No Rio de Janeiro, durante o Web Summit, especialistas em tecnologia e políticas públicas levantaram uma questão que transcende o debate jurídico: ao concentrar suas energias apenas em regular a inteligência artificial, o Brasil arrisca repetir um padrão histórico de países que chegam tarde à mesa da inovação e terminam dependentes de quem chegou primeiro. A advertência não é contra a regulação em si, mas contra a ilusão de que regular é suficiente — quando o que está em jogo é a soberania tecnológica de uma nação.
Brasil corre risco de dependência em IA sem estratégia própria, alertam especialistas
O Brasil precisa desenvolver as próprias capacidades para não ficar na mão de um ou de outro
Por que o Brasil não consegue simplesmente copiar o que a Europa fez com regulação de IA?
Porque a Europa já mudou de ideia. A lei que o Brasil está copiando é de 2019 e já foi toda modificada. Mas o problema é maior: copiar significa nunca desenvolver capacidade própria de pensar sobre o assunto.
Então o risco é ficar dependente de tecnologia estrangeira?
Exatamente. Se o Brasil só regula sem desenvolver empresas, infraestrutura e modelos próprios de IA, vai ficar na mão de quem controla a tecnologia. Será sempre consumidor, nunca criador.
Mas não é importante regular bem para proteger as pessoas?
Claro que é. Mas uma regulação muito restritiva pode afastar justamente as empresas que poderiam inovar aqui. É preciso equilíbrio: proteger direitos e estimular desenvolvimento ao mesmo tempo.
Como o Brasil conseguiu fazer diferente com o Marco Civil da Internet?
Abriu para consultas públicas, envolveu a sociedade, deixou o processo transparente. Foi democracia participativa de verdade. Desta vez, não está acontecendo assim.
O que deveria estar em discussão agora?
Um projeto de país. Como a IA vai ser uma alavanca de produtividade? Como o Brasil constrói seu próprio ecossistema tecnológico? Não é só sobre regras, é sobre visão.
El Pulso
- O Brasil discute regulação de IA copiando uma lei europeia de 2019 que a própria Europa já reformulou — o alvo se moveu antes de o país atirar.
- A falta de transparência no processo legislativo forçou especialistas a recorrer à Lei de Acesso à Informação para ver contribuições que deveriam ser públicas.
- Uma regulação excessivamente restritiva pode paralisar o mercado e afastar investimentos, enquanto a ausência de regulação entrega o ecossistema a decisões tomadas fora do país.
- O verdadeiro risco não é apenas regulatório: é o Brasil nunca construir empresas, infraestrutura e capacidades próprias em inteligência artificial.
- A saída apontada pelos especialistas é tratar a IA como projeto de país — ofensivo, participativo e soberano — repetindo o que funcionou com o Marco Civil da Internet em 2014.
No Rio de Janeiro, durante o Web Summit, especialistas em tecnologia e políticas públicas levantaram uma questão que transcende o debate jurídico: ao concentrar suas energias apenas em regular a inteligência artificial, o Brasil arrisca repetir um padrão histórico de países que chegam tarde à mesa da inovação e terminam dependentes de quem chegou primeiro. A advertência não é contra a regulação em si, mas contra a ilusão de que regular é suficiente — quando o que está em jogo é a soberania tecnológica de uma nação.
No palco do Web Summit Rio, Ronaldo Lemos e Bruno Lewicki, da OpenAI para a América Latina, concordaram em um diagnóstico desconfortável: o Brasil está prestes a debater inteligência artificial da forma errada. Mediado pela jornalista Luciana Magalhães, da Reuters, o painel colocou em evidência o risco de o país se tornar dependente de tecnologia estrangeira ao focar apenas em regulação, sem construir capacidades próprias.
Lemos foi direto na crítica: a proposta brasileira de regulação de IA é um reflexo deformado da legislação europeia — e de uma versão já superada, de 2019. O Brasil persegue um alvo que já se moveu. Para ele, o contraste com o passado é doloroso. O Marco Civil da Internet, aprovado em 2014, nasceu de consultas públicas abertas e participação ampla da sociedade. Desta vez, Lemos precisou recorrer à Lei de Acesso à Informação para obter as contribuições da consulta pública sobre IA. A falta de transparência o incomodou tanto quanto o conteúdo da proposta.
O ponto mais profundo de sua crítica é estrutural: o Brasil corre o risco de nunca desenvolver independência real em inteligência artificial. O futuro não pode ser depender da OpenAI ou de qualquer fornecedor estrangeiro. O país precisa de suas próprias empresas, sua própria infraestrutura, sua própria capacidade de criação.
Lewicki não discordou do diagnóstico, mas trouxe uma tensão complementar. Concordou que a IA precisa entrar na estratégia de desenvolvimento do Brasil — isso é inegociável. Mas alertou que uma regulação desequilibrada pode paralisar o mercado: legislações muito restritivas afastam inovação e investimento. Uma boa regulação protege direitos, garante transparência e segurança, mas também estimula o desenvolvimento.
Sua provocação maior foi esta: o Brasil deveria estar discutindo um projeto de país, não apenas regras. Como a inteligência artificial pode ser uma alavanca real de produtividade? O que está sendo fomentado dentro do Brasil para que o ecossistema local ganhe tração global?
A tensão exposta no debate é real: regular demais cria um vazio onde deveria haver inovação; regular de menos entrega o país a decisões tomadas em outros continentes. A saída, segundo os dois, passa por fazer o que o Brasil já fez uma vez — pensar com as próprias pernas, envolver a sociedade e construir uma estratégia não apenas defensiva, mas ofensiva.
No palco do Web Summit Rio, dois nomes centrais no debate sobre tecnologia e internet no Brasil colocaram na mesa uma questão incômoda: o país está prestes a discutir inteligência artificial de forma completamente errada. Ronaldo Lemos, um dos arquitetos do Marco Civil da Internet, e Bruno Lewicki, chefe de Políticas Públicas da OpenAI para a América Latina, concordaram em um ponto fundamental durante o painel mediado pela jornalista Luciana Magalhães, da Reuters: o Brasil corre o risco de se tornar dependente de tecnologia estrangeira se continuar focando apenas em como regular a IA, sem construir capacidades próprias para desenvolvê-la.
O incômodo de Lemos é específico. A proposta de regulação da inteligência artificial em discussão no Brasil, segundo ele, é um espelho deformado de legislações estrangeiras — particularmente da Europa — sem considerar as necessidades reais do país. Pior: está copiando uma lei europeia de 2019 que já foi completamente reformulada. É como se o Brasil estivesse perseguindo um alvo que já se moveu. Lemos fez questão de lembrar que o Brasil já provou ser capaz de fazer diferente. O Marco Civil da Internet, aprovado em 2014, nasceu de consultas públicas abertas, de participação ampla da sociedade, de um processo que funcionou como democracia participativa de verdade. Aquele momento deixou marcas. Desta vez, o caminho foi outro: Lemos precisou recorrer à Lei de Acesso à Informação para obter as contribuições apresentadas durante a consulta pública sobre IA. A falta de transparência o incomodou tanto quanto o conteúdo da proposta.
O ponto central da crítica de Lemos é que quanto mais pessoas participam da elaboração de uma lei, melhor tende a ser o resultado, porque ela é testada por quem vive aquela realidade prática. Mas há algo maior em jogo aqui. O Brasil, na visão dele, corre o risco de nunca desenvolver nenhuma capacidade local real de independência em inteligência artificial. O futuro não deveria ser depender da OpenAI ou de qualquer outra empresa estrangeira. O país precisa construir suas próprias capacidades, suas próprias empresas, sua própria infraestrutura. Caso contrário, ficará à mercê de quem controla a tecnologia.
Lewicki não discordou do diagnóstico, mas trouxe uma perspectiva diferente. Concordou que o Brasil precisa incorporar a inteligência artificial à sua estratégia de desenvolvimento econômico e social — isso é inegociável. Mas alertou para um risco oposto: uma regulação desequilibrada pode paralisar o mercado. Se a legislação for muito restritiva, as empresas simplesmente não inovam ou procuram outros ambientes para se desenvolver. Uma boa regulação, na visão do executivo da OpenAI, precisa proteger direitos dos cidadãos, garantir transparência e segurança, mas também estimular o desenvolvimento tecnológico. É um equilíbrio delicado.
O que Lewicki trouxe de novo foi uma provocação maior: o Brasil deveria estar discutindo um projeto de país, não apenas regras. Como o país quer incorporar a inteligência artificial nesse projeto? Como ela pode ser uma alavanca real de produtividade? Nessa perspectiva, a preocupação não deveria ser apenas se uma regra vai afastar investimentos, mas sim o que está sendo fomentado dentro do Brasil, porque é o ecossistema local que precisa ganhar tração para competir no mercado global.
O debate expõe uma tensão real: o Brasil pode regular a IA de forma tão cautelosa que acaba criando um vazio onde deveria haver inovação. Ou pode deixar de regular e ficar refém de decisões tomadas em outros continentes. A saída, segundo os dois especialistas, passa por fazer o que o Brasil já fez uma vez: pensar com as próprias pernas, envolver a sociedade, e construir uma estratégia que não seja apenas defensiva, mas ofensiva — que coloque o país em posição de criar, não apenas consumir.
Citas Notables
Nós somos o país que fez o Marco Civil da Internet. A gente não precisa copiar ninguém. A gente pode fazer uma lei brasileira de Inteligência Artificial e essa lei pode ser exemplo para o mundo todo— Ronaldo Lemos
Toda boa regulação deve ter como objetivo atingir um equilíbrio. Ela precisa proteger os direitos dos cidadãos, garantir transparência e segurança, mas também estimular o desenvolvimento tecnológico— Bruno Lewicki, OpenAI