Em Cuiabá, um campeonato de 'farmar aura' — expressão nascida nos videogames e adotada pela geração jovem como símbolo de estilo e presença — foi vetado pelo prefeito Abilio Brunini antes mesmo de chegar ao Parque das Águas, sob alegação de falta de autorização e ausência de interesse público. O organizador, sem recuar, transferiu o evento para o estacionamento da UFMT, onde dezesseis participantes e suas famílias se reuniram numa noite sem álcool e sem conflito. O episódio pequeno guarda uma pergunta grande: quem detém o poder de decidir quais expressões culturais merecem ocupar os espaços qu
Campeonato de 'farmar aura' é realizado na UFMT após veto do prefeito
Vai lembrar que pode ocupar as praças, os espaços públicos
Por que o prefeito achou que precisava vetar isso? Parecia uma coisa inofensiva.
Ele disse que não havia pedido formal de autorização. Mas acho que o real problema era que ele não entendia o que era, não via "interesse público" nisso. Para ele, era só gente estranha fazendo uma coisa sem sentido.
E o organizador, como reagiu?
Não ficou amargado. Apenas mudou de lugar. Mas deixou claro que vê isso como um direito geracional — ocupar espaço público, deixar marca, ser lembrado. Comparou com movimentos de outras épocas que ninguém questiona mais.
Então é realmente sobre espaço público, não sobre o campeonato em si?
Exatamente. O campeonato é só o pretexto. A questão real é: quem decide o que pode acontecer em um parque? Quem tem voz nessa decisão? Uma geração inteira sentindo que não é levada a sério.
E agora? Vai ficar assim?
Por enquanto sim. O evento aconteceu na universidade, 16 pessoas participaram, ninguém se machucou. Mas a tensão não desapareceu. Só mudou de endereço.
Il Polso
- O prefeito vetou o evento um dia antes de sua realização, confessando não conhecer o termo 'farmar aura' e associando-o, sem evidências, a algo que 'desvirtua a saúde mental'.
- A declaração do prefeito — 'sou hétero, não sei como é essas coisas' — acendeu o debate nas redes sociais e expôs o abismo entre a linguagem geracional jovem e a leitura institucional do poder público.
- O organizador Cleofas Lopes reagiu com pragmatismo: anunciou a mudança de local em vídeo, manteve inscrições, premiações e horários, e transformou o veto em combustível simbólico para o evento.
- Dezesseis competidores, crianças acompanhadas dos pais e nenhuma ocorrência registrada contradisseram a narrativa de risco ou desordem que justificara o veto.
- Para Cleofas, o campeonato é um 'grito geracional' — comparável ao Rebolation e à Dança do Siri — e a disputa real não era pelo estacionamento da UFMT, mas pelo direito de existir nas praças e parques da cidade.
Em Cuiabá, um campeonato de 'farmar aura' — expressão nascida nos videogames e adotada pela geração jovem como símbolo de estilo e presença — foi vetado pelo prefeito Abilio Brunini antes mesmo de chegar ao Parque das Águas, sob alegação de falta de autorização e ausência de interesse público. O organizador, sem recuar, transferiu o evento para o estacionamento da UFMT, onde dezesseis participantes e suas famílias se reuniram numa noite sem álcool e sem conflito. O episódio pequeno guarda uma pergunta grande: quem detém o poder de decidir quais expressões culturais merecem ocupar os espaços que pertencem a todos?
Na noite de sexta-feira, 24 de julho, dezesseis pessoas se reuniram no estacionamento do Restaurante Universitário da UFMT, em Cuiabá, para disputar um campeonato de 'farmar aura'. Crianças circulavam com os pais. Não havia álcool. O evento tinha sido planejado para o Parque das Águas — mas o prefeito Abilio Brunini havia barrado sua realização na véspera.
O organizador Cleofas Lopes anunciou a mudança em vídeo nas redes sociais, mantendo inscrições a partir das 18h e a competição às 19h. Os três primeiros colocados receberiam prêmios em dinheiro, lanches e camisetas. O evento aconteceu. O parque ficou vazio.
O veto de Brunini veio acompanhado de uma declaração que rapidamente circulou: ao ser questionado sobre o significado de 'farmar aura', o prefeito respondeu que não sabia — e emendou que era 'hétero'. Afirmou também não enxergar interesse público no campeonato e questionou se ele não estaria 'desvirtuando o conceito de saúde mental'.
O termo vem dos videogames: 'farmar', derivado de 'farm' em inglês, significa realizar tarefas repetitivas para acumular recursos. 'Farmar aura', por extensão, é agir de modo a construir uma imagem de alguém interessante e admirável — aumentar o próprio 'nível' de estilo perante os outros.
Para Cleofas, o campeonato era mais do que uma brincadeira. Era uma forma de a sua geração se expressar e reivindicar os espaços coletivos da cidade. Ele comparou o movimento ao Rebolation e à Dança do Siri — modismos que pareceram frívolos no seu tempo e hoje são memória afetiva. 'Não vai passar batida ou ser deixada de escanteio', disse sobre sua geração.
O episódio terminou sem incidentes, mas deixou a pergunta sem resposta: quem tem o direito de decidir o que merece acontecer em um parque público — e com base em quê?
Na noite de sexta-feira, 24 de julho, um campeonato de "farmar aura" acontecia no estacionamento do Restaurante Universitário da Universidade Federal de Mato Grosso, em Cuiabá. Dezesseis pessoas se inscreveram para competir. Crianças acompanhadas dos pais circulavam pelo local. Não havia álcool. O evento tinha sido planejado para o Parque das Águas, um espaço público da cidade, mas o prefeito Abilio Brunini, do PL, havia vetado sua realização no dia anterior.
Cleofas Lopes, organizador do campeonato, anunciou a mudança em um vídeo publicado nas redes sociais. "Infelizmente a nossa competição anual foi cancelada. Infelizmente o campeonato não vai ser no Parque das Águas. Vai ser aqui, no estacionamento da UFMT", disse. As inscrições começariam às 18h, a competição às 19h. Os três primeiros colocados receberiam prêmios: o vencedor levaria 150 reais e um combo de uma lanchonete parceira; o segundo, 50 reais e um lanche; o terceiro, um lanche, uma camiseta oficial e um fardo de refrigerante.
O veto do prefeito havia sido anunciado em um vídeo publicado na quinta-feira. Brunini afirmou que nenhum pedido de uso do parque havia sido protocolado junto à Secretaria Municipal de Ordem Pública e que a Prefeitura não identificava interesse público na realização do evento. Durante a gravação, o prefeito também confessou desconhecer o significado da expressão "farmar aura". "Cara, eu não sei. Sou hétero, não sei como é essas coisas", disse. Questionou a finalidade do campeonato e criticou a proposta: "Não vejo uma justificativa de interesse público para que isso aconteça. Qual é o interesse público? Desvirtuar o conceito da saúde mental? Levar uma cultura que não produz efeito edificante?".
O termo "farmar aura" vem dos videogames. Em jogos como Minecraft, World of Warcraft e Fortnite, "farmar" significa realizar tarefas repetitivas para acumular recursos, pontos ou experiência. A palavra remete ao termo "farm" — fazenda em inglês — que aparece repetidamente nesses ambientes. Assim, farmar aura significa agir de forma a acumular pontos de estilo, construindo uma imagem de alguém interessante, inspirador ou "cool". É como se a pessoa estivesse constantemente aumentando seu "nível" de admiração perante os outros.
Para Cleofas, o campeonato representava muito mais do que uma competição. Era uma forma de expressão da sua geração e de ocupação dos espaços públicos. "Esse campeonato para a gente é um grito, é uma revolução, é a gente mostrando como é, como pensa e como funciona a nossa geração. Não é imbecilidade. Todas as gerações tiveram suas manias, suas 'moagens'. Assim como as pessoas lembram do Rebolation e da Dança do Siri, tenho certeza que a minha geração também vai lembrar do 'Farmar Aura'. E vai lembrar que pode ocupar as praças, os espaços públicos e que não vai passar batida ou ser deixada de escanteio", afirmou.
O episódio revelou uma tensão entre a administração municipal e um movimento cultural emergente. O prefeito viu falta de autorização formal e questionou a relevância pública. O organizador viu um direito geracional de ocupar espaços coletivos e deixar marca. A solução foi pragmática: mudar de endereço, manter o evento, prosseguir. Mas a questão de fundo — quem decide o que merece acontecer em um parque público, e por quê — permaneceu em aberto.
Citazioni salienti
Esse campeonato para a gente é um grito, é uma revolução, é a gente mostrando como é, como pensa e como funciona a nossa geração— Cleofas Lopes, organizador do campeonato
Não vejo uma justificativa de interesse público para que isso aconteça. Qual é o interesse público?— Abilio Brunini, prefeito de Cuiabá