Casas Bahia fecha 298 lojas e adia divulgação de balanço em meio a crise financeira

Aproximadamente 2 mil trabalhadores foram demitidos nas lojas fechadas, deixando funcionários preocupados e sindicatos mobilizados para garantir direitos trabalhistas.
Funcionários relataram ter sido pegos de surpresa com o encerramento das atividades
Sindicatos se mobilizaram para garantir direitos trabalhistas após fechamentos repentinos de lojas em todo o país.
Mark

Por que uma rede tão tradicional chegou a esse ponto? Casas Bahia era praticamente uma instituição.

Mimi

Porque o varejo de bens duráveis depende de crédito ao consumidor barato, e o crédito não está barato. Juros altos matam a demanda. Quando as pessoas não conseguem financiar uma geladeira ou um sofá, a loja fecha.

Mark

Mas eles têm marketplace agora. Mercado Livre, Amazon. Isso não deveria ajudar?

Mimi

Ajuda, sim. Essas parcerias já representam R$ 2 bilhões por ano. Mas é insuficiente para cobrir os prejuízos bilionários que vêm se acumulando. É como tentar apagar um incêndio com um copo d'água.

Mark

E os dois mil funcionários que perderam o emprego? Eles simplesmente desaparecem?

Mimi

Não desaparecem. Ficam preocupados, confusos, buscando direitos trabalhistas. Os sindicatos estão mobilizados. Mas a companhia não estava em posição de negociar — estava em posição de cortar.

Mark

O banco ainda acha que há esperança?

Mimi

O Itaú BBA diz que a operação é sustentável, mas mantém posição neutra. É uma forma elegante de dizer: talvez, mas não aposte tudo nisso. Juros altos podem continuar limitando a demanda.

Mark

Então segunda-feira vai revelar o quê, exatamente?

Mimi

O tamanho real do estrago no segundo trimestre. Mas o mercado já sabe que é grave. Você não fecha 298 lojas se as coisas estão indo bem.

  • 298 lojas fechadas (28,5% da rede de 1.042 unidades)
  • Prejuízo de R$ 1,064 bilhão no primeiro trimestre de 2026
  • Aproximadamente 2 mil demissões
  • Patrimônio líquido encolheu de R$ 2,1 bilhões para R$ 1,8 bilhão
  • Parcerias com marketplaces representam R$ 2 bilhões por ano

Grupo varejista encerrou quase 300 unidades em reestruturação ampla, representando 28,5% das lojas contabilizadas no fim de 2025. Prejuízos acumulados em 12 meses chegam a R$ 3,6 bilhões, enquanto patrimônio líquido encolheu de R$ 2,1 bilhões para R$ 1,8 bilhão.

Casas Bahia fechou 298 lojas (28,5% da rede) e adiou divulgação de balanço do segundo trimestre após prejuízo de R$ 1,064 bilhão no primeiro trimestre, com cerca de 2 mil demissões.

Na sexta-feira, as portas das Casas Bahia no Conjunto Nacional de Brasília amanheceram fechadas. Não era um feriado. Não era manutenção. Era o começo visível de uma crise que vinha se acumulando nos números — e agora explodia nas ruas. A rede varejista havia encerrado 298 lojas em poucos dias, eliminando 28,5% de suas operações físicas. Quase dois mil pessoas perderam seus empregos. O grupo adiou a divulgação de seus resultados financeiros, marcando a teleconferência para segunda-feira, 17 de agosto, enquanto o mercado esperava respostas.

Os números explicam o pânico. No primeiro trimestre de 2026, a Casas Bahia registrou prejuízo de aproximadamente R$ 1,064 bilhão — mais que o dobro das perdas do mesmo período em 2025, quando havia perdido R$ 408 milhões. Acumulando os últimos doze meses até março, o rombo chegava a R$ 3,6 bilhões. O patrimônio líquido do grupo havia encolhido de R$ 2,1 bilhões para R$ 1,8 bilhão. Não era mais uma questão de ajustes. Era questão de sobrevivência.

Em Brasília, o impacto foi imediato e visível. Além das lojas no Conjunto Nacional, unidades no Gama e em Taguatinga também fecharam. Funcionários relataram ter sido pegos de surpresa. O Sindicato dos Empregados no Comércio de Osasco e Região manifestou preocupação e prometeu tomar medidas para garantir os direitos dos trabalhadores. Mas a velocidade do fechamento deixou claro que a companhia não estava negociando — estava se amputando.

A reestruturação era ampla. Conforme informações publicadas pelo jornal Valor Econômico, o grupo havia planejado cortar 30% de seu quadro de pessoal. Além das demissões, a companhia vinha adiando pagamentos a lojistas que operavam em seu marketplace e buscava estender prazos com fornecedores da indústria para melhorar seu ciclo financeiro. Cada movimento era uma tentativa de ganhar tempo, de respirar um pouco mais.

Não estava claro se funcionaria. O Itaú BBA, que retomou a cobertura do grupo no fim de julho, via algumas oportunidades nas parcerias que a Casas Bahia havia estabelecido com grandes marketplaces — Mercado Livre, Amazon e Shopee. Essas parcerias já representavam mais de 5% do volume bruto de mercadorias total e 10% do volume on-line, equivalente a cerca de R$ 2 bilhões por ano. Mas o banco mantinha uma visão cautelosa. A carteira de crédito ao consumidor, de R$ 6,3 bilhões, havia sido reestruturada, com redução da taxa de novas emissões de 150% para 120% do CDI. Ainda assim, o banco alertava: um período prolongado de juros elevados poderia limitar a demanda e aumentar os custos de financiamento. A empresa continuava exposta a bens duráveis de maior valor, justamente aqueles que dependem de crédito ao consumidor — e o crédito estava caro e arriscado.

O banco recomendou posição neutra e estabeleceu preço-alvo de R$ 1 para as ações ordinárias do grupo até o fim de 2027, uma alta de 51% sobre o fechamento de sexta-feira, quando as ações fecharam a R$ 0,66. Era uma aposta, não uma certeza. O Itaú BBA reconhecia que a geração de valor operacional da varejista era sustentável, mas também reconhecia que o cenário macroeconômico era desafiador. O risco de inadimplência estava crescendo, especialmente nas regiões Norte e Nordeste — justamente onde a Casas Bahia tinha presença forte.

Agora a companhia aguardava segunda-feira para contar sua história aos investidores. O balanço do segundo trimestre ainda não havia sido publicado na página da instituição até o momento em que a reportagem foi feita. A assessoria da companhia confirmou que seria divulgado no dia 17. Mas o mercado já sabia o essencial: a Casas Bahia estava em crise profunda, cortando fundo para tentar sobreviver, e ninguém sabia ao certo se os cortes seriam suficientes.

Funcionários relataram que foram pegos de surpresa com a interrupção das operações em algumas lojas
— Sindicato dos Empregados no Comércio de Osasco e Região (Secor)
Um período prolongado de juros elevados pode limitar a demanda e aumentar os custos de financiamento da operação de crédito
— Itaú BBA
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