Centeno nega conflito de interesses ao aceitar cargo no Abanca

O negócio foi sempre entre privados, e o supervisor apenas avaliava o comprador
Centeno nega participação na escolha do Abanca como adquirente do Eurobic, argumentando que seu papel limitava-se à avaliação de idoneidade.
Mark

Centeno diz que o Abanca já era o comprador identificado quando ele chegou ao Banco de Portugal. Mas como é que ele sabe disso com tanta certeza?

Mimi

Ele aponta para a cronologia: o Abanca manifestou interesse em fevereiro de 2020, desistiu em junho, e Centeno chegou em julho. Quando voltou a haver notícias do interesse, em 2022, Centeno já estava no cargo há dois anos.

Luke

Mas há um problema. O Abanca desistiu em junho de 2020 porque disse que as condições não estavam a ser cumpridas. Quem garantiu que essas condições mudaram? Quem supervisionou isso? Centeno estava lá.

Mimi

Centeno diz que o supervisor era o BCE, não o Banco de Portugal. Que o papel dele era apenas avaliar a idoneidade do comprador.

Luke

Certo, mas o Banco de Portugal é o supervisor nacional. O BCE supervisiona o grupo, mas o Banco de Portugal supervisiona a instituição portuguesa. E Centeno não quis comentar sobre o seu papel específico.

Mark

E quanto ao timing? Centeno só entra na seguradora um ano após sair. Isso não mostra que ele respeitou as regras?

Mimi

Tecnicamente, sim. Informou o BCE, informou a Comissão de Ética. Tudo dentro das regras.

Luke

Mas as regras permitem isso. A questão é se as regras são suficientes. Um ex-regulador que supervisionou um banco durante uma grande transação pode depois trabalhar para o comprador, desde que espere um ano. Isso é legal, mas é saudável?

Mark

Paulo Núncio atacou Centeno por ser comentador independente apesar de falhas em previsões. Isso é relevante para o cargo no Abanca?

Mimi

Não diretamente. Núncio estava a criticar a credibilidade geral de Centeno, não o conflito de interesses específico.

Luke

Mas mostra um padrão. Centeno sai do Banco de Portugal e imediatamente começa a comentar sobre economia e política. Agora entra num banco. A questão é: ele está realmente independente, ou está a construir uma carreira no setor que supervisionava?

  • A nomeação de Centeno para a seguradora do Abanca reacendeu suspeitas sobre a fronteira entre supervisão pública e benefício privado posterior.
  • O ex-governador defende-se com uma cronologia precisa: o Abanca já era comprador identificado do Eurobic antes de ele assumir o cargo em julho de 2020.
  • Centeno cumpriu os procedimentos formais — notificou o BCE e a Comissão de Ética do Banco de Portugal, recebendo luz verde após o período de nojo de um ano.
  • No Parlamento, deputados questionaram não só a ética da nomeação, mas a credibilidade de Centeno como voz independente sobre economia após falhas em previsões anteriores.
  • O Banco de Portugal recusou comentar o papel de Centeno na transação, deixando em aberto a questão sobre a separação entre supervisão passada e relação comercial presente.

Quando um regulador se torna colaborador de quem regulou, a linha entre dever público e interesse privado torna-se objeto de escrutínio coletivo. Mário Centeno, ex-governador do Banco de Portugal, ingressa na seguradora do grupo Abanca — o mesmo grupo que adquiriu o Eurobic sob sua supervisão — argumentando que as regras foram cumpridas e que os processos eram anteriores ao seu mandato. A questão que persiste não é apenas jurídica, mas simbólica: até que ponto a confiança nas instituições depende não só da legalidade dos atos, mas da aparência de imparcialidade de quem as serviu.

Pouco mais de um ano depois de deixar o Banco de Portugal, Mário Centeno aceitou um lugar como administrador não-executivo da Abanca Vida y Pensiones, a seguradora do grupo bancário espanhol Abanca. A nomeação, anunciada em setembro de 2026, trouxe de volta uma questão incómoda: foi precisamente durante o mandato de Centeno como governador que o Abanca comprou o Eurobic, banco português parcialmente detido pela angolana Isabel dos Santos.

Centeno rejeita qualquer conflito de interesses. Explica que quando chegou ao Banco de Portugal, em julho de 2020, o processo de venda do Eurobic já decorria há meses e o Abanca já estava identificado como potencial comprador. Sublinha que a transação foi sempre entre privados e que a avaliação da idoneidade do comprador cabia ao BCE, não ao Banco de Portugal. A cronologia que apresenta é detalhada: o Abanca manifestou interesse no início de 2020, desistiu em junho, e o negócio só foi retomado em 2022, sendo concluído em 2023 por 300 milhões de euros.

O ex-governador seguiu os procedimentos exigidos pelas regras europeias. Informou o BCE sobre a negociação — tal como fizera com o seu cargo de comentador na CNN Portugal — e também a Comissão de Ética do Banco de Portugal. Ambas as instâncias confirmaram que não havia impedimentos, desde que a entrada no cargo ocorresse após um ano de saída do Banco de Portugal. Centeno entrou formalmente na seguradora em outubro de 2026, respeitando esse prazo. Acrescenta ainda que trabalha para a seguradora, não para o banco, um setor que nunca esteve sob a sua supervisão direta.

A nomeação gerou reações no Parlamento. O deputado do CDS-PP Paulo Núncio questionou a credibilidade de Centeno como comentador independente, citando falhas em previsões económicas anteriores e criticando um artigo de opinião em que o ex-governador alertava para riscos na despesa pública. O primeiro-ministro Luís Montenegro respondeu que a governação segue o rumo certo, contrariando as advertências de Centeno.

O que permanece sem resposta clara é se a supervisão exercida por Centeno sobre o Eurobic — incluindo decisões sobre a estabilidade do banco durante um período de escândalo — pode ser inteiramente separada da sua atual ligação comercial ao grupo que o adquiriu. O Banco de Portugal não comentou. A legalidade do percurso parece assegurada; a questão da aparência de independência fica em aberto.

Mário Centeno saiu do Banco de Portugal há pouco mais de um ano. Agora, aceita um cargo como administrador não-executivo da Abanca Vida y Pensiones, a seguradora do grupo bancário espanhol Abanca. A nomeação, anunciada no final de setembro de 2026, reacendeu uma questão que pairava sobre seu mandato como governador: o Abanca comprou o Eurobic, um banco português parcialmente detido pela angolana Isabel dos Santos, durante exatamente o período em que Centeno supervisionava o sistema financeiro português.

Centeno nega qualquer conflito de interesses. Em declarações ao Observador, sustenta que quando chegou ao Banco de Portugal no verão de 2020, o processo de venda do Eurobic já estava em curso há vários meses e o Abanca já era identificado como potencial comprador. O ex-governador frisa que o negócio foi sempre uma transação entre privados e que o papel do supervisor — neste caso, o Banco Central Europeu, não o Banco de Portugal — limitava-se a avaliar a idoneidade e robustez financeira do adquirente. Admite ter gerido o processo com "preocupação", mas garante que essa preocupação dizia respeito apenas à estabilidade do sistema financeiro e ao facto de um banco português estar exposto aos riscos trazidos pelo escândalo Luanda Leaks.

A cronologia que Centeno apresenta é precisa. O Abanca manifestou interesse no Eurobic no início de 2020, quando o escândalo Luanda Leaks eclodiu. Anunciou um acordo de compra em fevereiro de 2020, mas desistiu em junho do mesmo ano, alegando que as condições não estavam a ser cumpridas. Centeno assumiu o cargo de governador alguns meses depois, em julho de 2020. O interesse do Abanca ressurgiu em 2022, e a transação foi finalmente fechada em 2023, com os espanhóis a pagarem 300 milhões de euros. O Eurobic tornou-se o sétimo maior banco português em volume de ativos.

O Abanca já tinha presença em Portugal desde 2018, quando comprou a banca comercial do Deutsche Bank, operação que lhe deu cerca de 50 mil clientes e 41 centros comerciais. Mas foi a compra do Eurobic que consolidou a posição do grupo no mercado português. Hoje, o Abanca é o oitavo maior banco em Espanha, com sede na Galiza, e opera em múltiplos mercados europeus e americanos. Juan Carlos Escotet, um empresário espano-venezuelano, é o rosto do grupo.

Centeno argumenta que não trabalha "com o banco mas com a seguradora", um setor que nunca esteve sob sua supervisão. Informou o Banco Central Europeu sobre as negociações com o Abanca, tal como fez com o seu cargo de comentador político na CNN Portugal. O BCE confirmou que, um ano após deixar o cargo de governador, não havia impedimentos. As regras europeias estabelecem que um antigo membro do Conselho do BCE deve informar a autoridade monetária sobre qualquer cargo remunerado nos dois anos seguintes à saída. Durante o primeiro ano, porém, não pode assumir cargos em instituições de crédito. Por isso, Centeno só entra na seguradora do Abanca no início de outubro de 2026, exatamente um ano após deixar o Banco de Portugal. Também informou a Comissão de Ética do Banco de Portugal, que analisou a questão em maio de 2026 e remeteu para a posição do BCE.

A nomeação gerou críticas no Parlamento. Paulo Núncio, deputado do CDS-PP, questionou a credibilidade de Centeno como comentador independente sobre economia, apontando falhas em previsões anteriores. Núncio referiu-se sarcasticamente à reforma antecipada de Centeno aos 59 anos e criticou um artigo de opinião que Centeno publicou no Público alertando para riscos na economia e na despesa pública. "Como é que o Governo responde a estes aprendizes do professor Chibanga, que nunca acertaram uma previsão nos últimos anos?", perguntou Núncio durante o debate quinzenal com o primeiro-ministro Luís Montenegro. O primeiro-ministro respondeu que a governação está "no bom caminho" e que a despesa corrente primária está controlada, contrariando as advertências de Centeno.

O que fica em aberto é se a supervisão de Centeno sobre o Eurobic durante seu mandato — incluindo decisões sobre a estabilidade do banco e a adequação do comprador — pode ser separada da sua atual relação comercial com o Abanca. O Banco de Portugal, quando questionado pelo Observador sobre o papel de Centeno na transação, não fez comentários. Centeno não estava no cargo quando os direitos de voto de Isabel dos Santos foram bloqueados em maio de 2020, mas era ministro das Finanças de um Governo que nacionalizou temporariamente a posição acionista dela na Efacec.

Quando fui para o Banco de Portugal, o Abanca já era apresentado como o comprador do Eurobic
— Mário Centeno
Como é que o Governo responde a estes aprendizes do professor Chibanga, que nunca acertaram uma previsão nos últimos anos?
— Paulo Núncio, deputado do CDS-PP
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