Insuficiência cardíaca afeta 1% da população adulta brasileira e é principal causa de morte em maiores de 60 anos, com risco de morte até 4 vezes maior que infarto. Nova diretriz reduz tempo para atingir doses máximas de medicamentos de 6 para 2 meses e inclui finerenona e análogos de GLP-1 no tratamento da forma preservada.
Cardiologia atualiza tratamento da insuficiência cardíaca com medicamentos mais precoces
Apenas metade dos diagnosticados recebe o tratamento adequado
Por que essa doença mata tanto se temos medicamentos que funcionam?
Porque a maioria das pessoas não sabe que tem, ou tem mas não está tomando os remédios certos. Simões diz que apenas metade dos diagnosticados recebe tratamento adequado.
Metade de quantos? O texto diz que 2 a 4 milhões de brasileiros têm insuficiência cardíaca, mas não deixa claro quantos foram realmente diagnosticados. Pode ser que a proporção seja ainda pior.
E essa mudança de seis meses para dois meses — quanto isso muda na prática?
Significa que o coração fica protegido mais cedo. Os medicamentos funcionam melhor quando você atinge a dose máxima rápido, em vez de esperar meses.
Mas o texto não traz dados sobre quantas vidas isso salva ou quantas hospitalizações evita. É uma mudança baseada em evidência, sim, mas não sabemos a magnitude do impacto.
E esses medicamentos novos — finerenona, GLP-1 — já estão disponíveis no SUS?
A diretriz diz que as quatro classes principais para o tipo mais comum já são distribuídas pelo SUS. Mas não deixa claro se a finerenona e os análogos de GLP-1 estão no sistema público.
Exatamente. Isso é um buraco importante. Uma diretriz é ótima, mas se os medicamentos não estão acessíveis para a maioria dos brasileiros, a implementação fica comprometida.
O exercício físico é recomendado para todos?
Quase todos. Só não para casos muito avançados, instáveis ou com infecções agudas. Mas sempre precisa de liberação médica.
O texto não diz qual é a proporção de pacientes em cada estágio. Pode ser que a maioria esteja em estágios avançados demais para exercício, o que tornaria essa recomendação menos útil na prática.
E os suplementos que as pessoas tomam?
A diretriz avaliou ômega-3, coenzima Q10, vitamina D e outros. Nenhum tem comprovação robusta, então não são recomendados.
"Robusta" é uma palavra importante. Pode haver alguma evidência, mas não o suficiente. O texto deixa claro que não há provas, mas não diz se há esperança de que algum dia haja.
Der Puls
- 2 a 4 milhões de brasileiros convivem com insuficiência cardíaca
- Risco de morte até 4 vezes maior que em infarto
- Tempo para atingir doses máximas reduzido de 6 para 2 meses
- 81º Congresso Brasileiro de Cardiologia, Rio de Janeiro, outubro de 2026
Insuficiência cardíaca afeta 1% da população adulta brasileira e é principal causa de morte em maiores de 60 anos, com risco de morte até 4 vezes maior que infarto. Nova diretriz reduz tempo para atingir doses máximas de medicamentos de 6 para 2 meses e inclui finerenona e análogos de GLP-1 no tratamento da forma preservada.
A SBC apresenta diretriz atualizada para tratamento da insuficiência cardíaca, com introdução mais precoce de medicamentos, novas moléculas e ênfase em abordagem multidisciplinar, visando melhorar manejo de doença que afeta 2-4 milhões de brasileiros.
Entre dois e quatro milhões de brasileiros convivem com insuficiência cardíaca sem saber, ou sabendo mas sem receber o tratamento que poderia prolongar suas vidas. A doença permanece pouco reconhecida, mesmo entre profissionais de saúde, e mata mais idosos do que qualquer outra condição cardiovascular no país. Quem é internado por insuficiência cardíaca enfrenta um risco de morte até quatro vezes maior do que alguém hospitalizado por infarto. Muitas dessas mortes são evitáveis — resultado de diagnóstico tardio ou falta de acompanhamento médico adequado.
Nesta semana, a Sociedade Brasileira de Cardiologia lançou uma diretriz atualizada para mudar esse cenário. O documento foi apresentado no 81º Congresso Brasileiro de Cardiologia, realizado no Rio de Janeiro em paralelo ao Congresso Mundial de Cardiologia, reunindo 15 mil profissionais de saúde. Marcus Vinícius Simões, cardiologista que coordena o Departamento de Insuficiência Cardíaca da sociedade e liderou a elaboração da diretriz, vê a iniciativa como essencial para ampliar a consciência sobre a doença. Segundo ele, apenas metade dos pacientes diagnosticados recebe o tratamento adequado — uma lacuna que a nova orientação busca fechar.
A mudança mais significativa está no timing da medicação. No modelo anterior, os fármacos eram introduzidos gradualmente, com intervalos longos entre eles. A nova abordagem acelera esse processo. Pacientes com insuficiência cardíaca de fração de ejeção reduzida — um dos dois tipos principais da doença — devem receber as quatro classes terapêuticas fundamentais: inibidores da neprisilina e do receptor de angiotensina (como a valsartana), betabloqueadores (carvedilol e succinato de metoprolol), antagonistas da aldosterona (espirolactona) e inibidores de SGLT-2 (dapagliflozina). Historicamente, atingir as doses máximas levava cerca de seis meses. A nova diretriz reduz esse período para dois meses, antecipando a proteção que esses medicamentos oferecem. Todos já são distribuídos pelo Sistema Único de Saúde.
Para a insuficiência cardíaca de fração de ejeção preservada — forma mais associada à obesidade e a condições inflamatórias como diabetes — a diretriz incorpora duas novidades. A primeira é a finerenona, medicamento lançado pela Bayer em 2023 para doença renal crônica, mas que estudos recentes mostraram ser eficaz também para o coração. Funciona de forma semelhante à espirolactona, bloqueando a ação da aldosterona, mas sem atuar diretamente nos níveis hormonais, reduzindo certos efeitos colaterais. A segunda novidade são os análogos de GLP-1, conhecidos popularmente como canetas emagrecedoras. Além de combater a obesidade — uma das causas dessa forma de insuficiência cardíaca — reduzem a inflamação que danifica o coração.
Mas a diretriz não se resume a medicamentos. Simões enfatiza que o acompanhamento multidisciplinar é fundamental para o sucesso do tratamento. Isso significa atendimento em centros especializados, com participação de enfermeiros, fisioterapeutas, psicólogos, educadores físicos e nutricionistas. O exercício físico, frequentemente temido por quem tem doença cardíaca, é agora recomendado como parte essencial do manejo — tanto para combater a perda de massa magra quanto para melhorar a capacidade cardiorrespiratória. Treinos de força e aeróbicos são indicados, sempre com orientação e liberação médica. A única exceção são casos muito avançados, instáveis ou com condições agudas como miocardites.
A vacinação também ganhou destaque na diretriz. Infecções agudas, particularmente respiratórias, podem sobrecarregar o sistema cardiovascular de quem tem insuficiência cardíaca, elevando o risco de infarto e acidente vascular cerebral. Quanto aos suplementos populares — ômega-3, coenzima Q10, vitamina D — a diretriz avaliou a evidência científica e concluiu que nenhum deles possui comprovação robusta de eficácia nesse contexto, portanto não são recomendados.
O desafio agora é implementação. Simões aponta que sintomas como pernas inchadas, cansaço e falta de ar durante esforço físico são frequentemente descartados como "coisa da idade", quando deveriam disparar investigação médica. A nova diretriz oferece aos cardiologistas um algoritmo para guiar a introdução dos medicamentos e um marco claro de quando intensificar o tratamento. Mas sua efetividade dependerá de quantos pacientes conseguirão acessá-la — e de quantos profissionais de saúde reconhecerão os sinais de alerta que ainda passam despercebidos.
Bemerkenswerte Zitate
Há um percentual muito grande de pacientes que deveriam estar recebendo os medicamentos, que melhoram a qualidade de vida e prolongam a vida, mas não estão— Marcus Vinícius Simões, cardiologista e coordenador da diretriz
Queixas como pernas inchadas, cansaço e falta de ar durante o esforço físico são vistas como 'coisa da idade', mas são sinais de alerta que devem ser investigados— Marcus Vinícius Simões