No cruzamento entre a medicina metabólica e a busca humana por transformação corporal, dois medicamentos criados para controlar o diabetes tornaram-se protagonistas inesperados do combate à obesidade no Brasil. A semaglutida e a liraglutida, vendidas em farmácias sem exigência de receita, carregam eficácia comprovada por estudos robustos — mas também riscos que só o olhar médico pode calibrar. É o retrato de uma sociedade que, após uma pandemia que alargou cintura e encurtou rotinas, encontra nos remédios um atalho que a ciência valida com ressalvas.
Canetas emagrecedoras ganham popularidade no Brasil como aliadas contra obesidade
O medicamento ajuda pessoas a comer menos, causando balanço energético negativo
Por que medicamentos para diabetes viraram uma solução tão popular para emagrecimento no Brasil?
Porque funcionam. Estudos mostram perda de peso de 6% a 14,9% em alguns meses, e isso é significativo. Mas também porque são vendidos livremente, sem receita, o que facilita o acesso.
Espera — esses números vêm de estudos clínicos controlados, com acompanhamento médico. A gente não sabe como essas pessoas se saem usando o medicamento sozinhas, sem supervisão.
Qual é o risco real de usar esses medicamentos sem prescrição?
O principal é que cada corpo reage diferente. Os efeitos colaterais gastrointestinais podem ser intensos para algumas pessoas. E há contraindicações sérias — grávidas não podem usar, pessoas com pancreatite precisam de cuidado.
Verdade, mas também não sabemos quantas pessoas estão tendo problemas porque não procuram médico. Os dados de venda não dizem nada sobre segurança real de uso.
Se a obesidade é uma doença crônica, faz sentido usar medicamento a vida toda?
Segundo os especialistas, sim. Se você parar de tomar, o peso pode voltar. É como hipertensão ou diabetes — você controla enquanto toma.
Mas a gente não tem dados de longo prazo sobre isso. Os estudos que citam foram de 56 a 68 semanas. Ninguém sabe o que acontece em cinco, dez anos de uso contínuo.
Então o Brasil está aprovando esses medicamentos para obesidade?
Parcialmente. A liraglutida já foi aprovada. A semaglutida ainda está sob avaliação da Anvisa.
E enquanto isso, as duas estão sendo vendidas livremente. A semaglutida nem tem aprovação para obesidade, mas está sendo usada para isso mesmo assim.
Le Pouls
- A pandemia empurrou o Brasil para um novo patamar de sobrepeso — de 55,4% em 2019 para 57,25% em 2021 —, criando terreno fértil para medicamentos que prometem frear o apetite.
- Semaglutida e liraglutida, originalmente desenvolvidas para diabetes tipo 2, passaram a ser procuradas por quem quer emagrecer, custando entre R$ 600 e R$ 1 mil a unidade.
- Estudos publicados em revistas científicas de peso mostram perdas de 6% a 14,9% do peso corporal, números que alimentam a demanda — e o risco de uso sem orientação.
- No Brasil, as duas substâncias são vendidas livremente sem receita, embora a semaglutida ainda aguarde aprovação da Anvisa para a indicação de emagrecimento.
- Especialistas alertam para efeitos colaterais gastrointestinais e contraindicações sérias, reforçando que a obesidade é uma condição crônica que exige acompanhamento médico contínuo, não uma solução de prateleira.
No cruzamento entre a medicina metabólica e a busca humana por transformação corporal, dois medicamentos criados para controlar o diabetes tornaram-se protagonistas inesperados do combate à obesidade no Brasil. A semaglutida e a liraglutida, vendidas em farmácias sem exigência de receita, carregam eficácia comprovada por estudos robustos — mas também riscos que só o olhar médico pode calibrar. É o retrato de uma sociedade que, após uma pandemia que alargou cintura e encurtou rotinas, encontra nos remédios um atalho que a ciência valida com ressalvas.
Nas farmácias brasileiras, dois medicamentos em formato de caneta acumulam popularidade entre quem busca perder peso: a semaglutida (Ozempic) e a liraglutida (Saxenda), vendidas entre R$ 600 e R$ 1 mil. O que muitos consumidores desconhecem é que ambas foram desenvolvidas originalmente para tratar diabetes tipo 2 — e não para emagrecimento.
A pandemia acelerou esse movimento. Com a vida confinada em casa, o percentual de brasileiros acima do peso saltou de 55,4% em 2019 para 57,25% em 2021, segundo o Vigitel do Ministério da Saúde. Os dois fármacos atuam estimulando o pâncreas a produzir insulina e, simultaneamente, agindo no hipotálamo para regular fome e saciedade. A endocrinologista Cintia Cercato esclarece que o medicamento não induz diabetes em pessoas saudáveis, pois a produção de insulina só aumenta quando necessário.
A eficácia é respaldada por estudos expressivos: a liraglutida proporcionou perda média de 6% do peso em 56 semanas, contra 0,2% no grupo placebo; já a semaglutida alcançou 14,9% em 68 semanas, frente a 2,4% no placebo. No plano regulatório, a liraglutida tem aprovação da Anvisa tanto para diabetes quanto para obesidade, enquanto a semaglutida aguarda avaliação para essa segunda indicação — mas ambas são vendidas sem receita.
As diferenças práticas também importam: a liraglutida exige aplicação diária, enquanto a semaglutida é semanal, facilitando a adesão. Ainda assim, especialistas alertam que a venda livre é preocupante. Os efeitos colaterais mais comuns são gastrointestinais — náusea, diarreia, constipação e vômito —, e há contraindicações claras para gestantes, lactantes e pacientes com histórico de pancreatite. A endocrinologista Fernanda Braga Albuquerque lembra que a obesidade, como a hipertensão, é uma condição crônica que pode exigir medicação por anos — ou pela vida toda —, e que esses fármacos não foram concebidos para quem deseja perder apenas alguns quilos.
No Rio de Janeiro, nas prateleiras das farmácias, dois medicamentos em formato de caneta ganharam popularidade entre brasileiros que buscam emagrecer. A semaglutida, comercializada como Ozempic, e a liraglutida, vendida sob o nome Saxenda, custam entre R$ 600 e R$ 1 mil e prometem ajuda na perda de peso. O que muitos usuários não sabem é que essas substâncias foram desenvolvidas originalmente para controlar diabetes tipo 2, não para emagrecimento.
A pandemia de coronavírus acelerou essa tendência. Quando a vida se concentrou dentro de casa, o peso dos brasileiros aumentou. Em 2019, 55,4% da população estava acima do peso. Dois anos depois, em 2021, esse percentual subiu para 57,25%, conforme dados da pesquisa Vigitel 2021 do Ministério da Saúde. Diante desse cenário, medicamentos que prometem reduzir o apetite encontraram um mercado receptivo.
Os dois fármacos funcionam de maneira semelhante no corpo. Eles estimulam o pâncreas a produzir mais insulina quando os níveis de glicose no sangue estão elevados, o que explica sua eficácia original no tratamento do diabetes. Mas há um segundo mecanismo: ambos atuam no hipotálamo, a região cerebral que controla a fome e a saciedade. Essa ação dupla é o que torna esses medicamentos atrativos para quem quer perder peso. Conforme explicou a endocrinologista Cintia Cercato, membro da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, o medicamento não causa diabetes em quem não tem a doença, pois as células produtoras de insulina só aumentam a produção quando necessário.
Os números de eficácia são expressivos. Um estudo publicado no International Journal of Obesity mostrou que pessoas que receberam 3,0 mg de liraglutida diariamente, associado a dieta e exercícios, perderam em média 6% do peso corporal ao longo de 56 semanas, enquanto o grupo que recebeu placebo perdeu apenas 0,2%. Para a semaglutida, a pesquisa publicada no New England Journal of Medicine foi ainda mais impressionante: cerca de 2 mil participantes que receberam 2,4 mg semanalmente perderam em média 14,9% do peso corporal em 68 semanas, comparado a 2,4% no grupo placebo.
No Brasil, o cenário regulatório é assimétrico. A liraglutida foi aprovada pela Anvisa tanto para diabetes quanto para obesidade. A semaglutida, porém, tem autorização apenas para diabetes e aguarda avaliação da agência para indicação no emagrecimento. Apesar dessa diferença regulatória, ambas as substâncias são vendidas livremente nas farmácias, sem exigência de prescrição médica. Segundo dados da IQVIA, entre abril de 2020 e abril de 2021, o Saxenda ficou em segundo lugar entre os medicamentos mais vendidos nas farmácias brasileiras, enquanto o Ozempic ocupou a sexta posição.
Existem diferenças práticas entre os dois. A liraglutida exige aplicação diária sob a pele, enquanto a semaglutida permite uma injeção semanal. Essa frequência menor facilita a adesão do paciente ao tratamento, conforme apontou a endocrinologista Fernanda Braga Albuquerque. Mas a conveniência de uso não elimina as preocupações médicas. Os especialistas alertam que a venda sem receita é problemática, já que cada organismo reage de forma diferente aos medicamentos. Os efeitos colaterais mais comuns são gastrointestinais: náusea, diarreia, constipação e vômito.
Há também contraindicações claras. Os medicamentos não devem ser usados por mulheres grávidas ou que pretendem engravidar, lactantes, ou pessoas com sensibilidade aos componentes da fórmula. Devem ser usados com cautela em pacientes com refluxo gastroesofágico grave ou histórico de pancreatite. Quanto à duração do tratamento, não há um período fixo. Alguns pacientes usam por meses, outros por anos ou até a vida toda. A endocrinologista Albuquerque ressalta que a obesidade, como a hipertensão e o diabetes, é uma condição crônica que pode exigir medicação contínua. Finalmente, esses medicamentos não são indicados para quem deseja perder poucos quilos. A bula do Saxenda especifica que deve ser usado apenas por pessoas com índice de massa corporal acima de 27. Apesar dessa restrição, muitos usuários adquirem o medicamento sem orientação profissional, ignorando que ele foi desenvolvido para tratar obesidade, não para pequenas perdas de peso.
Citations marquantes
Nenhum remédio que é bom para uma pessoa vai ser bom para todo mundo. É importante consultar um médico antes de iniciar o tratamento— Fernanda Braga Albuquerque, endocrinologista
Se a gente encarar a obesidade como uma condição crônica de saúde como a hipertensão ou o diabetes, o medicamento pode ser necessário a vida toda— Endocrinologista consultada na reportagem