Nóbrega conheceu a TV em Nova York em 1945, quando seu pai estudava nas rádios NBC e CBS durante a Segunda Guerra Mundial. Seu pai, Manoel de Nóbrega, criou 'A Praça da Alegria' em 1956, programa que se tornou modelo para o humor televisivo brasileiro e inspirou 'A Praça É Nossa'.
Carlos Alberto de Nóbrega relembra primórdios da TV e anuncia livro sobre sua vida
Botei fogo nos dois baús e falei: nunca mais ninguém vai usar texto da Praça
Por que ele queimou os roteiros? Parece uma decisão tão radical.
Ele estava em um lugar muito escuro. Perdeu os pais em nove meses, se separava da mulher, tinha 40 anos, e viu o programa do pai sendo transformado em algo que não reconhecia. A Globo queria impor seu padrão, e ele sentiu que estavam destruindo a essência daquilo.
Mas ele não explica exatamente quando isso aconteceu. Sabemos que foi depois da morte dos pais, mas quanto tempo depois? E ele realmente destruiu TODOS os roteiros, ou apenas os que tinha em casa?
Ele diz que eram dois baús enormes. Parece ter sido uma quantidade significativa, mas você está certo — não sabemos se eram os únicos originais que existiam.
E depois ele acabou fazendo A Praça É Nossa, usando o mesmo formato. Como ele reconciliou isso?
Ele brinca sobre isso, chamando a si mesmo de "filho da puta". Mas acho que a diferença é que em A Praça É Nossa ele tinha controle criativo. Não era a Globo impondo padrões.
Ele diz que a Globo "nunca engoliu" A Praça da Alegria. Mas isso é uma percepção dele ou há evidência de que a emissora realmente rejeitava o programa?
É principalmente a percepção dele. O que sabemos é que Boni decidiu colocar Miele no lugar dele, e isso o magoou profundamente.
Ele menciona que Miele não gostava daquele tipo de humor. Miele realmente falhou no programa?
Não, ele diz que Miele fez com dignidade e muito bem. Mas o estilo era diferente — mais stand-up, menos baseado no banco e nas personagens.
Então não é claro se o programa fracassou ou se simplesmente tinha um tom diferente. Carlos Alberto pode estar revisionando a história um pouco.
Talvez. Mas o que é claro é que ele esperava ser o sucessor natural de seu pai, e não foi. Isso deixou uma ferida.
E agora, aos 84 anos, ele está escrevendo um livro para contar sua versão dessa história.
Sim. Ele diz que tem 30 páginas e quatro capítulos. É uma forma de deixar seu legado registrado, de contar o que realmente aconteceu do seu ponto de vista.
The Pulse
- Carlos Alberto de Nóbrega conheceu a televisão em Nova York em 1945, quando seu pai estudava nas rádios NBC e CBS
- Seu pai, Manoel de Nóbrega, criou A Praça da Alegria em 1956, após uma viagem a Buenos Aires
- A TV Tupi foi inaugurada em 18 de setembro de 1950, primeira estação de TV do Brasil
- Luís Carlos Miele foi escolhido para apresentar A Praça da Alegria em vez de Carlos Alberto
- Carlos Alberto queimou os roteiros originais de A Praça da Alegria em um terreno em São Paulo
Nóbrega conheceu a TV em Nova York em 1945, quando seu pai estudava nas rádios NBC e CBS durante a Segunda Guerra Mundial. Seu pai, Manoel de Nóbrega, criou 'A Praça da Alegria' em 1956, programa que se tornou modelo para o humor televisivo brasileiro e inspirou 'A Praça É Nossa'.
Aos 84 anos, o apresentador Carlos Alberto de Nóbrega recorda seus primeiros contatos com a televisão nos EUA em 1945 e sua trajetória na TV brasileira, anunciando que escreverá um livro sobre sua vida artística.
Carlos Alberto de Nóbrega tinha 84 anos quando se sentou para contar a história de como a televisão chegou até ele — não na tela, mas na vida real, em uma sala de rádio em Nova York, em 1945. Seu pai havia ganhado uma bolsa de estudos durante a Segunda Guerra Mundial para trabalhar nas emissoras NBC e CBS, e foi lá, naquele ambiente de transmissão nascente, que o jovem Carlos Alberto ouviu falar pela primeira vez sobre essa coisa absurda chamada televisão, essa ideia maluca de ver imagens dentro de casa. Até então, no Brasil, as imagens só existiam no cinema — ele se lembrava de ter visto soldados marchando para a guerra no Rio de Janeiro, caminhões levando rapazes enquanto as mães choravam nas ruas. Sua família se mudou para São Paulo em 1944, quando a guerra já estava terminando, mas aquela visão de uma tela em casa nunca saiu de sua mente.
Dez anos depois, quando a TV Tupi foi inaugurada em 18 de setembro de 1950, Carlos Alberto e seu pai já estavam dentro daquele novo meio, trabalhando com humor. Ele se lembrava do primeiro comediante da televisão brasileira, Walter Stuart, e de outros nomes que ajudaram a construir aquele mundo novo: Lima Duarte, Wálter Forster, Lara Cardoso e Hebe Camargo. Sobre Hebe, havia uma história que ele gostava de contar — no dia exato da inauguração da TV Tupi, ela estava escalada para cantar um hino especial, mas preferiu ficar em Santos com o empresário Luís Ramos, com quem estava apaixonada. Lolita Rodrigues a substituiu no palco. Curiosamente, Hebe e Ramos foram os padrinhos do primeiro casamento de Carlos Alberto, em 1947.
Mas foi seu pai, Manoel de Nóbrega, quem realmente moldou o que viria a ser o humor televisivo brasileiro. Em 1956, após uma viagem de férias a Buenos Aires, Manoel criou A Praça da Alegria, um programa que nasceu de uma observação simples: na janela do hotel, ele viu um homem conversando com um jornaleiro, e todos na região o conheciam, todos paravam para falar com ele. Dali surgiu a ideia de uma praça onde pessoas com histórias interessantes sempre passariam. O programa foi criado porque os donos da TV Paulista — Luís Ramos e Victor Costa — queriam um humorístico, e Manoel prometeu voltar de férias com algo novo. Precisava estar pronto em janeiro, porque já havia um patrocinador: a União Fabril Exportadora. Do programa saíram personagens que se tornaram lendários: Apolônio, Bronco, Catifunda e a Velha Surda. Carlos Alberto admirava a criatividade do pai, sua inteligência única, e o modelo que ele criou — simples, apenas um banco e um cenário — se tornaria eterno, herdado depois por Carlos Alberto em A Praça É Nossa, na Rede Globo e depois no SBT.
Mas a história também tinha sombras. Um ano após a morte de Manoel de Nóbrega, a Rede Globo planejava uma homenagem. O executivo José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, conhecido como Boni, sugeriu que em vez de uma missa no Jornal Nacional, fizessem algo mais alegre, mais de acordo com o espírito do criador. Chico Anysio aceitou fazer um programa especial recebendo convidados, e Carlos Alberto foi encarregado de buscar os textos originais do pai em São Paulo. Ele tinha dois baús enormes cheios de roteiros, mas nunca havia escrito A Praça — apenas a substituiu uma vez quando o pai ficou doente. O especial foi um sucesso, tanto que Boni chamou Carlos Alberto ao Rio e disse que Roberto Marinho queria um programa semanal. Voltou para São Paulo esperando que lhe oferecessem o banco, o lugar natural do filho de Nóbrega. Mas quando retornou ao Rio para a reunião, Boni anunciou que havia decidido: seria Luís Carlos Miele quem apresentaria.
Foi um baque que Carlos Alberto nunca esqueceu. Boni argumentou que se fosse um fracasso, a carreira de Carlos Alberto acabaria; se fosse um sucesso, diriam que era só porque o programa já era famoso. Ele queria alguém completamente diferente de Nóbrega. Miele fez com dignidade, mas não gostava daquele tipo de humor — seu estilo era mais americano, de stand-up comedy. Para Carlos Alberto, aquele foi um dos piores momentos de sua vida, superado apenas pela perda de seus pais. Seu pai morreu em março e sua mãe, Dalila Afonso de Nóbrega, em dezembro, ambos vítimas de câncer, tudo em um espaço de nove meses. Ele morava em São Paulo mas passava grande parte da semana em um hotel no Rio, e muitas noites sonhava que estava assistindo à Praça no Teatro Fênix, vendo seu pai aparecer e dizer que Miele estava indo bem.
A dor e a raiva o levaram a um ato que depois lamentaria. Quando voltou a São Paulo, pegou os dois baús enormes com os roteiros originais de A Praça da Alegria — aqueles textos que seu pai havia criado — e os queimou em um terreno ao lado de sua casa. Ele estava muito mal, separando-se de sua primeira mulher, perdendo seus pais aos 40 anos, e a forma como a Globo estava conduzindo o programa o irritava profundamente. A emissora nunca havia aceitado realmente A Praça, e quando começou a interferir, querendo impor o padrão Globo, Carlos Alberto sentiu que estava fugindo da proposta original. Queimou tudo. Anos depois, quando começou a fazer A Praça É Nossa, ele próprio se tornou aquele "filho da puta" que usava os textos que havia destruído, como ele mesmo brincava ao contar a história.
Agora, aos 84 anos, Carlos Alberto estava transformando essas memórias em um livro. Começou a escrever durante a quarentena, e já tinha 30 páginas e quatro capítulos prontos. Pretendia contar tudo: sua história artística, o que viu, o que aconteceu, as dificuldades, as alegrias e os truques que usou para conseguir determinadas coisas. Era uma forma de deixar registrado aquele mundo que ajudou a construir, desde aquele dia em Nova York quando ouviu falar de televisão pela primeira vez.
Notable Quotes
Meu pai ganhou uma bolsa ainda durante a Segunda Guerra Mundial para estudar nas rádios NBC e CBS. Foi quando ouvimos falar dessa coisa de televisão, de ver imagens em casa.— Carlos Alberto de Nóbrega
A Globo nunca engoliu A Praça da Alegria. Nunca, nunca. Até que começaram a botar a mão. Queriam fazer com padrão global e eu comecei a ficar irritado e chateado, porque estava fugindo da proposta original.— Carlos Alberto de Nóbrega