CEO da Mistral: jovens não bebem vinho porque não têm dinheiro, não por falta de interesse

O jovem não tem dinheiro para comprar vinho
CEO da Mistral explica por que jovens bebem menos álcool: questão financeira, não desinteresse.
Mark

Quando você diz que os jovens não bebem vinho por falta de dinheiro, não por falta de interesse, como você chegou a essa conclusão?

Mimi

Pelas análises mais sérias do setor. Se fosse desinteresse, veríamos uma rejeição cultural, uma mudança de preferência clara. O que vemos é que quando o jovem tem poder aquisitivo, ele bebe vinho. O problema é que a maioria não tem.

Mark

Mas não há um componente cultural também? A geração Z parece preferir outras bebidas.

Mimi

Existe, claro. Mas é secundário. A cerveja zero álcool cresceu porque é acessível. Se o vinho custasse o mesmo, a história seria diferente. O status do vinho no Brasil ainda é muito forte.

Mark

Você mencionou que os produtores estão apostando em vinho zero álcool por ansiedade. Isso não é um sinal de que o mercado está realmente mudando?

Mimi

É um sinal de pânico, não de mudança real. Os produtores veem as vendas caindo e tentam inventar uma solução. Mas o consumidor não está pedindo vinho sem álcool. Os espumantes funcionam, mas os vinhos convencionais são ruins ainda.

Mark

O acordo Europa-Mercosul vai resolver a crise?

Mimi

Não vai resolver nada imediatamente. É um alívio gradual. Em oito anos, quando o imposto chegar a zero, o vinho europeu vai competir em igualdade de condições. Mas enquanto isso, a crise continua.

Mark

E se vier esse imposto seletivo que você mencionou?

Mimi

Aí complica tudo. Seria um golpe adicional em um mercado que já está sob pressão. Mas por enquanto é só risco, não realidade.

Mark

Qual é o seu otimismo com o mercado brasileiro?

Mimi

O Brasil está na contramão. Enquanto a Europa desaba, a gente cresce. Os vinhos nacionais estão crescendo, o consumidor está amadurecendo. Há esperança aqui.

  • A Europa vinícola sangra: França, Itália, Portugal e Espanha acumulam estoques sem compradores, pressionadas pela inflação de insumos, pelo fechamento dos mercados chinês e russo e pelas tarifas americanas.
  • O vinho zero álcool surge como aposta desesperada dos produtores, mas Lilla descarta a estratégia — há mais ansiedade da oferta do que demanda real, e a qualidade do produto ainda decepciona.
  • O clima agrava a equação: a safra de 2024 na Borgonha foi mínima, fungos e secas devastaram vinhedos europeus, e o calor crescente inverte séculos de lógica vitícola, antecipando colheitas e elevando o teor alcoólico.
  • No Brasil, o acordo Mercosul-Europa já reduziu o imposto sobre vinhos de 27% para 24%, com trajetória a zero em oito anos — um alívio gradual para o consumidor, mas a reforma tributária e um possível imposto seletivo sobre álcool ameaçam o equilíbrio.
  • O consumidor brasileiro típico da Mistral tem mais de 30 ou 40 anos, e o jovem segue excluído não por desinteresse, mas por uma barreira financeira que o vinho — produto historicamente de nicho no país — ainda não conseguiu transpor.

Em meio ao colapso das vinícolas europeias — onde estoques se acumulam e mercados historicamente sólidos encolhem — o Brasil permanece como uma ilha de relativa estabilidade, sustentada pelo crescimento dos vinhos nacionais. O CEO da Mistral, Otavio Lilla, oferece uma leitura que vai além do modismo: os jovens não abandonaram o vinho por indiferença, mas porque o custo da vida os afastou da taça. É uma crise que revela, no fundo, a tensão entre o prazer cultivado e o poder aquisitivo que o torna possível.

A indústria vinícola europeia atravessa um colapso sem precedentes recentes. Nas grandes regiões produtoras — França, Itália, Portugal, Espanha —, os estoques se acumulam e as vendas despencaram. A convergência de fatores é brutal: inflação de insumos que encareceu vidro e rolhas, o desaparecimento de mercados como China e Rússia, e as tarifas impostas pelos Estados Unidos, o maior consumidor mundial. O Brasil, por contraste, permanece estável, sustentado pelo avanço dos vinhos nacionais.

Otavio Lilla, CEO da Mistral — importadora fundada em São Paulo em 1973 e que hoje distribui mais de cinco mil rótulos de dezoito países —, acompanha essa transformação de dentro. Para ele, o diagnóstico mais honesto sobre o afastamento dos jovens do vinho não é cultural: é financeiro. A bebida simplesmente ficou cara demais para quem está começando a vida. Os produtores, ansiosos, apostaram nos vinhos zero álcool como saída, mas Lilla é cético: os espumantes sem álcool têm algum apelo, mas os vinhos convencionais descalcoolizados ainda carecem de qualidade — o processo é agressivo, caro e deixa o produto desequilibrado.

O cenário climático aprofunda a crise. A safra borgonhesa de 2024 foi mínima. Em toda a Europa, fungos, secas, calor extremo e incêndios castigaram os vinhedos. Há uma inversão histórica: se antes o desafio era amadurecer a uva, hoje o problema é o oposto — o calor acelera tudo, eleva o álcool e antecipa as colheitas.

No Brasil, o acordo entre Europa e Mercosul já iniciou a redução gradual do imposto sobre vinhos importados, de 27% rumo a zero em oito anos. O benefício ao consumidor será real, mas lento. No horizonte, uma reforma tributária com possível imposto seletivo sobre álcool pode complicar o caminho. Enquanto isso, o mercado brasileiro amadurece em silêncio: os rosés cedem espaço aos brancos, e o consumidor da Mistral — tipicamente acima dos 30 ou 40 anos — vai, garrafa a garrafa, migrando para rótulos mais sofisticados. O vinho no Brasil ainda é produto de uma fatia pequena da população, e o jovem segue do lado de fora — não por escolha, mas por conta.

A indústria vinícola europeia está em colapso. Nas principais regiões produtoras — França, Itália, Portugal, Espanha — os estoques se acumulam sem encontrar compradores. As vendas despencaram. Na contramão dessa onda, o Brasil segue estável, impulsionado pelo crescimento do consumo de vinhos nacionais. Mas há um fenômeno que preocupa toda a cadeia: os jovens bebem menos álcool.

Otavio Lilla, de 48 anos, acompanha essa transformação de perto. Como CEO da Mistral, uma das principais importadoras premium do país, ele comanda uma operação que traz mais de cinco mil rótulos de dezoito países — nomes como Vega Sicilia, Gaja, Joseph Drouhin, Biondi Santi, Sassicaia, Rothschild, Pol Roger e Catena Zapata. A empresa, fundada em São Paulo em 1973 e adquirida pelo pai de Otavio em 1991, foi pioneira em importar vinhos em containers refrigerados, apostando em qualidade para um mercado de nicho. Hoje opera sete lojas próprias em quatro estados e no Distrito Federal, várias com wine bar, além de representantes espalhados pelo Brasil. O e-commerce, lançado em 1999, responde por 6% das vendas.

Segundo Lilla, a crise que assola a Europa é resultado de uma convergência de fatores. A inflação de insumos elevou drasticamente os custos: vidro, rolhas, tudo ficou mais caro. Os produtores sofrem pressão de todos os lados. Mas o fator mais determinante, na avaliação dele, não é falta de interesse das gerações mais jovens pelo vinho — é simplesmente que a bebida ficou cara demais para elas. Além disso, mercados importantes como China e Rússia desapareceram. As tarifas impostas pela administração Trump impactaram fortemente as vendas para os Estados Unidos, o maior mercado vinícola do mundo.

Diante dessa realidade, muitos produtores começaram a investir em vinhos zero álcool, apostando que essa categoria poderia compensar a queda de consumo. Lilla não acredita nessa estratégia. Para ele, existe mais ansiedade dos produtores do que demanda real dos consumidores por esses produtos. Os espumantes zero álcool têm tido algum sucesso, mas os vinhos convencionais sem álcool ainda carecem de qualidade. O processo de produção é agressivo e caro, deixando o produto desequilibrado. Ele próprio não bebe vinho zero álcool.

O cenário climático agrava tudo. A safra de 2024 na Borgonha foi mínima. Em toda a Europa, chuvas intensas durante metade do ano causaram ataques de fungos nos vinhedos. Em outras regiões, a seca, o calor extremo e incêndios destruíram plantações. Há uma inversão histórica em curso: até os anos 1960 e 1970, o grande desafio era fazer a uva chegar à maturidade. Hoje o problema é o oposto. O calor predomina, a uva amadurece rapidamente demais, o nível alcoólico sobe, e a colheita é antecipada cada vez mais.

No Brasil, o acordo entre Europa e Mercosul promete mudanças graduais. O imposto sobre vinhos europeus vai cair de 27% para zero em oito anos — já começou, está em 24%. Não vai transformar o mercado da noite para o dia, mas beneficiará o consumidor a longo prazo. Simultaneamente, uma reforma tributária está em discussão, com risco de um imposto seletivo específico para álcool, cigarros e bebidas com açúcar.

Quanto ao comportamento do consumidor brasileiro, Lilla é claro: sim, o vinho ainda é comprado por status. Mas isso não é exclusividade do Brasil — acontece no mundo todo. A questão central é que no Brasil o vinho permanece um produto para uma classe social muito pequena, justamente por causa do custo. Existe também a percepção de que é uma bebida de velhos, mas essa é uma questão secundária. O jovem simplesmente não tem dinheiro para comprar vinho. O consumidor típico da Mistral tem mais de 30, mais de 40 anos, e vai se acostumando gradualmente a adquirir rótulos mais caros.

Os vinhos mais prestigiados da Mistral não são necessariamente os mais caros. Os mais disputados são Domaine Cécile Tremblay, Château Rayas — vendido uma garrafa por CPF —, Gaja, Vega Sicilia, Opus One e Biondi Santi Riserva. Recentemente, a importadora adicionou ao catálogo o famoso Montrachet do Domaine Leflaive, da Borgonha, que chegará ao consumidor por cerca de 34 mil reais a garrafa. Há também uma tendência clara: o consumo de vinhos brancos cresce significativamente, com muitos consumidores migrando dos rosés — que vinham crescendo há cinco ou seis anos — para os brancos. Não é tanto uma questão de volume, mas de amadurecimento do mercado.

Não se trata tanto de falta de interesse pelo vinho, mas que ele ficou caro para as gerações mais novas
— Otavio Lilla, CEO da Mistral
Existe mais impulso dos produtores no vinho zero álcool do que do consumidor
— Otavio Lilla
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