Em meio a mais de 156 mil mortes anuais causadas pelo tabaco, o Brasil é apontado por especialistas internacionais como o próximo candidato a tornar-se uma nação 'livre do fumo'. O modelo que inspira essa esperança vem da Suécia, único país europeu a reduzir sua taxa de fumantes abaixo de 5% — não apenas por meio de proibições, mas reconhecendo alternativas menos prejudiciais ao cigarro convencional. A questão que se coloca não é se o Brasil pode eliminar o tabaco de um dia para o outro, mas se está disposto a oferecer caminhos menos destrutivos enquanto caminha nessa direção.
Brasil é apontado como próximo país 'livre do fumo', diz especialista sueco
Cigarros eletrônicos são 95% menos prejudiciais que convencionais
Por que a Suécia conseguiu chegar a 5% de fumantes quando a média europeia é 23%?
Porque combinaram proibições tradicionais com algo que a maioria dos países não faz: reconhecer que produtos alternativos são menos prejudiciais e torná-los legais e acessíveis. Não é permissividade, é pragmatismo.
Mas isso não incentiva as pessoas a fumar de outras formas?
Ao contrário. Se alguém já fuma, oferecer uma alternativa 95% menos prejudicial reduz o dano real. E a tributação diferenciada faz com que essas alternativas sejam mais baratas que cigarros, criando um incentivo econômico para a mudança.
E por que o Brasil é candidato a replicar isso?
Porque já tem infraestrutura de saúde pública, medidas de controle em vigor, e uma população que está reduzindo o consumo. Mas também porque tem problemas específicos: 156 mil mortes por ano, contrabando desenfreado, e medidas atuais que apenas mascaram o problema.
O que mascara o problema?
Proibir fumar em ambientes fechados afasta fumantes de vista, mas não os faz parar. Em casa e ao ar livre, continuam fumando. É como varrer a sujeira para debaixo do tapete.
E o contrabando? Como isso muda a equação?
Cigarros ilegais não têm controle de substâncias. São ainda mais perigosos. Um programa de redução de danos só funciona se houver transparência sobre o que as pessoas estão consumindo.
Então o Brasil precisaria legalizar cigarros eletrônicos e similares?
Precisaria criar um espaço legal para eles, sim. Com tributação apropriada e regulação. Não é sobre permitir tudo, é sobre oferecer alternativas melhores dentro de um sistema controlado.
El Pulso
- Com 9,1% da população fumante e 156 mil mortes por ano, o Brasil carrega um fardo de saúde pública que as medidas atuais não estão conseguindo aliviar de forma efetiva.
- Proibições em ambientes fechados afastam fumantes dos espaços públicos, mas não reduzem o consumo real — em casa e ao ar livre, o hábito persiste sem controle.
- O contrabando massivo de cigarros agrava o cenário: produtos ilegais circulam sem qualquer fiscalização sobre suas substâncias, tornando-os ainda mais letais.
- Especialistas de Reino Unido, EUA, Suécia e Grécia reuniram-se em São Paulo para propor um caminho alternativo: reconhecer produtos livres de fumaça como ferramentas de redução de danos, seguindo o exemplo sueco.
- O debate avança — o seminário brasileiro foi replicado na Bélgica, África do Sul, Bangladesh e Suécia, sinalizando que a discussão ganhou dimensão global.
Em meio a mais de 156 mil mortes anuais causadas pelo tabaco, o Brasil é apontado por especialistas internacionais como o próximo candidato a tornar-se uma nação 'livre do fumo'. O modelo que inspira essa esperança vem da Suécia, único país europeu a reduzir sua taxa de fumantes abaixo de 5% — não apenas por meio de proibições, mas reconhecendo alternativas menos prejudiciais ao cigarro convencional. A questão que se coloca não é se o Brasil pode eliminar o tabaco de um dia para o outro, mas se está disposto a oferecer caminhos menos destrutivos enquanto caminha nessa direção.
A Suécia conseguiu o que nenhum outro país europeu alcançou: menos de 5% de sua população fuma, o limiar estabelecido pela OMS para uma nação ser considerada 'livre do fumo', numa região onde a média chega a 23%. Agora, especialistas que estudaram essa conquista apontam o Brasil como o próximo candidato a replicá-la.
Em maio de 2023, médicos e pesquisadores de vários países se reuniram em São Paulo para discutir como reduzir o dano causado pelo tabaco. Entre eles estavam Delon Human e Anders Milton, autores de um relatório que mapeou as estratégias suecas. O documento revela que o segredo não está apenas em proibições: a Suécia combina restrições tradicionais com o reconhecimento de produtos livres de fumaça como alternativas menos prejudiciais. Cigarros eletrônicos, sachês de nicotina e similares oferecem uma saída que não exige abstinência total. A tributação reforça essa lógica — produtos sem fumaça pagam menos impostos que cigarros convencionais, tornando-os mais acessíveis.
O Brasil enfrenta um cenário desafiador. Com 9,1% de fumantes e mais de 156 mil mortes anuais ligadas ao tabaco, o país ainda proíbe legalmente qualquer alternativa menos prejudicial ao cigarro tradicional. Para Human, as medidas atuais — como a proibição de fumar em ambientes fechados — funcionam mais como disfarce do que como solução: afastam fumantes dos espaços públicos, mas não reduzem o consumo real. O contrabando massivo de cigarros ilegais, sem qualquer controle sobre suas substâncias, agrava ainda mais o problema.
O seminário, organizado pela Aliança Pan-Americana para a Redução de Danos, abordou o tema sob múltiplas perspectivas — política, ciência e experiências de consumidores. O evento teve desdobramentos internacionais, com versões realizadas na Bélgica, África do Sul, Bangladesh e Suécia. O que emerge dessa conversa é uma visão pragmática: não existem produtos de tabaco sem risco, mas alguns são significativamente menos prejudiciais que outros. A pergunta para o Brasil não é se as pessoas vão parar de fumar da noite para o dia, mas se o país está pronto para oferecer caminhos menos destrutivos enquanto trabalha para reduzir o consumo total.
A Suécia alcançou uma marca que nenhum outro país europeu conseguiu: menos de 5% de sua população fuma. Essa cifra, estabelecida pela Organização Mundial da Saúde como o limiar para uma nação ser considerada "livre do fumo", representa uma conquista rara num continente onde a média de fumantes chega a 23%. Agora, especialistas que estudaram como os suecos chegaram lá apontam o Brasil como o próximo candidato a replicar esse feito.
Em maio de 2023, médicos e pesquisadores de Reino Unido, Estados Unidos, Suécia, Grécia e outros países europeus se reuniram em São Paulo para discutir como reduzir o dano causado pelo tabaco. Entre eles estavam Delon Human e Anders Milton, autores de um relatório publicado em março daquele ano que mapeava as estratégias que transformaram a Suécia. O documento, intitulado "A Experiência Sueca: Um roteiro para uma sociedade livre do tabaco", detalha um modelo que combina elementos tradicionais de controle com uma abordagem inovadora.
O segredo sueco não está apenas em proibições. Sim, o país segue recomendações da OMS, restringindo onde as pessoas podem fumar e reduzindo a oferta de tabaco. Mas acrescenta algo que distingue sua estratégia: reconhece produtos livres de fumaça como alternativas menos prejudiciais. Segundo Human, cigarros eletrônicos são 95% menos nocivos que cigarros convencionais. Sachês de nicotina e outros produtos similares oferecem aos fumantes uma saída que não é a abstinência total, mas também não é o cigarro tradicional. A Suécia ainda usa a tributação como ferramenta: produtos livres de fumaça recebem impostos menores que cigarros combustíveis, tornando-os mais acessíveis.
O Brasil enfrenta um cenário diferente. Com 9,1% de sua população fumando, o país registra mais de 156 mil mortes anuais relacionadas ao tabaco. Embora o número de fumantes tenha caído significativamente nas últimas décadas, ainda há muito caminho a percorrer. Além disso, o Brasil só legaliza produtos tradicionais de tabaco: cigarros, cachimbos, charutos e narguiles. Não há espaço legal para alternativas menos prejudiciais. Human vê nisso uma oportunidade. Para ele, o Brasil reúne as características necessárias para um programa bem-sucedido de redução de danos.
Mas há obstáculos. As medidas atuais brasileiras, como a proibição de fumar em ambientes fechados, funcionam mais como um disfarce do que como solução, na visão de Human. Elas afastam fumantes de espaços públicos, mas não reduzem o consumo real. Em casa e ao ar livre, as pessoas continuam fumando. Há ainda outro problema: o contrabando de cigarros é imenso no Brasil, e esses produtos ilegais carecem de qualquer controle sobre suas substâncias, tornando-os ainda mais perigosos.
O seminário de São Paulo foi organizado pela Aliança Pan-Americana para a Redução de Danos e abordou o tema sob múltiplas perspectivas: política, ciência e experiências de consumidores. Os palestrantes trouxeram casos de outros países, discutiram o papel dos profissionais de saúde, ouviram quem usa produtos de redução de danos e analisaram implicações econômicas, socioambientais e legais. O evento não ficou restrito ao Brasil: versões posteriores foram levadas para Bélgica, África do Sul, Bangladesh e Suécia.
Derek Yach, um dos palestrantes, é consultor independente de saúde global e fundou a Foundation for a Smoke-Free World, organização dedicada a acelerar esforços globais para reduzir mortes e danos causados pelo fumo. Ele também foi professor em Yale e ex-diretor executivo de doenças não transmissíveis na OMS. Anders Milton, outro autor do relatório sueco, é médico com vasta experiência em saúde pública, ex-presidente da Associação Médica Mundial e atual presidente da Comissão Snus. Seus currículos refletem décadas de trabalho em políticas de saúde em nível global.
O que emerge dessa conversa é uma visão pragmática: não há produtos de tabaco sem risco, mas alguns são significativamente menos prejudiciais que outros. A questão para o Brasil não é se as pessoas vão parar de fumar da noite para o dia, mas como oferecer caminhos menos destrutivos enquanto trabalha para reduzir o consumo total. A Suécia provou que é possível. Agora, especialistas internacionais estão dizendo que o Brasil tem potencial para fazer o mesmo.
Citas Notables
Trata-se de combinar o controle do tabaco com a minimização dos danos. Não há produtos de tabaco livres de risco, mas os cigarros eletrônicos são 95% menos prejudiciais que os cigarros convencionais.— Dr. Delon Human, autor do relatório sueco
O Brasil reúne todas as características necessárias para um bom programa de redução de danos. Com a experiência da Suécia, sabemos que os países que abraçam a causa conseguem resultados muito positivos.— Dr. Delon Human