Brasil precisa atrair e reter talentos em IA antes que seja tarde demais

Talento de ponta pode encontrar aqui o mesmo tipo de oportunidade que o atrai para fora
Startups brasileiras como Enter provam que o Brasil pode competir globalmente, mas precisa de políticas públicas para reter profissionais.
Mark

Por que as Big Techs estão dispostas a pagar US$ 300 milhões por um pesquisador de IA? Isso não parece exagerado?

Mimi

Não é exagerado quando você entende que há apenas algumas centenas de pessoas no mundo que sabem realmente como construir sistemas de IA em escala. A escassez é o que define o preço. Quando o recurso é tão raro, o investimento faz sentido.

Luke

Mas esses números — US$ 300 milhões — vêm de uma fonte? Zuckerberg realmente ofereceu isso, ou é uma estimativa?

Mark

Ótima pergunta. E quanto ao Brasil? Por que estamos perdendo nessa competição?

Mimi

O Brasil tem um déficit estrutural. Entre 2019 e 2024, o setor de TI demandou 665 mil profissionais, mas apenas 464 mil se formaram. Ao mesmo tempo, 5,29 milhões de brasileiros vivem no exterior.

Luke

Mas há um movimento contrário, certo? As startups de IA cresceram 177% desde 2016.

Mimi

Exatamente. A Enter é um exemplo perfeito — um unicórnio de IA fundado por três jovens que poderiam ter ido para os EUA, mas escolheram o Brasil. Isso prova que oportunidades de ponta existem aqui.

Mark

Então qual é o problema? Se as oportunidades existem, por que as pessoas ainda saem?

Mimi

Porque não há uma política pública coordenada para retê-las. As startups conseguem atrair talento, mas o governo não está fazendo sua parte. Os EUA têm vistos de treinamento prático que mantêm estrangeiros no país. O Brasil não tem nada equivalente.

Luke

Espera — você está dizendo que a solução é política pública? Porque o texto sugere isso, mas não oferece detalhes sobre o que seria essa política.

Mimi

É verdade. O texto aponta o problema e a direção, mas não especifica as medidas. Isso fica em aberto para o próximo governo.

Mark

Então o Brasil tem o talento, tem as startups, mas está perdendo a corrida porque não tem a infraestrutura institucional?

Mimi

Exatamente. É como ter os jogadores certos, mas ninguém está treinando o time.

  • Big Techs como Meta e OpenAI oferecem pacotes de até US$ 300 milhões para capturar um grupo de pesquisadores tão escasso que cabe em um único auditório.
  • O Brasil perde na largada: déficit de 201 mil profissionais em TIC em cinco anos e 5,29 milhões de brasileiros vivendo fora revelam uma hemorragia silenciosa de capital humano.
  • Enquanto os EUA constroem pontes deliberadas — vistos, pós-graduação aberta a estrangeiros, incentivos fiscais —, o Brasil ainda não tem uma política coordenada de atração e retenção de talentos em IA.
  • Startups brasileiras de IA cresceram 177% desde 2016, e iniciativas como a BRASA tentam reconectar estudantes formados no exterior ao ecossistema local.
  • O próximo governo enfrenta uma janela estreita: sem ação pública coordenada, o país corre o risco de formar talentos para o mundo e colher apenas a conta.

Em um mundo onde algumas centenas de pessoas detêm o conhecimento para construir inteligência artificial em escala, nações e corporações travam uma batalha silenciosa e cara por cada uma delas. O Brasil, com déficit de 201 mil profissionais em tecnologia e mais de cinco milhões de cidadãos vivendo no exterior, assiste a essa disputa de longe — mas não de fora. Startups como a Enter, primeiro unicórnio latino-americano de IA, sugerem que o país pode ser protagonista, desde que decida, de fato, jogar.

As grandes empresas de tecnologia nunca pagaram tanto por tão poucos. Mark Zuckerberg passou a oferecer pacotes de até US$ 300 milhões para pesquisadores de IA; Sam Altman respondeu com bônus milionários e condições mais generosas de conversão de ações na OpenAI. A lógica é simples: há apenas algumas centenas de pessoas no mundo capazes de construir sistemas de inteligência artificial em escala real. Quando o recurso é tão raro, o preço sobe sem teto à vista.

Essa corrida não é nova na história — de Cristóvão Colombo financiado pela Coroa Espanhola a Elon Musk chegando aos EUA com uma mala de livros, o mercado de talentos excepcionais sempre foi global. O que mudou é a velocidade e o volume da disputa. Hoje, mais de 70% dos alunos de pós-graduação em ciência da computação nas universidades americanas são estrangeiros, e os EUA criaram estruturas deliberadas — como o visto OPT — para convertê-los em residentes produtivos. Em 2022, 42% dos principais pesquisadores globais de IA já trabalhavam em solo americano.

O Brasil observa esse movimento com um descompasso crescente. Entre 2019 e 2024, o setor de TIC demandou 665 mil profissionais, mas apenas 464 mil se formaram nas áreas correspondentes — um buraco de 201 mil pessoas. Ao mesmo tempo, 5,29 milhões de brasileiros vivem no exterior, mais que o dobro da população estrangeira regularizada no país. Com cada talento que parte, o Brasil perde não apenas um profissional, mas investimentos, empregos, conhecimento e a possibilidade de um ecossistema que poderia crescer ao redor dele.

Ainda assim, há sinais de resistência. O número de startups de IA no Brasil saltou de 352 em 2016 para 975 em 2025 — crescimento de 177%. A Enter, primeiro unicórnio latino-americano de inteligência artificial, foi fundada por três jovens que tinham financiamento disponível nos EUA e escolheram o Brasil. Outras empresas como Pax, Blip e Wildlife mostram que oportunidades de ponta existem aqui. A BRASA, organização com mais de 15 mil estudantes brasileiros em universidades estrangeiras, criou um movimento para reconectá-los ao país, em parceria com empresas como iFood, Itaú e BTG Pactual.

Essas iniciativas provam que o Brasil pode competir — mas não provam que vai competir. Formar talentos sem retê-los é financiar o crescimento alheio. O próximo governo precisará transformar sinais dispersos em política pública coordenada, antes que a janela se feche.

As grandes empresas de tecnologia travam uma batalha sem precedentes pela atenção dos pesquisadores de inteligência artificial. Na Meta, Mark Zuckerberg começou a oferecer pacotes de remuneração que chegam a US$ 300 milhões ao longo de quatro anos. Sam Altman, da OpenAI, respondeu com bônus para cerca de mil profissionais de pesquisa e engenharia, alguns na casa dos milhões de dólares, além de eliminar períodos de carência para a conversão de ações. O motivo é direto: há apenas algumas centenas de pessoas no mundo com experiência real para construir sistemas de inteligência artificial em escala. Quando o recurso é tão raro, o preço sobe.

Essa competição não é nova. Países e empresas sempre buscaram atrair talentos excepcionais — a história oferece exemplos que vão de Cristóvão Colombo, financiado pela Coroa Espanhola, até Elon Musk, que chegou aos Estados Unidos com uma mala de livros e três décadas depois se tornaria o primeiro trilionário em dólar da história. O mercado de trabalho para profissionais altamente qualificados é agora fundamentalmente global. Mais da metade dos imigrantes no mundo têm emprego fixo, e cerca de 38% possuem ensino superior completo — quase o dobro dos 20,4% registrados entre a população adulta brasileira em 2024.

Os Estados Unidos compreenderam essa dinâmica há tempo. Mais de 70% dos alunos de pós-graduação em ciência da computação nas universidades americanas são estrangeiros. Após a formação, o visto de treinamento prático (OPT) permite até três anos de trabalho legal em áreas de Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática. Essa estrutura foi desenhada deliberadamente para captar talento e retê-lo. Em 2022, 42% dos pesquisadores globais de topo em inteligência artificial trabalhavam nos EUA. Em 2026, 59% dos unicórnios americanos haviam sido fundados ou cofundados por imigrantes. Quando alguém com formação de ponta se estabelece em um país, aluga, consome, paga impostos, movimenta o comércio local e contribui diretamente ao PIB. Mais importante ainda, ocupa postos de pesquisa, transfere conhecimento e eleva a capacidade de inovação do país anfitrião.

O Brasil enfrenta um descompasso crescente. Entre 2019 e 2024, o setor de Tecnologia da Informação e Comunicação demandou cerca de 665 mil profissionais, mas apenas 464 mil se formaram nas áreas correspondentes no mesmo período — um déficit de 201 mil pessoas. Simultaneamente, 5,29 milhões de brasileiros vivem no exterior, mais que o dobro da população estrangeira regularizada em solo brasileiro. A fuga de cérebros é apenas parte do problema. O Brasil também perde o estrangeiro que escolhe outro país para se estabelecer, e o fundador que monta sua empresa onde encontra a melhor combinação de capital, infraestrutura e talento. Com essas pessoas, o país perde investimentos, empregos, conhecimento e a possibilidade de um ecossistema que poderia se desenvolver ao redor delas.

Mas há sinais de movimento em direção oposta. O número de startups de inteligência artificial no Brasil cresceu 177% na série histórica — de 352 em 2016 para 975 em 2025. A Enter, o primeiro unicórnio de inteligência artificial da América Latina, foi construída por três jovens excepcionais que poderiam ter recebido financiamento para montar a empresa nos Estados Unidos, mas escolheram o Brasil. A empresa trabalha com sistemas de IA para desafogar departamentos jurídicos no contencioso de massa. Também foram fundadas aqui a Pax, focada em segurança pública; a Blip, em inteligência conversacional; a Wildlife, em mobile games; e dezenas de outros empreendimentos. Diante da apatia do setor público, algumas entidades privadas começam a se mobilizar. A BRASA, organização que congrega mais de 15 mil estudantes brasileiros em faculdades fora do Brasil, criou um movimento para atraí-los de volta, conectando-os a empresas como iFood, Itaú Unibanco, BTG Pactual e Stone.

Essas startups provam que talento de ponta pode encontrar no Brasil o mesmo tipo de oportunidade que hoje o atrai para fora. Formar esses talentos é fundamental, mas não garante vitória se não houver um esforço simultâneo para retê-los no país. O próximo governo — qualquer que seja — precisa se debruçar sobre o assunto e criar uma política pública coordenada para atrair e reter talentos em inteligência artificial. A escassez virou o novo parâmetro do jogo, e o grupo restrito de pessoas que sabe como construir e implementar sistemas de IA escaláveis é a peça mais valiosa nessa disputa global.

As startups brasileiras provam que talento de ponta pode encontrar aqui o mesmo tipo de oportunidade que hoje o atrai para fora
— Nicola Calicchio, fundador da NC Advisory
Envie de l'histoire complète ? Lire l'original sur Brazil Journal ↗
Nous contacter FAQ