Países ricos como Canadá garantiram vacinas para cinco vezes sua população, enquanto 67 nações pobres enfrentam escassez crítica. Seis países lusófonos (Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe, Timor-Leste) estão entre os mais afetados pela distribuição desigual.
70 países em desenvolvimento só vacinam uma em cada dez pessoas em 2021
Países ricos têm doses para vacinar três vezes; pobres nem para trabalhadores de saúde
Então a questão é simples — os ricos compraram tudo e os pobres ficaram sem nada?
Não é bem assim. O COVAX existe e conseguiu 700 milhões de doses. Mas sim, há uma disparidade brutal. Canadá tem vacinas para cinco vezes sua população. Países como Moçambique ou Timor-Leste têm o suficiente para uma em cada dez pessoas.
Espera — esses números de "uma em cada dez" são para 2021 inteiro, certo? Ou é um snapshot de dezembro de 2020?
É uma projeção para 2021 com base nos contratos já assinados naquele momento. Não é garantido que nada mude.
E quanto ao COVAX? Não era suposto resolver isto?
O COVAX é um mecanismo de partilha, mas depende de doações e de países ricos cumprirem compromissos. Tinha 700 milhões de doses para 3,6 mil milhões de pessoas. Faz as contas.
Portanto, o COVAX cobre menos de 20% da população dos países que aderem. E a análise diz que 30 países de baixo rendimento e 37 de rendimento médio só têm acesso através do COVAX?
Exatamente. Esses países não têm contratos bilaterais com as farmacêuticas. Dependem inteiramente do COVAX.
Quem é que está a dizer isto tudo? São ativistas ou há dados sólidos por trás?
A Peoples Vaccine Alliance — Oxfam, Amnistia Internacional, Global Justice Now, Frontline AIDS. Analisaram os contratos públicos entre países e as oito principais vacinas candidatas.
Mas as farmacêuticas não divulgam todos os contratos. Portanto, esta análise é baseada no que é público, não na realidade completa.
Verdade. Mas o que é público já mostra um padrão claro.
E as farmacêuticas — receberam dinheiro público?
Sim. AstraZeneca/Oxford, Moderna e Pfizer/BioNTech receberam mais de 5 mil milhões de dólares de financiamento público para investigação.
Então o argumento é: se receberam dinheiro público, têm obrigação de servir o interesse público global, não apenas lucro.
Exatamente esse.
Faz sentido. Mas o que muda agora? Isto é um aviso ou uma análise de algo que já é inevitável?
É um aviso. As organizações pedem partilha de conhecimento científico, produção em mais locais, e que governos obriguem as farmacêuticas a priorizar vidas sobre lucros. Mas em dezembro de 2020, nada disto estava garantido.
Der Puls
- 70 países em desenvolvimento com vacinas para apenas uma em cada dez pessoas em 2021
- Países ricos garantiram 53% de todas as doses promissoras, representando 14% da população global
- Canadá assegurou vacinas para cinco vezes sua população; 67 nações pobres enfrentam escassez crítica
- Seis países lusófonos (Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe, Timor-Leste) entre os mais afetados
- COVAX assegurou 700 milhões de doses para 92 países com 3,6 mil milhões de habitantes
Países ricos como Canadá garantiram vacinas para cinco vezes sua população, enquanto 67 nações pobres enfrentam escassez crítica. Seis países lusófonos (Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe, Timor-Leste) estão entre os mais afetados pela distribuição desigual.
Cerca de 70 países em desenvolvimento terão vacinas suficientes apenas para imunizar uma em cada dez pessoas em 2021, enquanto países ricos já garantiram 53% das doses disponíveis.
Uma coligação de organizações internacionais divulgou um retrato perturbador da distribuição global de vacinas contra a covid-19: cerca de 70 países em desenvolvimento, incluindo seis nações lusófonas, teriam doses suficientes apenas para imunizar uma em cada dez pessoas durante 2021. A análise, apresentada pela Peoples Vaccine Alliance — que reúne Amnistia Internacional, Frontline AIDS, Global Justice Now e Oxfam — examinou os contratos já assinados entre governos e as oito principais candidatas a certificação de vacina.
O desequilíbrio era gritante. Os países mais ricos, representando apenas 14% da população mundial, já haviam garantido 53% de todas as doses promissoras. Enquanto isso, 67 nações de baixo e médio rendimento enfrentavam uma escassez crítica. O Canadá, por exemplo, havia assegurado vacinas suficientes para imunizar sua população inteira cinco vezes. Entretanto, dezenas de países pobres — muitos deles entre os mais carentes do planeta — mal conseguiriam proteger seus cidadãos de forma abrangente. Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste, todos lusófonos, figuravam entre os mais prejudicados. Cinco nações particularmente vulneráveis — Quénia, Mianmar, Nigéria, Paquistão e Ucrânia — registavam em conjunto 1,5 milhões de casos de infeção.
A Peoples Vaccine Alliance alertava que, sem mudanças drásticas, bilhões de pessoas em todo o mundo não receberiam uma vacina segura e eficaz nos anos seguintes. Anna Marriott, gestora de política de saúde da Oxfam, foi direta: o cenário apontava para um fracasso global em proteger a humanidade. Heidi Chow, da Global Justice Now, sublinhava a necessidade urgente de partilha do conhecimento científico e da propriedade intelectual por detrás das vacinas, permitindo que doses seguras e eficazes fossem produzidas em quantidade suficiente. Os governos, argumentava, precisavam garantir que a indústria farmacêutica colocasse vidas acima de lucros.
Steve Cockburn, da Amnistia Internacional, criticou duramente o que chamou de "açambarcamento de vacinas" pelos países ricos, considerando-o uma violação das obrigações em matéria de direitos humanos. Ao comprar a maioria da oferta mundial, as nações desenvolvidas minavam os esforços globais para proteger todos contra a pandemia. Mohga Kamal Yanni, da People's Vaccine Alliance, resumiu a disparidade com números contundentes: países ricos tinham doses suficientes para vacinar toda a gente quase três vezes, enquanto países pobres não tinham sequer o bastante para alcançar trabalhadores da saúde e populações de risco.
O sistema em vigor — onde empresas farmacêuticas utilizavam financiamento governamental para investigação, mantinham direitos exclusivos e guardavam tecnologia em segredo para maximizar lucros — podia custar muitas vidas, alertava Kamal Yanni. As vacinas desenvolvidas pela AstraZeneca/Oxford, Moderna e Pfizer/BioNTech haviam recebido mais de 5 mil milhões de dólares de financiamento público, o que, segundo as organizações, lhes atribuía responsabilidade de agir no interesse público global. Lois Chingandu, da Frontline AIDS, insistia que a pandemia era um problema global que exigia solução global — a economia mundial continuaria a sofrer enquanto grande parte do planeta não tivesse acesso a vacina.
O COVAX, o mecanismo internacional de distribuição, havia conseguido assegurar 700 milhões de doses dos principais candidatos, a serem distribuídas entre 92 países que aderiram ao programa e que, em conjunto, representavam 3,6 mil milhões de habitantes. Mas mesmo este esforço era insuficiente. Os cálculos da análise baseavam-se no facto de que 30 países de baixo rendimento e 37 de rendimento médio teriam acesso a qualquer vacina apenas através do COVAX — um compromisso que, embora importante, deixava bilhões de pessoas vulneráveis a uma espera prolongada por proteção.
Bemerkenswerte Zitate
A menos que algo mude drasticamente, milhares de milhões de pessoas em todo o mundo não receberão uma vacina segura e eficaz para a COVID-19 durante os próximos anos— Anna Marriott, gestora de política de saúde da Oxfam
Ao comprar a grande maioria da oferta mundial de vacinas, os países ricos violam as suas obrigações em matéria de direitos humanos— Steve Cockburn, Amnistia Internacional