Dia Nacional de Combate ao Fumo: especialista alerta contra cigarros eletrônicos

Uma epidemia silenciosa crescendo justamente na faixa que conseguimos proteger
Cigarros eletrônicos explodem entre jovens enquanto o cigarro tradicional desaparece do Brasil.
Mark

Por que os cigarros eletrônicos crescem justamente quando o cigarro tradicional desaparece?

Mimi

Porque foram vendidos como solução. Menos prejudicial, mais moderno, sem aquele cheiro de cigarro velho. Para quem nunca fumou, parecia uma coisa diferente — não era "fumar", era "vapear". A publicidade funcionou.

Mark

Mas a lei os proíbe no Brasil. Como crescem tanto?

Mimi

A lei existe, mas a fiscalização é fraca e a internet torna a compra fácil. Além disso, há um vazio de percepção de risco. As campanhas contra o cigarro foram tão eficazes que criaram uma geração que sabe exatamente o que o cigarro faz. Mas ninguém cresceu aprendendo sobre vapes. Parecem novos, parecem seguros.

Mark

Os estudos mostram que não são seguros?

Mimi

Mostram sinais de alerta. Inflamação pulmonar, risco aumentado de morte por Covid. Mas são sinais, não certezas. O problema é que esses dispositivos existem há pouco tempo. Não sabemos ainda o que fazem ao coração em 20, 30 anos. Estamos repetindo a história do cigarro, mas em tempo real.

Mark

Qual é a diferença entre um fumante que parou e alguém que nunca fumou?

Mimi

O fumante que parou segue com risco elevado por muitos anos. O corpo não esquece. Então mesmo quem consegue sair do cigarro carrega as consequências. É por isso que a prevenção é tão importante — é mais fácil nunca começar do que parar depois.

Mark

E agora, com os vapes, estamos deixando uma nova geração começar?

Mimi

Exatamente. Conquistamos algo raro: uma geração que sabe que cigarro mata. Mas agora oferecemos a eles uma alternativa que parece segura e que a ciência ainda não consegue explicar completamente. É um passo para trás disfarçado de progresso.

  • Tabagismo caiu de 35% para 9% da população em três décadas
  • Quase 20% dos jovens entre 18 e 24 anos usam cigarros eletrônicos
  • Fumantes têm o dobro da chance de insuficiência cardíaca
  • Cigarros eletrônicos aumentam em 45% o risco de morte por Covid-19

Tabagismo tradicional caiu de 35% para 9% da população em três décadas graças a políticas públicas efetivas de combate. Cigarros eletrônicos crescem entre jovens (20% dos 18-24 anos) e estudos indicam riscos pulmonares e cardíacos similares ao cigarro convencional.

No Dia Nacional de Combate ao Fumo, especialista alerta sobre riscos dos cigarros eletrônicos, que crescem entre jovens apesar de proibidos no Brasil, enquanto estudos comprovam danos cardíacos do tabagismo.

Há três décadas, o Brasil reconheceu que o tabagismo não era simplesmente um hábito pessoal, mas um problema de saúde pública que exigia resposta estatal. Em 29 de agosto de 1986, o país instituiu o Dia Nacional de Combate ao Fumo e, junto com ele, uma política nacional codificada em lei. Os números que se seguiram contam uma história de sucesso raro em saúde coletiva: em 1989, quase 35% dos brasileiros maiores de 18 anos fumavam. Hoje, esse índice caiu para 9%. Campanhas educativas, restrições à publicidade e avisos nos maços de cigarro criaram uma mudança cultural tão profunda que é seguro dizer que praticamente todo brasileiro sabe, agora, que o cigarro prejudica a saúde.

Mas enquanto o cigarro tradicional desaparecia das mãos dos brasileiros, algo novo começava a crescer nas sombras. Os cigarros eletrônicos, vendidos como alternativa "menos nociva", explodiram em popularidade — especialmente entre os jovens. Apesar de proibidos no Brasil, quase 20% dos jovens entre 18 e 24 anos hoje usam vapes. É uma epidemia silenciosa, crescendo justamente na faixa etária que as políticas públicas conseguiram proteger do cigarro convencional.

A ciência está começando a revelar o que esses dispositivos realmente fazem. Um estudo abrangente conduzido pela Universidade Johns Hopkins, publicado em junho de 2022, acompanhou quase 9,5 mil pacientes — alguns deles desde 1987 — para entender a relação entre tabagismo e insuficiência cardíaca. O resultado foi inequívoco: fumantes têm o dobro da chance de desenvolver insuficiência cardíaca em comparação com quem nunca fumou. E não é apenas uma questão de parar de fumar e ficar bem. Mesmo quem abandona o cigarro segue enfrentando risco elevado de complicações cardíacas por muitos anos.

Os cigarros eletrônicos, porém, ainda são um território de incerteza. Estudos recentes associaram seu uso à inflamação pulmonar. Pesquisadores da American Heart Association analisaram dados de mais de 4 mil pacientes internados com Covid-19 em 107 hospitais americanos e descobriram que tanto o tabagismo convencional quanto o uso de vape aumentaram em 45% a chance de morte pela doença. Mas esses dispositivos são muito novos. Não há dados concretos sobre seus efeitos de longo prazo na saúde cardíaca — apenas indícios preocupantes apontando que são bastante prejudiciais.

O Brasil conquistou uma vitória impressionante contra o cigarro tradicional em três décadas. Agora enfrenta um novo desafio: uma geração de jovens que cresceu sabendo que o cigarro mata, mas não sabe — ou não acredita — que o vape também pode.

Vendido como alternativa 'menos nociva', o cigarro eletrônico é consumido hoje por quase 20% dos jovens com 18 a 24 anos, apesar de proibido no Brasil
— Ministério da Saúde
Todos os indícios apontam que os cigarros eletrônicos são bastante prejudiciais, mas faltam dados concretos sobre seus efeitos de longo prazo na saúde do coração
— Especialista em saúde cardíaca
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