Chanceler do Uruguai: Delcy é tão ilegítima quanto Maduro

Muitas declarações de campanha são impraticáveis quando se assume o governo
O chanceler uruguaio sobre promessas eleitorais, referindo-se indiretamente a propostas de sair do Mercosul.
Mark

O chanceler diz que a polarização não é tão intensa assim porque a Celac continua de pé. Mas isso é realmente um indicador confiável? Organizações podem funcionar mesmo quando profundamente divididas.

Mimi

É verdade, mas o ponto dele é diferente. Ele está dizendo que, apesar das diferenças ideológicas, há vontade política de manter a integração porque os problemas são comuns — narcotráfico, segurança, economia. Isso é observável nos acordos que estão sendo fechados.

Luke

Mas ele não responde por que o Brasil não está no Compromisso de Santiago. Isso é um vazio importante. Se o Brasil, a maior economia da região, não participa de um arranjo de segurança, como se mede realmente a força dessa integração?

Mark

Sobre as eleições no Brasil — ele diz que o Uruguai trabalhará com quem vencer. Mas o governo dele é próximo a Lula. Como isso não cria um conflito de interesse?

Mimi

Ele está sendo honesto sobre isso. Disse que trabalharão com quem vencer como política de Estado. É a resposta diplomática correta, mesmo que haja preferências pessoais.

Luke

Mas ele também alertou sobre interferência tecnológica nas eleições. Isso é uma preocupação específica ou uma observação genérica? Porque se há inteligência de que algo está acontecendo, isso é notícia. Se é só cautela, é diferente.

Mark

Sobre a Venezuela — ele disse que Delcy é tão ilegítima quanto Maduro. Mas o Uruguai reconhece o governo de Maduro ou não?

Mimi

Ele não respondeu isso diretamente. O que disse é que não reconhecerá ninguém até que haja eleições livres confirmadas por uma corte independente. É uma posição de princípio, não uma resposta sobre o status atual.

Luke

Exatamente. Ele evitou dizer se o Uruguai reconhece ou não o governo atual. Isso é importante porque afeta a política externa real, não apenas a retórica.

Mark

E sobre Cuba — ele disse ser o momento mais grave. Grave como?

Mimi

Ele não especificou, mas sugeriu que há uma crise humanitária ou política em curso. A resposta dele foi oferecer ajuda — leite em pó, painéis solares — o que sugere necessidade material.

Luke

Mas ele não detalhou qual é a gravidade. Protestos? Fome? Êxodo? Sem especificidade, é difícil avaliar se a preocupação dele é proporcional à realidade.

  • O Uruguai se vê pressionado a ser mediador regional justamente quando a polarização política na América Latina atinge um de seus picos mais agudos.
  • Lubetkin descarta qualquer reaproximação com Caracas enquanto Delcy Rodríguez estiver no poder, tratando-a como extensão direta da ilegitimidade de Maduro.
  • A ausência do Brasil no Compromisso de Santiago expõe uma lacuna estratégica que o chanceler reconhece diplomaticamente, mas não consegue disfarçar por completo.
  • Sobre as eleições brasileiras, Lubetkin alerta para o risco real de interferência tecnológica externa e avisa que promessas de campanha — como sair do Mercosul — costumam se chocar com a realidade do governo.
  • O acordo Mercosul-União Europeia já gera ganhos concretos para o Uruguai, com economia de US$ 35 milhões em tarifas desde maio, sinalizando que a integração produz resultados mesmo em clima de incerteza política.

Em um momento em que a América Latina se fragmenta entre impulsos ideológicos opostos, o Uruguai ocupa uma posição rara: governa pela esquerda enquanto a região vira à direita, e carrega ao mesmo tempo a presidência do Mercosul e da Celac. Seu chanceler, Mario Lubetkin, falou à margem da Assembleia Geral da ONU em Nova York, traçando uma visão de integração possível — mas sem concessões sobre legitimidade democrática, especialmente no que diz respeito à Venezuela de Delcy Rodríguez.

O Uruguai vive uma contradição produtiva: é um dos últimos governos de esquerda em uma região que virou à direita, e ao mesmo tempo preside o Mercosul e a Celac — as duas principais estruturas de integração latino-americana. Essa posição coloca o país no centro de tensões que ele não criou, mas que precisa administrar.

Mario Lubetkin, chanceler do governo Yamandú Orsi, concedeu entrevista à margem da Assembleia Geral da ONU em setembro, em Nova York. Jornalista de formação e ex-representante da FAO para a América Latina, ele descreveu um cenário de integração mais resistente do que a polarização sugere. Durante a assembleia, o Uruguai realizou quatro reuniões da Celac, e todos os países reafirmaram o desejo de manter a organização viva. Acordos com Índia, União Africana e União Europeia foram firmados ou avançados — incluindo uma cúpula presidencial Celac-UE marcada para junho em Bruxelas.

Sobre segurança, o Uruguai não foi convidado para o Escudo das Américas, mas integra o Compromisso de Santiago, que reúne sete nações sul-americanas. O Brasil está fora desse arranjo, e Lubetkin reconheceu a lacuna com cautela diplomática, dizendo apenas que o processo precisa se expandir.

Nas eleições brasileiras, o chanceler pediu transparência e democracia, alertou para o risco de interferência tecnológica externa e disse que o Uruguai trabalhará com quem vencer. Sobre Flávio Bolsonaro e a promessa de sair do Mercosul, foi direto: os laços empresariais são profundos demais, as perdas seriam significativas, e quem governa logo descobre que o que se diz em campanha raramente sobrevive ao contato com a realidade. O Brasil isolado, concluiu, é mais fraco — não mais forte.

Sobre a Venezuela, não houve margem para ambiguidade. Enquanto Delcy Rodríguez estiver no poder, não há possibilidade de retomada diplomática. Para o Uruguai, a saída é simples na formulação: eleições livres, resultado confirmado por corte independente, e o reconhecimento vem quinze minutos depois. Sobre Cuba, Lubetkin reconheceu a gravidade do momento, mas apostou no diálogo — entre Washington e Havana, e dentro da própria sociedade cubana. O Uruguai já enviou leite em pó e estuda enviar painéis solares.

O acordo Mercosul-União Europeia, em vigor desde maio, já rendeu ao Uruguai US$ 35 milhões em economia de tarifas — número expressivo para uma economia de US$ 96 bilhões. A ratificação pelo Parlamento Europeu ainda levará tempo, mas os efeitos práticos já chegaram.

O Uruguai ocupa um lugar singular na América Latina neste momento. É um dos últimos governos de esquerda em uma região que virou à direita, e carrega consigo duas responsabilidades regionais de peso: a presidência temporária do Mercosul e a liderança da Celac, a organização que reúne todos os países latino-americanos e caribenhos. Essa posição coloca o país em primeira fila para observar — e tentar costurar — os desafios que dividem a região.

Mario Lubetkin, chanceler do governo de Yamandú Orsi, falou à reportagem à margem da Assembleia Geral da ONU em setembro, em Nova York. Ele é jornalista de formação, trabalhou como representante da FAO para a América Latina e o Caribe entre 2022 e 2025, e agora navega um cenário regional cada vez mais polarizado. Quando perguntado sobre o nível de diálogo e integração na América Latina, Lubetkin ofereceu uma resposta que revela tanto otimismo quanto pragmatismo. O Uruguai, disse, mantém relações excelentes com todos os governos da região. Durante a assembleia das Nações Unidas, o país realizou quatro reuniões da Celac, e o que mais impressionou foi que todos os países presentes reafirmaram a necessidade de a organização seguir adiante — um sinal de que, apesar das diferenças ideológicas, há vontade de permanecer unido.

Essa unidade se manifesta em acordos concretos. O Uruguai, sob liderança da Celac, negociou um plano de ação conjunto com a Índia, realizou o primeiro encontro com a União Africana e combinou com a União Europeia direcionar esforços para a primeira cúpula presidencial Celac-União Europeia, marcada para junho em Bruxelas. Lubetkin argumenta que uma polarização tão intensa quanto a que alguns descrevem simplesmente não conseguiria manter organizações tão frágeis quanto a Celac de pé. A realidade, segundo ele, é que todos os países enfrentam os mesmos problemas: segurança e estabilidade socioeconômica. Não é possível fechar fronteiras apenas por questões ideológicas quando há inimigos comuns a combater.

Sobre segurança, o chanceler revelou que o Uruguai não foi convidado para integrar o Escudo das Américas, iniciativa dos Estados Unidos. Mas o país participa do Compromisso de Santiago, lançado pelo Chile, que reúne sete nações — Argentina, Bolívia, Chile, Equador, Paraguai, Peru e Uruguai — em torno de uma estratégia de segurança regional. Pela primeira vez, todos os presidentes do Compromisso se reuniram e discutiram bases para o trabalho conjunto. A questão, segundo Lubetkin, não é "segurança sim ou segurança não", mas quais organismos farão essa articulação. O Brasil, notavelmente, não participa do Compromisso de Santiago, e quando perguntado como é possível estabelecer um compromisso de segurança sem o Brasil, Lubetkin respondeu que acredita ser um processo em expansão e que todos os atores precisam participar — uma resposta diplomática que reconhece a lacuna sem dramatizá-la.

Sobre as eleições no Brasil, Lubetkin foi cuidadoso mas claro. Primeiro, pediu que sejam eleições limpas, transparentes e democráticas. Depois, disse que o povo brasileiro escolherá quem considerar melhor, e o Uruguai trabalhará com quem vencer, como política de Estado. Quando perguntado se há risco de interferência externa, respondeu que sim, isso ocorreu em outros países, portanto é preciso estar muito atento — especificamente a interferência tecnológica. Sobre Flávio Bolsonaro e sua proposta de sair do Mercosul, Lubetkin ofereceu uma observação que mistura realismo econômico com experiência política: não é fácil sair do Mercosul porque há acordos interligados demais no âmbito empresarial, e isso provocaria perdas importantes para a economia brasileira. Mas mais que isso, ele espera que, se Bolsonaro vencer e começar a governar, perceba que muitas declarações feitas durante campanha são impraticáveis quando se assume o governo. O Brasil, sozinho e sem o restante da sub-região, é mais fraco, não mais forte.

Sobre a Venezuela, Lubetkin foi categórico. Não há chance alguma de retomar relações diplomáticas com Caracas enquanto Delcy Rodríguez estiver no poder, porque ela é tão ilegítima quanto Maduro. Houve eleições que o Uruguai questionou, delas surgiu um presidente que agora está preso nos Estados Unidos, e desse presidente surge uma presidenta igualmente ilegítima. Para o Uruguai, a solução é muito clara: que haja eleições, que alguém vença, que uma corte independente confirme o resultado, e 15 minutos depois estabelecerão relações diplomáticas com o legítimo vencedor de uma eleição democrática.

Sobre Cuba, Lubetkin reconheceu ser o momento mais grave. Mas sua resposta foi construtiva: há dois diálogos necessários — um franco e voltado à negociação entre Estados Unidos e Cuba, e outro franco dentro da sociedade cubana. O Uruguai já enviou leite em pó em conjunto com os mexicanos e está disposto a enviar painéis solares pelo caminho que for possível. Quanto ao acordo Mercosul-União Europeia, que entrou em vigor em 1º de maio, Lubetkin apontou que já há consequências positivas. O Uruguai economizou US$ 35 milhões com a queda de tarifas e cotas de importação e exportação — um número significativo para um país com PIB de US$ 96 bilhões. Nesse ritmo, ultrapassarão US$ 100 milhões em um ano. O acordo está funcionando em caráter provisório enquanto aguarda ratificação pelo Parlamento Europeu, processo que Lubetkin acredita levará muito tempo.

Delcy Rodríguez é tão ilegítima quanto Maduro, e não há chance de retomar relações diplomáticas com a Venezuela enquanto ela estiver no poder
— Mario Lubetkin, chanceler do Uruguai
O Brasil, sozinho e sem o restante da sub-região, é mais fraco, não mais forte
— Mario Lubetkin, sobre as consequências de sair do Mercosul
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