prática o acesso é amplo e irrestrito. É como se tivéssemos a lei, mas não a vontade política de aplicá-la.

Mark

O que preocupa mais: o vício em nicotina ou os outros componentes químicos?

Mimi

Os dois. A nicotina causa dependência em 90% dos usuários regulares. Mas quando você aquece propilenoglicol, glicerina e 15 mil aromas a 200 graus com metais cancerígenos, você cria mais de 2 mil substâncias desconhecidas. É um experimento em tempo real com os pulmões das pessoas.

Mark

Por que os jovens estão caindo nessa se o Brasil já conquistou tanto contra o tabagismo?

Mimi

Porque parece diferente. Não é um cigarro — é um dispositivo tecnológico. Não cheira a cigarro. Vem com sabores atraentes. A indústria o posiciona como moderno, seguro, até como uma forma de parar de fumar. Para um jovem que nunca fumou, parece uma escolha sofisticada, não um vício.

Mark

O que deveria acontecer agora?

Mimi

A mesma coisa que funcionou com o cigarro tradicional: educação, legislação rigorosa e fiscalização real. Mas dessa vez, precisamos ser mais rápidos. Não podemos esperar 30 anos para descobrir o que esses produtos fazem.

  • Um em cada cinco jovens entre 18 e 24 anos já teve contato com cigarros eletrônicos
  • Nicotina causa dependência em 90% dos usuários regulares após um mês de consumo
  • Um pod de cigarro eletrônico pode conter nicotina equivalente a três maços de cigarro tradicional
  • 68 mortes por inflamação aguda dos pulmões foram relatadas nos EUA em 2019
  • ANVISA proibiu cigarros eletrônicos em 2009, mas fiscalização permanece fraca

Um em cada cinco jovens entre 18 e 24 anos já teve contato com cigarros eletrônicos, revertendo décadas de redução de fumantes no Brasil. Nicotina em DEFs causa dependência em 90% dos usuários regulares; concentrações podem equivaler a 3 maços de cigarro consumidos em uma noite.

Especialista alerta sobre riscos dos dispositivos eletrônicos para fumar, que ganham popularidade entre jovens brasileiros apesar de proibição da ANVISA desde 2009.

O Brasil chegou a um marco que parecia consolidado: em três décadas, conseguiu reduzir pela metade o número de fumantes, levando mais de 90% da população a se declarar não-fumante. Era uma vitória de décadas de legislação rigorosa, campanhas educativas e pressão social que transformou o hábito de fumar de algo comum em espaços públicos para algo marginalizado. Mas essa conquista agora enfrenta uma ameaça que vem embrulhada em design moderno e promessas de segurança: os dispositivos eletrônicos para fumar.

A indústria do tabaco não desapareceu — se reinventou. Quando a combustão deixou de ser viável comercialmente, ela abraçou a tecnologia. Um protótipo criado na China em 2003 virou a porta de entrada para uma transformação estratégica. Hoje, a indústria tradicional controla 75% das fabricantes modernas de cigarros eletrônicos. E o mercado está crescendo, especialmente entre jovens. Uma pesquisa nacional com mais de 9 mil brasileiros no primeiro trimestre de 2022 revelou que um em cada cinco jovens entre 18 e 24 anos já teve contato com algum tipo de dispositivo eletrônico para fumar. O número é alarmante porque aponta para uma inversão de tendência justamente na faixa etária que deveria estar mais protegida pelos ganhos das últimas décadas.

O que torna esses dispositivos particularmente perigosos é a ilusão de segurança que carregam. A nicotina permanece como o ingrediente central — e ela não mudou. Causa dependência em cerca de 90% das pessoas que a consomem regularmente por mais de um mês. Alguns desses produtos chegam a concentrações de 5% de nicotina, o que significa 50 miligramas de sal de nicotina por mililitro do líquido. Para colocar em perspectiva: um cigarro tradicional tem pouco menos de 1 miligrama de nicotina. Um único pod de 1,3 mililitro nessa concentração equivale a três maços de cigarro em quantidade de nicotina — e pode ser consumido inteiro em uma noite. Mesmo os produtos vendidos como "sem nicotina" contêm a substância, conforme mostram estudos de qualidade.

Mas a nicotina é apenas parte do problema. O líquido dos cigarros eletrônicos contém mais de 15 mil tipos de aromas diferentes, além de compostos químicos como propilenoglicol e glicerina. Quando aquecidos a mais de 200 graus Celsius por uma bateria contendo metais como níquel — um cancerígeno conhecido — essas substâncias se transformam. Um estudo da Universidade Johns Hopkins publicado em 2021 identificou mais de 2 mil substâncias resultantes desse processo. Os efeitos de longo prazo ainda são desconhecidos. O cigarro tradicional vem sendo estudado sistematicamente desde os anos 1950. Os dispositivos eletrônicos têm menos de 20 anos de uso. Há muito a ser descoberto sobre seus danos reais à saúde física e mental.

O que já se sabe é preocupante. Nos Estados Unidos, 68 mortes foram relatadas em 2019 causadas por inflamação aguda dos pulmões relacionada ao uso de cigarros eletrônicos. Além disso, esses dispositivos estão associados a doenças respiratórias crônicas como enfisema pulmonar, doenças cardiovasculares, dermatites e, provavelmente, câncer. A indústria usa estratégias sofisticadas para posicionar seus produtos como alternativas seguras ao cigarro tradicional, mas essa narrativa ignora um fato simples: os dispositivos eletrônicos não são ferramentas para deixar de fumar. São ferramentas para começar a fumar, especialmente entre jovens que nunca teriam tocado em um cigarro tradicional.

O Brasil já enfrentou esse desafio antes e venceu. A ANVISA proibiu a comercialização, importação e propaganda de dispositivos eletrônicos para fumar em 2009. Mas a fiscalização permanece fraca e o acesso aos produtos é amplo e irrestrito. Décadas de ações educativas, legislativas e econômicas, além de parcerias entre sociedade civil e poder público, foram necessárias para transformar a cultura do tabagismo. Hoje é impensável ver alguém fumando dentro de um ônibus, uma padaria ou um escritório — algo comum poucas décadas atrás. A mesma lógica deveria se aplicar aos cigarros eletrônicos, mas a indústria está um passo à frente, usando a linguagem da modernidade e da tecnologia para vender o mesmo vício em uma embalagem diferente. Quase 150 anos depois de sua invenção, a máquina de fabricar doenças crônicas, mortes evitáveis e sofrimento permanente segue operando — agora com novos trajes, talvez mais forte do que nunca.

Nicotina causa dependência em cerca de 90% das pessoas que a consomem regularmente por mais de um mês
— André Luiz Dresler Hovnanian, pneumologista e professor de Medicina
Os dispositivos eletrônicos não são uma opção para deixar de fumar
— André Luiz Dresler Hovnanian, pneumologista e professor de Medicina
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