A cada 29 de agosto, o Brasil é convidado a olhar de frente para uma das mais antigas e persistentes ameaças à saúde coletiva: o tabagismo em todas as suas formas. Neste ano, o cigarro eletrônico ocupa o centro do debate ao lado do cigarro tradicional — dois instrumentos de dependência que, juntos, ceifam mais de oito milhões de vidas por ano no mundo. Enquanto o Congresso delibera sobre a regulamentação do vape, a ciência já deu seu veredicto: não há alternativa segura onde há nicotina e combustão.
Cigarro e vape continuam como principais vilões no Dia Nacional de Combate ao Fumo
Usar vape regularmente equivale a fumar vinte cigarros por dia
Por que o vape ainda é tão atraente se os riscos são tão claros?
Porque parece moderno, menos agressivo, e muitas vezes é comercializado como uma ferramenta para parar de fumar. Mas a nicotina continua ali, frequentemente em concentrações maiores, e o corpo não sabe a diferença entre uma molécula de nicotina que veio de um cigarro ou de um vape.
E por que as mulheres correm mais risco?
Não é coincidência biológica. O estrógeno muda a forma como o corpo processa a nicotina, criando mais substâncias cancerígenas. É uma vulnerabilidade que a indústria do tabaco historicamente ignorou ou escondeu.
Se parar de fumar é tão difícil, por que não há mais programas públicos de cessação?
Existem, mas não são suficientemente acessíveis ou conhecidos. E há um problema de estigma — as pessoas sentem vergonha de pedir ajuda. A terapia cognitivo-comportamental funciona, mas exige tempo e recursos que nem sempre estão disponíveis.
O que muda com a votação do projeto de lei em setembro?
Se aprovado, o Brasil teria um marco regulatório claro para cigarros eletrônicos. Mas regulamentação não é proibição — pode abrir portas para legalização controlada. É um debate que vai além da saúde pública.
Então o Dia Nacional de Combate ao Fumo é apenas simbólico?
Não. É um momento para nomear o problema e lembrar que existem caminhos para sair dele. Mas só funciona se as pessoas tiverem acesso real a ajuda profissional e se a sociedade parar de tratar o tabagismo como uma falha pessoal.
The Pulse
- O vape, vendido como modernidade e alívio, esconde um risco equivalente a vinte cigarros por dia e aumenta em quase 80% a chance de infarto — e ainda assim segue amplamente acessível a jovens.
- O cigarro convencional mata sete milhões de fumantes e mais de um milhão de não-fumantes por ano, sobrecarregando famílias e sistemas de saúde ao redor do planeta.
- Mulheres enfrentam uma vulnerabilidade biológica silenciosa: o estrógeno altera o metabolismo da nicotina, elevando a produção de substâncias cancerígenas e os riscos reprodutivos.
- A votação do PL 5.008/2023, que regulamentaria os cigarros eletrônicos no Brasil, segue pendente após aprovação de audiência pública no Senado em abril.
- Especialistas alertam que parar de fumar exige mais do que força de vontade — a terapia cognitivo-comportamental é apontada como peça central para tratar os gatilhos emocionais do vício.
A cada 29 de agosto, o Brasil é convidado a olhar de frente para uma das mais antigas e persistentes ameaças à saúde coletiva: o tabagismo em todas as suas formas. Neste ano, o cigarro eletrônico ocupa o centro do debate ao lado do cigarro tradicional — dois instrumentos de dependência que, juntos, ceifam mais de oito milhões de vidas por ano no mundo. Enquanto o Congresso delibera sobre a regulamentação do vape, a ciência já deu seu veredicto: não há alternativa segura onde há nicotina e combustão.
No Dia Nacional de Combate ao Fumo, celebrado em 29 de agosto, o Brasil se vê diante de um paradoxo persistente: décadas de campanhas, proibições e evidências científicas convivem com milhões de fumantes e com a ascensão de novos dispositivos que prometem ser menos nocivos — mas não são.
O cigarro eletrônico é o símbolo mais recente dessa contradição. Segundo o InCor, usá-lo regularmente equivale a fumar vinte cigarros por dia. Estudos apontam que o vape eleva em 1,79 vezes o risco de infarto e em 19% o de insuficiência cardíaca. O pneumologista Ciro Kirchenchtejn, do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, alerta que esses dispositivos costumam conter mais nicotina do que o cigarro comum e são deliberadamente direcionados a jovens. Proibido pela Anvisa desde 2009, o vape ainda aguarda definição legal: o PL 5.008/2023, que regulamentaria sua comercialização, segue sem votação no Congresso.
O cigarro tradicional, por sua vez, permanece o vilão mais letal. A OMS contabiliza mais de oito milhões de mortes anuais atribuídas ao tabaco — incluindo 1,2 milhão de não-fumantes vítimas do fumo passivo. Para quem deseja parar, Kirchenchtejn reforça que a dependência psicológica é tão real quanto a física, e que a terapia cognitivo-comportamental aumenta significativamente as chances de sucesso.
Um dado menos discutido é a desigualdade de risco entre os sexos. Mulheres metabolizam a nicotina de forma distinta por influência do estrógeno, o que intensifica a produção de nitrosaminas — substâncias cancerígenas — e eleva a vulnerabilidade a cânceres e doenças reprodutivas. Parar de fumar, para elas, é uma decisão com consequências ainda mais amplas.
O debate sobre regulamentação avança lentamente pelo Congresso, mas a urgência da conversa — nos consultórios, nas famílias e nas políticas públicas — não pode esperar.
Nesta quinta-feira, 29 de agosto, o Brasil marca mais um Dia Nacional de Combate ao Fumo — uma data que deveria servir como ponto de parada para refletir sobre o que realmente sabemos sobre os produtos que matam. A verdade incômoda é que tanto o cigarro quanto o vape continuam sendo os grandes adversários nessa luta, e os números não mentem.
O vape, aquele dispositivo que muita gente imagina ser uma alternativa mais segura e moderna, carrega um risco que a maioria desconhece. Segundo o InCor, o Instituto do Coração do Hospital das Clínicas da FMUSP, usar vape regularmente equivale a fumar vinte cigarros por dia. Pesquisadores ao redor do mundo descobriram que o cigarro eletrônico aumenta em 1,79 vezes a probabilidade de infarto e eleva o risco de insuficiência cardíaca em 19%. Ciro Kirchenchtejn, pneumologista do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, aponta que esses dispositivos frequentemente contêm mais nicotina do que os cigarros tradicionais e são deliberadamente direcionados a jovens e grupos vulneráveis. Há ainda uma dimensão ambiental do problema: o vape adquirido de forma irregular contribui para a poluição com metais pesados. No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) proíbe o vape desde 2009, mas em abril a Comissão de Assuntos Econômicos do Senado Federal aprovou uma audiência pública para discutir a regulamentação da comercialização, produção e propaganda desses produtos. A votação do Projeto de Lei 5.008/2023, que deveria ter acontecido em setembro, segue pendente.
Mas o cigarro comum permanece como o vilão mais antigo e mais letal dessa batalha. A Organização Mundial da Saúde registra que o tabaco mata mais de oito milhões de pessoas por ano — sete milhões de fumantes e 1,2 milhão de não-fumantes expostos ao fumo passivo. Esses números representam vidas reais, famílias destruídas, sistemas de saúde sobrecarregados. Kirchenchtejn enfatiza que quando alguém quer parar de fumar, a dependência psicológica não pode ser ignorada. Ele recomenda que programas de cessação incluam terapia cognitivo-comportamental para ajudar as pessoas a lidar com os gatilhos emocionais e comportamentais que alimentam o vício. Embora seja possível parar sozinho, a maioria das pessoas precisa de suporte profissional estruturado para ter sucesso — e esse acompanhamento aumenta significativamente as chances de êxito.
Um aspecto frequentemente negligenciado é que os efeitos do tabagismo não afetam homens e mulheres da mesma forma. As mulheres correm riscos desproporcionais. Além de compartilharem doenças comuns como câncer de pulmão e doença pulmonar obstrutiva crônica, elas têm maior propensão a desenvolver câncer de pulmão e enfrentam doenças específicas do aparelho reprodutivo. A razão está na biologia: as mulheres metabolizam a nicotina de forma diferente devido aos efeitos do estrógeno, o que resulta em maior produção de nitrosaminas, substâncias cancerígenas presentes no cigarro. Se uma mulher deseja engravidar, o ideal é parar de fumar antes de tentar conceber, mas a verdade é que parar de fumar para melhorar a saúde em geral é uma escolha benéfica a qualquer momento da vida.
O Dia Nacional de Combate ao Fumo oferece uma oportunidade para refletir sobre esses malefícios — tanto os do cigarro quanto os do vape — e considerar o que está em jogo. A regulamentação dos cigarros eletrônicos segue seu caminho pelo Congresso, mas enquanto isso, a conversa sobre cessação do fumo, sobre apoio profissional e sobre as diferenças de risco entre populações precisa continuar acontecendo, em consultórios, em casas, em políticas públicas.
Notable Quotes
Os cigarros eletrônicos muitas vezes contêm mais nicotina do que os cigarros tradicionais e são frequentemente direcionados a jovens e grupos vulneráveis— Ciro Kirchenchtejn, pneumologista do Hospital Alemão Oswaldo Cruz
Programas estruturados e acompanhamento profissional aumentam significativamente as chances de sucesso na cessação do fumo— Ciro Kirchenchtejn, pneumologista