Portaria 3.665/2023 obriga negociação via sindicatos para trabalho em domingos e feriados, revogando acordo individual anterior permitido por Bolsonaro. Em Porto Alegre e capitais, impacto será mínimo pois já existem convenções coletivas; problema maior ocorre em municípios pequenos e médios do Interior.
Câmara vota hoje possibilidade de derrubar portaria sobre trabalho em domingos e feriados
Negociação volta para a mão dos sindicatos
Por que uma portaria sobre trabalho em domingos e feriados gera tanta divisão?
Porque toca em dois interesses opostos. De um lado, sindicatos de trabalhadores querem negociação coletiva para ter peso na conversa. Do outro, empresários querem flexibilidade para operar sem burocracia. E há ainda uma terceira camada: sindicatos do interior que não querem abrir mão de nada, nem mesmo com compensação.
Então a portaria favorece os trabalhadores?
Em teoria, sim. Negociação coletiva é mais equilibrada que acordo individual, onde o patrão tem mais poder. Mas na prática, em cidades pequenas, pode significar que supermercados simplesmente não abrem nos feriados — ou não se instalam lá.
E em Porto Alegre, muda algo?
Quase nada. A capital já tem convenções coletivas antigas que autorizam trabalho em feriados. O problema real está no interior, onde não há acordo prévio.
Qual é o verdadeiro impasse?
Que sindicatos do interior não querem negociar, nem mesmo com remuneração diferenciada. Isso prejudica sindicatos das capitais que já chegaram a acordos mais realistas. É uma guerra interna entre trabalhadores.
Se a portaria cair, volta ao modelo anterior?
Sim. Patrão e empregado fazem acordo individual, sem sindicato no meio. Mais liberdade para as empresas, menos proteção para trabalhadores isolados.
Quem está pressionando para derrubar a portaria?
Principalmente parlamentares ligados ao setor comercial e empresários. Sindicatos do interior também pressionaram o governo. Mas sindicatos de trabalhadores das capitais estão divididos.
The Pulse
- Portaria 3.665 publicada em novembro de 2023, implementação adiada para 1º de julho de 2025
- Exige convenção coletiva para trabalho em domingos e feriados, revogando acordo individual anterior
- Em Porto Alegre e capitais, impacto mínimo; problema maior em municípios pequenos e médios do interior
- Câmara dos Deputados vota nesta segunda-feira (16 de junho) sobre derrubar a portaria
Portaria 3.665/2023 obriga negociação via sindicatos para trabalho em domingos e feriados, revogando acordo individual anterior permitido por Bolsonaro. Em Porto Alegre e capitais, impacto será mínimo pois já existem convenções coletivas; problema maior ocorre em municípios pequenos e médios do Interior.
A Câmara dos Deputados vota nesta segunda-feira sobre derrubar portaria de 2023 que exigia negociação coletiva para trabalho em domingos e feriados no comércio, alterando regras estabelecidas na gestão Bolsonaro.
A Câmara dos Deputados se reúne nesta segunda-feira para decidir o destino de uma portaria que, se mantida, transformaria a forma como o comércio brasileiro negocia o trabalho nos domingos e feriados. A medida em questão, publicada em novembro de 2023 pelo Ministério do Trabalho e Emprego, exige que qualquer funcionamento comercial nesses dias seja autorizado por convenção coletiva — um acordo entre sindicatos de patrões e de trabalhadores — em vez de simples acerto individual entre empregador e empregado.
A portaria 3.665 deveria ter entrado em vigor há quase dois anos, mas o governo federal adiou sua implementação repetidas vezes diante da pressão de parlamentares e do setor empresarial. A data mais recente marcada é 1º de julho de 2025. O que está em jogo é uma mudança significativa nas relações de trabalho: a atual regra, estabelecida na gestão do ex-presidente Jair Bolsonaro, permite que patrões e empregados façam acordos individuais sem intermediação sindical. A nova portaria revoga essa prática e devolve o poder de negociação aos sindicatos, exigindo também que as empresas respeitem as legislações municipais sobre o tema.
Para advogados trabalhistas que apoiam a medida, como Diego da Veiga Lima, a mudança representa um avanço. Ele argumenta que a negociação coletiva oferece mais proteção aos trabalhadores do que acordos individuais, onde o desequilíbrio de poder entre patrão e empregado é evidente. Quando os sindicatos entram na conversa, a lógica é que os direitos dos trabalhadores ganham peso.
Mas a realidade prática varia bastante conforme a região. Em Porto Alegre e outras capitais, o impacto será mínimo. Flávio Obino, advogado do Sindicato dos Lojistas do Comércio de Porto Alegre, explica que a capital gaúcha já possui ajustes coletivos antigos que autorizam o trabalho em feriados. O domingo, aliás, já é considerado dia normal de trabalho pela lei federal desde 2000. Lúcia Ladislava Witczak, que representa o comércio varejista de gêneros alimentícios, concorda: nas grandes cidades, as convenções coletivas já estão em vigor, então a portaria não muda praticamente nada.
O verdadeiro problema emerge nos municípios pequenos e médios do interior. Nesses lugares, muitos não possuem convenções coletivas autorizando trabalho em feriados. Se a portaria entrar em vigor, essas localidades precisarão negociar do zero com sindicatos que, em alguns casos, têm posições rígidas. Lúcia Ladislava alerta que empresas analisam a liberdade de funcionamento em feriados como critério para decidir se instalam novos supermercados em uma região. Sem essa flexibilidade, o investimento pode não acontecer.
Há também um problema interno entre os próprios sindicatos de trabalhadores. Nilton Neco Souza Silva, presidente do Sindicato dos Comerciários de Porto Alegre, relata que negociou com empresários para liberar feriados em troca de remuneração diferenciada para o domingo. Mas sindicatos do interior pressionaram o governo federal para revogar a portaria justamente porque não querem abrir mão dos feriados — nem mesmo com compensação. Essa rigidez, segundo Silva, prejudica os sindicatos das capitais que já chegaram a acordos mais pragmáticos.
No dia a dia do comércio varejista de Porto Alegre, a dificuldade de encontrar mão de obra já é um desafio. Luciane Simões do Couto, proprietária de uma loja no Centro, relata que muitos jovens em busca do primeiro emprego desistem quando percebem que sábado é expediente normal e que as metas são exigentes. A rotina de trabalho nos fins de semana afasta candidatos. A portaria, portanto, não resolve esse problema — e pode até agravá-lo em regiões onde a negociação coletiva travar.
A votação desta segunda-feira decidirá se o Brasil mantém o modelo de acordo individual ou avança para um sistema onde os sindicatos têm poder de veto sobre o funcionamento comercial nos domingos e feriados. Nas capitais, pouco muda. No interior, tudo pode mudar — para melhor ou para pior, dependendo de quem você pergunta.
Notable Quotes
Essa negociação volta para a mão dos sindicatos, que vão negociar com o sindicato patronal ou com as empresas diretamente a possibilidade do trabalho em domingos e feriados. É uma forma mais benéfica para os trabalhadores.— Diego da Veiga Lima, advogado trabalhista
O problema está no Interior. Tem sindicato que não negocia, não quer abrir mão do feriado. E isso prejudica quem está negociando nas capitais.— Nilton Neco Souza Silva, presidente do Sindicato dos Comerciários de Porto Alegre