Em meio à turbulência que apagou um trilhão de dólares do valor das empresas de tecnologia, Marcio Appel, gestor da Adam Capital, permanece inabalável em sua convicção sobre a inteligência artificial — não como moda, mas como transformação estrutural da civilização. Sua tese, construída desde 2022 a partir de uma demonstração do DALL-E, encontra sustento numa contradição que o mercado ainda não resolveu: se o ciclo de IA está acabando, por que as empresas de energia que alimentam os data centers são precificadas como se a demanda fosse eterna? Para além da tecnologia, Appel enxerga consequênci
Perda de US$ 1 tri reforça tese de IA na Adam Capital; Appel aposta em Nvidia
A vantagem americana está na Constituição, feita para limitar o Estado
Por que você continua apostando em Nvidia quando o mercado inteiro está questionando se a IA não foi apenas uma bolha?
Porque a bolha não é a tecnologia. A bolha é a precificação. Nvidia a 15 vezes o lucro de 2027 é uma coisa; empresas de energia para data centers precificadas como se a demanda fosse infinita é outra. Alguém está errado.
E se a China conseguir fazer isso melhor e mais barato?
A China não consegue. Não por falta de talento. Por causa do Estado. Um Estado que tenta administrar projetos de tecnologia de ponta é um mau administrador. Veja a SpaceX — 90% do mercado de lançamentos. A China ainda está aprendendo a pousar um propulsor.
Mas a DeepSeek está vindo com modelos abertos e gratuitos. Não é uma ameaça?
Modelos abertos custam 90% menos. Isso favorece quem vende o equipamento. Nvidia vende equipamento.
Então você acha que o dólar vai subir muito?
Vai. Os Estados Unidos precisam de capital do mundo inteiro para financiar isso. Dinheiro entrando, dólar sobe. Aconteceu nos anos 1990.
E o real? Você parece pessimista.
Não sou pessimista. Sou realista. O real se sustenta por juros altos. As contas externas estão em déficit. Sem cortes de gastos — e não vai ter — o ajuste vem pela inflação. Pode ser 50%.
Isso é permanente ou temporário?
Permanente. A vantagem americana está na Constituição. Eles querem distância do governo. O resto do mundo espera ajuda dele. Enquanto isso for verdade, o dólar sobe.
O Pulso
- A queda de um trilhão de dólares nas ações de tecnologia criou um momento de dúvida coletiva — mas Appel recusa-se a recuar, argumentando que o pânico confunde volatilidade com fim de ciclo.
- A contradição central que sustenta sua tese é perturbadora: o mercado precifica a Nvidia como se a IA fosse passageira, mas precifica as empresas de energia dos data centers como se a demanda fosse infinita — e alguém está gravemente errado.
- A ameaça da DeepSeek e da China é descartada com precisão cirúrgica: não é falta de talento, é a incapacidade estrutural do Estado de conduzir inovação radical — uma vantagem americana inscrita na própria Constituição.
- O dólar deve se fortalecer à medida que o mundo inteiro canaliza capital para financiar a infraestrutura de IA americana, repetindo o padrão dos anos 1990 quando bolsa e moeda subiram juntas.
- O real, sustentado artificialmente pelos juros altos enquanto as contas externas já sangram em déficit, caminha para um ajuste cambial de até 50% — não como flutuação, mas como acerto permanente de uma conta que o país se recusa a pagar politicamente.
Em meio à turbulência que apagou um trilhão de dólares do valor das empresas de tecnologia, Marcio Appel, gestor da Adam Capital, permanece inabalável em sua convicção sobre a inteligência artificial — não como moda, mas como transformação estrutural da civilização. Sua tese, construída desde 2022 a partir de uma demonstração do DALL-E, encontra sustento numa contradição que o mercado ainda não resolveu: se o ciclo de IA está acabando, por que as empresas de energia que alimentam os data centers são precificadas como se a demanda fosse eterna? Para além da tecnologia, Appel enxerga consequências cambiais profundas — um dólar em ascensão e um real vulnerável a um ajuste de até 50%, não por acidente, mas por escolhas políticas que adiaram o inevitável.
Marcio Appel não está vendendo. Enquanto o mercado global recua diante da perda de um trilhão de dólares em valor de mercado das ações de tecnologia, o gestor da Adam Capital mantém sua aposta em inteligência artificial com a convicção de quem viu o futuro chegar antes da maioria.
Tudo começou em 2022, quando um primo do setor de software o apresentou ao DALL-E — um gerador de imagens que entendia linguagem natural e criava a partir dela. Appel reconheceu ali não um truque de laboratório, mas o início de algo estrutural. Comprou Nvidia no final daquele ano. O papel ficou dormindo por seis meses até o ChatGPT mudar o jogo. Desde então, foi acumulando posições enquanto o mercado oscilava entre euforia e pânico.
O que o mantém firme é uma contradição simples: a Nvidia é negociada a cerca de 15 vezes o lucro projetado para 2027 — como se o ciclo de IA fosse curto. Mas as empresas de energia que alimentam os data centers são precificadas como se a demanda nunca fosse parar. Para Appel, é o mercado que subestima a profundidade da transformação.
Sobre a China e a DeepSeek, é categórico: a ameaça não é real. Não por falta de talento, mas porque o Estado é um administrador ruim desse tipo de projeto. A vantagem americana está enraizada na Constituição — feita para limitar o poder estatal, não para ampliá-lo. Enquanto o mundo espera ajuda do governo, os Estados Unidos prosperam querendo distância dele.
Da IA, Appel extrai também uma consequência cambial. O dólar tende a se fortalecer, repetindo o padrão dos anos 1990, quando bolsa e moeda subiram juntas. O fluxo de capital global em direção à infraestrutura americana de IA é difícil de conter.
O real, por sua vez, tem uma história mais dura. Sustentado pelos juros altos, já deveria estar mais desvalorizado — as contas externas estão em déficit. Appel projeta um ajuste de até 50% no câmbio e o trata como permanente. Sem cortes de gastos politicamente viáveis, o acerto virá pela inflação. Uma visão sem consolo, mas com clareza.
Marcio Appel não está vendendo. Enquanto o mercado global se retrai diante da perda de um trilhão de dólares em valor de mercado das ações de tecnologia, o gestor da Adam Capital — que administra três bilhões de reais — mantém sua aposta em inteligência artificial com a convicção de quem viu o futuro chegar mais cedo que a maioria.
Tudo começou em 2022, quando um primo ligado ao setor de software o chamou para conhecer o DALL-E, o gerador de imagens da OpenAI que funcionava por comando de texto. Não era desenho manual; era máquina entendendo linguagem natural e criando. Appel viu ali o que muitos ainda não conseguiam enxergar: não era um truque de laboratório, era o começo de algo estrutural. Comprou ações da Nvidia no final daquele ano. O papel ficou dormindo por seis meses até o ChatGPT explodir em novembro de 2022 e mudar o jogo. Desde então, ele foi acumulando posições, conversando sobre isso no programa Stock Pickers, enquanto o mercado oscilava entre euforia e pânico.
O que o mantém firme agora, quando outros recuam, é uma observação simples sobre contradição. A Nvidia está sendo negociada a cerca de 15 vezes o lucro projetado para 2027 — como se o ciclo de IA fosse curto, como se estivéssemos perto do fim. Mas as empresas de energia que alimentam os centros de dados? Essas são precificadas como se a demanda nunca fosse parar. Alguém está errado nessa conta. Para Appel, é o mercado que subestima a profundidade da transformação.
Sobre a ameaça chinesa — a DeepSeek, que estuda abrir capital, e o avanço geral de Pequim em tecnologia — Appel é categórico: não é real. Não é falta de talento na China. É que o Estado é um administrador ruim desse tipo de projeto. Ele cita a SpaceX, que controla 90% do mercado de lançamentos espaciais, enquanto a China levou décadas para conseguir pousar um propulsor. Os modelos de IA abertos e gratuitos podem custar 90% menos que os proprietários, mas na prática isso favorece quem vende o equipamento — a Nvidia. A vantagem americana está enraizada na Constituição, feita para limitar o Estado. Enquanto o resto do mundo espera ajuda do governo, nos Estados Unidos querem distância dele.
Mas a IA não é apenas uma questão de tecnologia. Appel extrai dela uma consequência para as moedas. O dólar tende a se fortalecer. Nos anos 1990, quando a bolsa americana disparou, o dólar subiu junto. Agora será igual. Os Estados Unidos precisarão emitir dívida massiva para financiar os bilhões em investimento em IA, e esse fluxo de capital do mundo todo para lá é difícil de conter. Pressiona o dólar para cima.
O real, para ele, tem uma história mais dura. A moeda se sustenta basicamente pelos juros altos — e deveria estar bem mais desvalorizada, considerando que as contas externas já estão em déficit. Appel projeta um ajuste de até 50% no câmbio e trata isso como permanente, não como flutuação. Sem cortes relevantes de gastos públicos — politicamente impossíveis — o acerto virá pela inflação. É uma visão que não oferece consolo, mas oferece clareza.
Citações Notáveis
A inteligência artificial não é uma moda passageira — e boa parte do mercado erra ao tratar o setor como se a expansão estivesse perto do fim— Marcio Appel, gestor da Adam Capital
Enquanto uma boa parte do mundo espera ajuda do governo, nos Estados Unidos eles querem distância do governo— Marcio Appel