Braskem protocola recuperação extrajudicial com dívida de US$ 10,9 bilhões

Aproximadamente 60 mil pessoas foram afetadas pelo afundamento do solo em Alagoas associado à exploração de sal-gema, com cerca de 14 mil imóveis condenados.
Sessenta mil pessoas afetadas, 14 mil imóveis condenados
O afundamento do solo em Alagoas pela exploração de sal-gema criou um passivo bilionário que perseguirá a Braskem independentemente da reestruturação financeira.
Mark

Por que a Braskem escolheu a recuperação extrajudicial em vez de ir direto para a Justiça?

Mimi

Porque oferece mais flexibilidade e velocidade. Negociar diretamente com credores permite que a empresa e seus devedores cheguem a um acordo customizado antes de levar tudo ao juiz. Se falharem, aí sim vai para a recuperação judicial — que é mais lenta e menos controlável.

Mark

E se os credores não concordarem nos próximos 90 dias?

Mimi

Então o processo vira recuperação judicial automaticamente. A empresa perde o controle da negociação e a Justiça passa a ditar os termos. É por isso que 39,6% de adesão já é importante — mostra que há vontade de negociar.

Mark

Qual é o maior problema da Braskem além da dívida?

Mimi

O afundamento do solo em Alagoas. Sessenta mil pessoas afetadas, 14 mil imóveis condenados. Isso não é um número que desaparece com reestruturação financeira. É um passivo que vai perseguir a empresa por anos.

Mark

Os bancos pediram garantias. Por que a Braskem recusou?

Mimi

Porque não tinha ativos suficientes para oferecer sem comprometer ainda mais sua operação. E um empréstimo de US$ 700 milhões seria apenas um curativo em uma ferida muito maior.

Mark

A joint venture nos EUA também está em recuperação?

Mimi

Sim, protocolou Chapter 11 na semana anterior. Mostra que os problemas da Braskem não são localizados — são estruturais, globais. O setor petroquímico inteiro está sob pressão.

Mark

Então há chance real de a Braskem sair dessa?

Mimi

Depende de três coisas: se conseguir a adesão dos credores, se o mercado petroquímico melhorar, e se conseguir resolver o passivo de Alagoas. Nenhuma delas está garantida.

  • Com 39,6% dos credores aderindo ao plano, a Braskem tem 90 dias para convencer os demais — ou enfrentar a conversão para uma recuperação judicial muito mais severa.
  • A tutela cautelar que protegia a empresa de execuções por 60 dias expirou nesta segunda-feira sem acordo fechado, após a Braskem recusar exigências bancárias de garantias sobre seus ativos e um empréstimo de US$ 700 milhões.
  • O setor petroquímico global opera em crise estrutural, e na Braskem o custo dos produtos vendidos consome 96% da receita líquida, enquanto a Selic saltou de 2% para 15% em seis anos, tornando a dívida cada vez mais cara de carregar.
  • Em Alagoas, o afundamento do solo causado pela exploração de sal-gema condenou cerca de 14 mil imóveis e afetou 60 mil pessoas — um passivo que nenhuma reestruturação financeira apaga.
  • A joint venture Braskem Idesa, no México, já protocolou Chapter 11 nos Estados Unidos, sinalizando que a crise da petroquímica transcende fronteiras e balanços.

A Braskem, maior petroquímica da América Latina, chegou a um momento de rara gravidade ao formalizar um pedido de recuperação extrajudicial para reorganizar uma dívida de US$ 10,9 bilhões — peso acumulado ao longo de anos de margens comprimidas, câmbio desfavorável e um passivo humano e ambiental sem precedentes em Alagoas. A medida representa a tentativa de a empresa negociar seu futuro fora dos tribunais, antes que os tribunais passem a ditar os termos. O que está em jogo não é apenas a sobrevivência de uma corporação, mas o destino de dezenas de milhares de pessoas cujas vidas já foram transformadas pelas consequências de suas operações.

A Braskem formalizou na segunda-feira um pedido de recuperação extrajudicial para reestruturar uma dívida de US$ 10,9 bilhões — cerca de R$ 56 bilhões. O movimento busca criar um ambiente juridicamente protegido para negociar diretamente com credores, com a esperança de levar um plano à homologação da Justiça sem precisar recorrer ao sistema judicial tradicional.

Já há adesão de 39,6% dos credores. Nos próximos 90 dias, a empresa precisa ampliar esse apoio para que um plano atualizado — que prevê alongamento de prazos, alívio financeiro temporário e possível conversão de parte da dívida em ações — possa ser homologado e vincular a totalidade dos créditos sujeitos. A Braskem garantiu que fornecedores, clientes e parceiros não serão afetados, mas o risco é real: sem adesão suficiente, o processo pode ser convertido em recuperação judicial.

O caminho até aqui foi acelerado por uma série de golpes. Em junho, Fitch e S&P rebaixaram a nota da empresa. Uma tutela cautelar que protegia a Braskem de execuções por 60 dias expirou nesta segunda-feira sem acordo — os bancos exigiam garantias sobre ativos da empresa e um empréstimo de US$ 700 milhões, e a Braskem recusou. A Selic, que estava em 2% em 2020, chegou a 15% em março de 2026, tornando o serviço de uma dívida majoritariamente em moeda estrangeira cada vez mais pesado.

Mas o problema mais profundo está em Alagoas. O afundamento do solo causado pela exploração de sal-gema gerou um passivo bilionário e humano de proporções difíceis de dimensionar: cerca de 60 mil pessoas afetadas, aproximadamente 14 mil imóveis condenados. Em junho, a Justiça Federal aceitou denúncia do Ministério Público Federal no caso — notícia que derrubou as ações da empresa quase 15% em um único dia.

A semana anterior trouxe mais um sinal de alerta: a joint venture Braskem Idesa, no México, protocolou seu próprio pedido de recuperação sob o Chapter 11 nos Estados Unidos. O resultado dos próximos 90 dias determinará não apenas o futuro financeiro da Braskem, mas também o de milhares de pessoas cujas vidas já foram alteradas de forma irreversível.

A Braskem formalizou na segunda-feira um pedido de recuperação extrajudicial para reestruturar uma dívida monumental de US$ 10,9 bilhões — o equivalente a cerca de R$ 56 bilhões. O anúncio, feito através de fato relevante, marca um ponto de inflexão para a petroquímica brasileira, que busca negociar diretamente com seus credores fora do sistema judicial tradicional, com a esperança de levar um acordo à homologação da Justiça.

O mecanismo escolhido oferece à empresa um ambiente juridicamente protegido para discutir a reestruturação de suas obrigações financeiras. Já há adesão de 39,6% dos credores ao plano. Nos próximos 90 dias, a Braskem precisa alcançar o percentual necessário para que um plano atualizado seja homologado — um acordo que, se aprovado, poderia vincular 100% dos créditos sujeitos. O plano prevê alongamento dos prazos de vencimento, um período de alívio financeiro e a possibilidade de capitalizar juros. Parte da dívida também poderá ser convertida em ações da companhia.

A empresa deixou claro que a medida tem escopo estritamente financeiro e não afeta suas obrigações com fornecedores, clientes e demais parceiros, que continuam sendo cumpridas normalmente. Ainda assim, o cenário é frágil: se não conseguir o apoio necessário nos próximos três meses, o processo pode ser convertido em recuperação judicial — um caminho mais longo e potencialmente mais prejudicial.

O caminho até aqui foi acelerado. Há pouco mais de um mês, a empresa já discutia com credores a necessidade de reestruturação. Em junho, as agências Fitch e S&P Global rebaixaram a nota da companhia, citando as dívidas e uma decisão da 2ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo que havia aprovado um pedido de tutela cautelar. Esse pedido oferecia proteção contra execuções de credores por 60 dias — um prazo que expirou nesta segunda-feira sem que um acordo tivesse sido fechado. Os bancos exigiam garantias sobre ativos da própria Braskem e a contratação de um empréstimo de US$ 700 milhões. A empresa recusou.

Os problemas que levaram a Braskem a este ponto são múltiplos e profundos. O setor petroquímico global enfrenta excesso de oferta, margens comprimidas e demanda fraca. Na Braskem especificamente, o custo dos produtos vendidos consome cerca de 96% da receita líquida — uma margem que deixa pouco espaço para respirar. A estrutura de capital da empresa também se tornou um peso crescente: a Selic subiu de 2% em 2020 para 15% em março de 2026, elevando drasticamente o custo de servir a dívida. Boa parte do passivo está denominada em moeda estrangeira, expondo a companhia a flutuações cambiais.

Mas há um problema ainda maior, localizado em Alagoas. O afundamento do solo associado à exploração de sal-gema gerou um passivo bilionário que a empresa não consegue contornar. Cerca de 60 mil pessoas foram afetadas por esse fenômeno. Aproximadamente 14 mil imóveis foram condenados. Em junho, a Justiça Federal aceitou denúncia do Ministério Público Federal no caso — um desenvolvimento que fez as ações da Braskem caírem quase 15% naquele dia.

A situação se agravou ainda mais quando a joint venture Braskem Idesa, sediada no México, protocolou seu próprio pedido de recuperação judicial sob o Chapter 11 nos Estados Unidos na semana anterior. A Braskem não está sozinha em sua luta pela sobrevivência financeira, e o resultado dessa recuperação extrajudicial determinará não apenas o futuro da empresa, mas também o de milhares de pessoas cujas vidas já foram alteradas pelas consequências de suas operações.

A medida possui escopo limitado, estritamente financeiro, e não abrange quaisquer obrigações da empresa com seus fornecedores, clientes e demais stakeholders
— Braskem, em comunicado
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