A China tornou-se a maior produtora de energia renovável do mundo, mas deparou-se com uma contradição profunda: nos primeiros seis meses de 2026, desperdiçou 360 TWh de eletricidade limpa — o equivalente a quase sete anos de consumo elétrico de Portugal — porque a sua rede não consegue transportar a energia dos desertos do oeste até às cidades do leste. O episódio recorda-nos que a transição energética não é apenas uma questão de produzir energia limpa, mas de construir a civilização técnica capaz de a conduzir até quem dela necessita.
China desperdiça 360 TWh de energia renovável em seis meses — o suficiente para alimentar Portugal 7 anos
Produzir energia limpa é fácil. Usá-la é o verdadeiro desafio.
Como é possível desperdiçar tanta energia quando o mundo inteiro precisa de eletricidade limpa?
Porque a energia não se move sozinha. Produzir 360 TWh é uma coisa; transportá-la de onde é feita para onde é precisa é completamente diferente. É como ter um rio gigantesco no meio do deserto — a água existe, mas não chega aos campos que precisam dela.
Mas a China não é um país pequeno. Porque não conseguem simplesmente ligar o oeste ao leste?
Conseguem, mas leva tempo e dinheiro colossal. Precisam de linhas de transmissão de muito alta tensão, transformadores, sistemas de controlo inteligentes. Enquanto constroem essa infraestrutura, continuam a instalar painéis solares e turbinas eólicas. O crescimento da produção é mais rápido que a capacidade de a usar.
E o armazenamento? Não podem guardar a energia para depois?
Teoricamente sim, mas em escala. Precisariam de baterias gigantescas espalhadas por todo o país. Isso também custa muito e demora tempo a construir. Entretanto, o sol continua a brilhar no Tibete e o vento continua a soprar no noroeste.
Os números oficiais chineses dizem 8-9% de desperdício. As análises independentes dizem 26%. Qual é a verdade?
Provavelmente está entre os dois, mas mais perto dos números independentes. Depende de como se calcula a produção potencial. Os oficiais podem estar a contar apenas o que foi tecnicamente ligado à rede. Os independentes contam tudo o que poderia ter sido produzido se a rede tivesse capacidade.
Isto é um problema só da China ou vai acontecer noutros países?
Já está a acontecer. Austrália, Japão, Índia — todos têm desperdício de energia renovável. Mas a China é o canário na mina. Se não conseguem resolver isto com todo o seu poder económico e tecnológico, mostra que é um desafio estrutural real da transição energética.
El Pulso
- A China produziu energia solar e eólica em tal abundância que a própria rede elétrica entrou em colapso logístico, incapaz de absorver o excedente.
- A geografia agrava o paradoxo: os parques renováveis estão no oeste remoto, enquanto as megalópoles industriais que consomem eletricidade ficam a milhares de quilómetros, no leste.
- As taxas de desperdício dispararam em 2025 — energia solar não aproveitada subiu de 3,9% para 6,6%, e no Tibete mais de 30% da produção potencial foi simplesmente perdida.
- Análises independentes sugerem que o desperdício real pode chegar aos 26,1%, muito acima dos valores oficiais, revelando uma crise de infraestrutura que as estatísticas governamentais tendem a suavizar.
- A China investe em linhas de transmissão de alta tensão e armazenamento, mas a expansão das renováveis avança tão depressa que a rede não consegue acompanhar o ritmo.
A China tornou-se a maior produtora de energia renovável do mundo, mas deparou-se com uma contradição profunda: nos primeiros seis meses de 2026, desperdiçou 360 TWh de eletricidade limpa — o equivalente a quase sete anos de consumo elétrico de Portugal — porque a sua rede não consegue transportar a energia dos desertos do oeste até às cidades do leste. O episódio recorda-nos que a transição energética não é apenas uma questão de produzir energia limpa, mas de construir a civilização técnica capaz de a conduzir até quem dela necessita.
Nos primeiros seis meses de 2026, a China desperdiçou aproximadamente 360 TWh de eletricidade renovável — energia que existiu, foi produzida, mas nunca chegou a nenhuma tomada. Para tornar o número compreensível: Portugal consumiu 53,1 TWh em todo o ano de 2025, o valor mais alto da história do Sistema Elétrico Nacional. Dividindo as contas, o desperdício chinês de meio ano equivale a quase sete anos de fornecimento elétrico a um país inteiro.
O problema tem raízes geográficas. Os gigantescos parques solares e eólicos da China estão instalados no oeste e no norte, onde o espaço é vasto e as condições meteorológicas são ideais. Mas as grandes cidades e fábricas — onde a eletricidade é realmente consumida — concentram-se no leste. Ligar estas duas realidades exigiria linhas de transmissão de altíssima tensão, redes mais sofisticadas e armazenamento em escala colossal. A infraestrutura existe em parte, mas a capacidade renovável cresceu tão depressa que a rede ficou para trás.
Os sinais de tensão já eram visíveis em 2025: a taxa de solar não aproveitado subiu de 3,9% para 6,6%, a eólica de 3% para 5,7%, e no Tibete mais de 30% da produção potencial foi perdida. As estimativas oficiais, porém, podem estar longe da realidade — análises independentes apontam para um desperdício real próximo dos 26,1%, resultado de metodologias distintas no cálculo da produção potencial.
A China não está sozinha neste dilema: a Austrália perde cerca de 7%, o Japão 4%, a Índia 14%. Mas a escala chinesa torna o problema impossível de ignorar. O país construiu uma máquina extraordinária de produção de energia limpa. O próximo desafio é construir uma rede e uma capacidade de armazenamento à mesma altura — porque produzir energia renovável resolve apenas metade da equação da transição energética.
A China construiu uma máquina de produção de energia limpa tão potente que não consegue usar tudo o que fabrica. Nos primeiros seis meses de 2026, o país desperdiçou aproximadamente 360 TWh de eletricidade renovável — energia que simplesmente não foi aproveitada porque a rede elétrica não tinha capacidade para a transportar, armazenar ou distribuir. Para colocar este número em perspetiva: essa quantidade de eletricidade limpa perdida seria suficiente para alimentar Portugal durante quase sete anos inteiros.
O contexto torna o problema ainda mais evidente quando se compara com o consumo português. Em 2025, Portugal consumiu 53,1 TWh de eletricidade através da rede pública — o valor anual mais elevado de toda a história do Sistema Elétrico Nacional. Dividindo os 360 TWh desperdiçados pela China pelos 53,1 TWh consumidos por Portugal, obtém-se 6,78 anos. Isto significa que meia ano de desperdício chinês equivale a sete anos completos de fornecimento elétrico para um país inteiro.
O paradoxo chinês revela-se numa geografia desajustada. Os gigantescos parques solares e eólicos estão instalados nas regiões ocidentais e no norte da China, onde existe espaço abundante e condições meteorológicas ideais para a produção renovável. Mas os grandes centros populacionais e industriais — onde a eletricidade é realmente necessária — concentram-se no leste. Transportar quantidades colosais de energia entre estas regiões exigiria linhas de transmissão de muito alta tensão, redes eléctricas mais sofisticadas e sistemas de armazenamento de escala gigantesca. A China está a investir nestas infraestruturas, mas a expansão da capacidade solar e eólica tem avançado tão rapidamente que a rede não consegue acompanhar o ritmo.
Os sinais de desequilíbrio tornaram-se visíveis já em 2025. A taxa de energia solar não aproveitada aumentou de 3,9% para 6,6%, enquanto a energia eólica passou de 3% para 5,7%. Em regiões como o Tibete, mais de 30% da produção potencial solar e eólica foi desperdiçada. Estes números, porém, refletem apenas as estimativas oficiais chinesas. Análises independentes do Global Energy Monitor e do Centre for Research on Energy and Clean Air apontam para uma taxa real de desperdício que poderá aproximar-se dos 26,1% — uma diferença significativa que resulta de metodologias distintas no cálculo da produção potencial das instalações renováveis.
O que a situação chinesa ilustra é um dos grandes desafios invisíveis da transição energética global. Construir milhões de painéis solares e milhares de turbinas eólicas resolve apenas metade do problema. É igualmente necessário construir redes eléctricas capazes de transportar essa energia, armazenamento suficiente para absorver os excedentes, e sistemas de gestão sofisticados capazes de equilibrar produção e consumo em tempo real. O desperdício de produção renovável não é exclusivo da China — a Austrália perde cerca de 7%, o Japão 4%, e a Índia 14%. Mas a escala chinesa torna o problema particularmente visível. O país conseguiu construir uma máquina gigantesca de produção de eletricidade limpa. Agora precisa de construir uma rede elétrica e capacidade de armazenamento igualmente gigantescas para conseguir aproveitá-la.
Citas Notables
A China conseguiu construir uma gigantesca máquina de produção de eletricidade limpa. Agora precisa de construir uma rede elétrica e capacidade de armazenamento igualmente gigantescas para conseguir aproveitá-la.— Análise do contexto energético chinês