CEO da Penguin Random House vê IA como aliada para potencializar criatividade editorial

Deixe a IA lavar a louça para que nós possamos focar mais em cozinhar
Malaviya resume sua visão sobre como a inteligência artificial deve ser usada na indústria editorial.
Mark

O que exatamente Malaviya quer dizer quando fala que a IA "lava a louça"? Parece uma simplificação de algo mais complexo.

Mimi

Ele está falando de tarefas operacionais repetitivas que consomem tempo e atenção. Decidir quantos livros imprimir, qual deve ser o destaque em uma plataforma—essas são decisões que envolvem análise de dados, mas não exigem julgamento editorial profundo. A IA acelera isso.

Luke

Mas quem define o que é "louça" e o que é "cozinhar"? Se um algoritmo recomenda quantos livros imprimir e a pessoa só aprova, a pessoa ainda está tomando a decisão ou apenas validando a máquina?

Mimi

Boa pergunta. Malaviya diz que a pessoa revisa, mas ele não detalha quanto tempo leva ou se há casos em que a recomendação é rejeitada. Parece haver ainda espaço para julgamento humano, mas o grau de autonomia real da pessoa não fica claro.

Mark

E quanto ao mercado brasileiro especificamente? Por que a leitura digital é apenas 10% aqui quando é 25% globalmente?

Mimi

Malaviya vê isso como oportunidade, não como problema. Significa que há espaço para crescimento. Mas também pode refletir acesso desigual a tecnologia, poder de compra, ou preferência cultural por livros físicos.

Luke

Exatamente. Ele não explora as razões. Diz que é oportunidade, mas não diz se a Penguin tem planos específicos para mudar esse número ou se está apenas esperando que o mercado evolua naturalmente.

Mark

Ele mencionou que a Companhia das Letras foi fundada em 1986. Quanto tempo a Penguin leva para integrar uma editora local?

Mimi

A Penguin comprou 45% em 2011 e agora controla 85%. Levou mais de uma década para consolidar o controle, e os fundadores ainda mantêm 15%. Isso sugere uma abordagem de integração gradual, respeitando a autonomia editorial.

Luke

Ou sugere que a Penguin foi comprando aos poucos porque não conseguiu comprar tudo de uma vez. A narrativa de "respeito à autonomia" é bonita, mas também pode ser uma necessidade comercial disfarçada de princípio.

  • A Penguin Random House, que controla 85% da Companhia das Letras, enfrenta a pressão de escalar operações globais sem perder a identidade editorial que justifica sua existência.
  • A inteligência artificial já orienta decisões como tiragens e visibilidade em plataformas digitais, gerando tensão entre eficiência algorítmica e autonomia criativa.
  • Malaviya insiste que nenhuma decisão da IA é final — toda sugestão da máquina passa por aprovação humana, um freio deliberado contra a automação irrestrita.
  • O mercado digital representa apenas 10% da receita no Brasil, contra 25% globalmente, apontando tanto uma defasagem quanto uma oportunidade concreta de expansão.
  • O CEO vê o Brasil como território ainda aberto — jovem, diverso e longe da saturação — e sua visita sinaliza que o país ocupa lugar estratégico nos planos do grupo.

Em visita ao Brasil para celebrar os 40 anos da Companhia das Letras, Nihar Malaviya, presidente da Penguin Random House, refletiu sobre o papel da inteligência artificial na maior editora comercial do mundo — não como substituta do julgamento humano, mas como alívio das tarefas que consomem energia sem exigir alma. Num setor que publica 15 mil títulos por ano e toma milhões de decisões, a questão não é se a tecnologia vai transformar o ofício, mas como preservar, dentro dessa transformação, o gesto essencial de escolher quais histórias merecem existir.

Nihar Malaviya chegou ao Brasil pela primeira vez como presidente-executivo da Penguin Random House para celebrar os 40 anos da Companhia das Letras, editora na qual seu grupo detém 85% das ações desde uma trajetória de aquisições iniciada em 2011. Os 15% restantes pertencem a Luiz e Lilia Schwarcz, fundadores da casa em 1986. A visita de duas semanas tinha também um propósito estratégico: avaliar pessoalmente um mercado que Malaviya descreve como jovem demais para estar saturado.

Discrete e econômico nas palavras — contraste com seu antecessor Markus Dohle, que deixou o cargo após o bloqueio judicial da fusão com a Simon & Schuster em 2022 —, Malaviya reforça que as editoras do grupo em mais de 20 países operam com autonomia. A matriz funciona como fórum de troca, não de imposição.

Sobre inteligência artificial, porém, ele fala com convicção. A tecnologia, para ele, não ameaça o trabalho editorial: ela lava a louça para que a equipe possa cozinhar. Com 15 mil novos títulos publicados por ano e milhões de decisões envolvidas — capas, títulos, precificação, marketing —, qualquer ganho de eficiência preserva energia para as escolhas que realmente importam. Algoritmos já sugerem tiragens e estratégias de visibilidade em plataformas como a Amazon, mas toda recomendação passa por aprovação humana.

O mercado digital representa um quarto da receita global da Penguin, entre ebooks e audiolivros. No Brasil, esse número fica em torno de 10%, um sinal claro de espaço a ocupar. Malaviya admite que suas respostas sobre IA serão diferentes no próximo ano — mas garante que o coração do negócio não muda: a decisão humana sobre quais histórias merecem chegar ao leitor.

Nihar Malaviya desceu do avião no Brasil pela primeira vez como presidente-executivo da Penguin Random House, a maior editora comercial do mundo. Aos 51 anos, ele chegava a um país onde sua empresa controla 85% da Companhia das Letras, a editora com a maior fatia do mercado brasileiro de livros. A visita de duas semanas tinha um propósito claro: celebrar os 40 anos da Companhia das Letras e avaliar pessoalmente o mercado que sua corporação comanda.

A trajetória que levou a Penguin a essa posição começou em 2011, quando a empresa adquiriu 45% da editora brasileira. Dois anos depois, após sua fusão com o grupo Random House, a Penguin assumiu a liderança global da indústria de livros comerciais. Hoje controla 85% das ações da Companhia das Letras, deixando os 15% restantes com Luiz e Lilia Schwarcz, o casal que fundou a editora em 1986. Malaviya vê no Brasil um território fértil para expansão. Em conversa em um hotel de luxo no bairro do Itaim Bibi, em São Paulo, ele descreveu o país como jovem demais para estar saturado de leitores. "É um país muito jovem, com um leque amplo de pessoas que ainda podem se tornar leitoras regulares", afirmou. A diversidade geográfica e cultural brasileira, segundo ele, abre espaço para múltiplos tipos de publicações.

Malaviya é um homem discreto, de poucas palavras espontâneas, um contraste marcante com seu antecessor Markus Dohle, que saiu do cargo após o fracasso da tentativa de fusão entre Penguin e Simon & Schuster, bloqueada pela Justiça americana em 2022. O atual CEO, indiano radicado nos Estados Unidos desde a infância, reforça que as editoras do grupo em mais de 20 países operam com autonomia. O que a matriz faz é criar fóruns globais onde equipes de diferentes regiões compartilham soluções para desafios similares em edição, finanças, cadeia de suprimentos, tecnologia e marketing.

Quando o assunto é inteligência artificial, Malaviya abandona a cautela. Ele não vê a tecnologia como ameaça ao trabalho editorial, mas como ferramenta que libera energia criativa para decisões que realmente importam. Uma frase que circulou entre seus fóruns globais resume sua visão: "Deixe a IA lavar a louça para que nós possamos focar mais em cozinhar." A Penguin publica cerca de 15 mil novos livros por ano, cada um envolvendo centenas de decisões—design de capa, escolha de título, estratégia de marketing, precificação. São milhões de decisões anuais. Se a tecnologia conseguir acelerar ou melhorar algumas delas, o grupo preserva a energia criativa para as escolhas que fazem diferença.

Mas Malaviya é claro em um ponto: tudo passa pela aprovação humana. A empresa tem investido, por exemplo, em algoritmos que recomendam quantos exemplares imprimir de cada lançamento ou reimpressão, baseado no desempenho junto aos leitores. A máquina faz a sugestão; uma pessoa revisa e aprova. O resultado é redução significativa de trabalho manual. Outro exemplo é a decisão sobre quais livros destacar na Amazon e outras plataformas digitais. Essas plataformas compartilham seus dados volumosos com a editora, e a tecnologia os processa para informar estratégias de visibilidade.

O mercado digital já representa um quarto da receita global da Penguin, dividido entre ebooks e audiolivros. No Brasil, esse percentual fica próximo de 10%, sinalizando espaço considerável para crescimento. Malaviya reconhece que a forma como a Penguin vende livros muda constantemente. Suas respostas sobre inteligência artificial, diz ele, serão diferentes no próximo ano. "Todo aspecto de como trabalhamos mudou dramaticamente e vai continuar mudando. Mas o coração do que fazemos não muda." Esse coração permanece sendo a decisão editorial humana, a escolha de quais histórias merecem chegar aos leitores e como apresentá-las ao mundo.

É um país muito jovem, com um leque amplo de pessoas que ainda podem se tornar leitoras regulares
— Nihar Malaviya, presidente-executivo da Penguin Random House
Todo aspecto de como trabalhamos mudou dramaticamente e vai continuar mudando. Mas o coração do que fazemos não muda
— Nihar Malaviya
Möchten Sie die ganze Geschichte? Das Original lesen bei Folha de S.Paulo ↗
Kontakt FAQ