SpaceSail planeja lançar até 15 mil satélites LEO até 2030, comparado aos 6 mil da Starlink, oferecendo internet mais rápida e confiável. Starlink lidera mercado brasileiro com 45,9% de participação e fornece serviços críticos para Amazônia, Marinha e Petrobras.
Brasil assina acordo com China para desenvolver internet via satélite e desafiar domínio da Starlink
O Brasil não pode ter complexo de vira-lata diante de um cara americano
Por que o Brasil assinou esse acordo agora, especificamente com a China?
A crise com Musk em agosto deixou claro um risco: o país estava muito dependente de um único fornecedor estrangeiro que tinha tensões com as autoridades brasileiras. Quando o STF bloqueou o X, a Starlink também foi ameaçada. Isso assustou militares e empresas. O governo viu a oportunidade de diversificar.
Mas por que a China? Não havia outras opções?
A SpaceSail já tinha satélites em órbita e apresentava planos concretos. Além disso, há uma questão política: Musk apoiou Bolsonaro, e Lula deixou claro que não tolera pressão de bilionários americanos. Uma parceria chinesa também alinha com prioridades estratégicas da China, que quer expandir seu mercado de internet por satélite.
A SpaceSail consegue realmente competir com a Starlink?
Tecnicamente, sim. Planeja lançar 15 mil satélites até 2030, muito mais que os 6 mil da Starlink. Os satélites LEO são mais próximos da Terra, o que significa internet mais rápida. Mas a Starlink já tem experiência operacional no Brasil e qualidade comprovada. Será uma disputa real.
E se a SpaceSail não conseguir as autorizações da Anatel?
É um risco real. A empresa ainda precisa de aprovações regulatórias para construir infraestrutura no Brasil. Não há prazo confirmado para começar a operar. Tudo depende de como a Anatel avalia o projeto.
Qual é o maior risco para o Brasil nessa história?
Trocar uma dependência por outra. Se a Starlink é suspensa e o Brasil fica dependente da SpaceSail, o problema não desaparece, apenas muda de nacionalidade. O ideal seria ter múltiplos fornecedores realmente operacionais, não apenas acordos assinados.
E para a Starlink, o que muda?
Pela primeira vez, ela enfrenta uma ameaça real de competição em um mercado onde domina. Mas também tem vantagem: já está operando, já tem clientes, já provou qualidade. A SpaceSail ainda é promessa.
The Pulse
- SpaceSail planeja lançar até 15 mil satélites LEO até 2030, comparado aos 6 mil da Starlink
- Starlink lidera mercado brasileiro com 45,9% de participação em julho de 2024
- Crise entre Musk e STF culminou na suspensão do X em 30 de agosto de 2024
- Starlink fornece serviços para Marinha, Exército e Petrobras, além de 90% das cidades da Amazônia
SpaceSail planeja lançar até 15 mil satélites LEO até 2030, comparado aos 6 mil da Starlink, oferecendo internet mais rápida e confiável. Starlink lidera mercado brasileiro com 45,9% de participação e fornece serviços críticos para Amazônia, Marinha e Petrobras.
Brasil assinou memorandos com empresa chinesa SpaceSail para desenvolver serviço de internet via satélite, buscando reduzir dominância da Starlink de Elon Musk no mercado brasileiro.
Na terça-feira 19 de novembro, poucos dias antes de um encontro entre os presidentes do Brasil e China, o Ministério das Comunicações assinou acordos que podem reconfigurar o mercado de internet por satélite no país. Os memorandos envolvem a SpaceSail, uma empresa privada chinesa sediada em Xangai, e a Administração Nacional de Dados da China. O objetivo é claro: reduzir o domínio quase absoluto que a Starlink, de Elon Musk, exerce sobre esse segmento.
A SpaceSail trabalha com satélites de órbita baixa, conhecidos pela sigla LEO. Atualmente, a empresa opera 18 satélites, mas seus planos são ambiciosos: lançar até 15 mil unidades até 2030, comparado aos aproximadamente 6 mil que a Starlink possui hoje. Esses satélites LEO ficam a cerca de 549 quilômetros da superfície terrestre, bem mais próximos que os convencionais, o que permite transmissão de dados mais rápida e confiável. O funcionamento seria semelhante ao da Starlink: o usuário instalaria uma pequena antena para acessar a internet.
O timing do acordo não é casual. Dois meses antes, em agosto, o Brasil viveu uma crise sem precedentes com Musk. O Supremo Tribunal Federal suspendeu as operações do X, antigo Twitter, após a plataforma fechar seu escritório no país e se recusar a cumprir determinações judiciais. O ministro Alexandre de Moraes ordenou o bloqueio, e Musk reagiu com críticas diretas, acusando o magistrado de atentar contra a liberdade de expressão. A tensão transbordou para a Starlink quando o STF determinou o bloqueio das contas da empresa após o X deixar de pagar multas. Em outubro, o X foi autorizado a retornar, mas o episódio deixou claro o risco de dependência de um único fornecedor estrangeiro.
A Starlink cresceu de forma meteórica no Brasil. Em janeiro de 2023, era apenas a quinta provedora, com 4,7% do mercado de internet via satélite. Um ano e meio depois, em julho de 2024, assumiu a liderança com 45,9% de participação, segundo dados da Agência Nacional de Telecomunicações. A empresa não fornece apenas internet para pessoas em áreas remotas da Amazônia. Ela também conecta embarcações da Marinha, instalações militares do Exército e plataformas da Petrobras. Essa penetração estratégica deixou setores da economia e as Forças Armadas preocupados com uma possível suspensão do serviço.
Os contatos entre SpaceSail e Brasil começaram oficialmente em meados de agosto, quando uma comitiva liderada pelo presidente da empresa, Jie Zheng, se reuniu com representantes do governo, incluindo o vice-presidente Geraldo Alckmin. A empresa apresentou planos para entrar em operação no Brasil até 2025, embora ainda não haja prazo confirmado. Para isso, precisará de autorizações da Anatel para construir a infraestrutura necessária. Uma possibilidade em discussão é que a Telebras, estatal brasileira de telecomunicações, utilize os serviços da SpaceSail para fornecer internet de banda larga a escolas e outras instalações de interesse governamental.
No contexto político, a escolha de um parceiro chinês não é neutra. Lula e seu governo não veem Musk com bons olhos. Durante as eleições de 2022, o bilionário apoiou Jair Bolsonaro. Na crise de agosto, acusou Alexandre de Moraes de ter interferido no resultado das eleições vencidas por Lula. O presidente respondeu em entrevista, dizendo que Musk precisava respeitar as leis brasileiras e que o Brasil não poderia ter "complexo de vira-lata" diante de um "cara americano".
Para especialistas, a dominância da Starlink se explica pela qualidade superior do serviço. Thiago Ayub, diretor de tecnologia da Sage Networks, observa que 90% das cidades da Amazônia têm clientes Starlink. Mas ele avalia que ampliar o número de fornecedores é saudável para qualquer mercado, especialmente em um setor estratégico como este. Do lado chinês, a prioridade é clara: em 2020, a Comissão Nacional de Desenvolvimento e Reforma da China listou a criação de uma nova infraestrutura de internet via satélite como um dos principais objetivos do país no curto e médio prazos. O Brasil, com sua vasta geografia e demanda por conectividade, é um mercado atraente. O que acontece nos próximos meses — se a SpaceSail consegue as autorizações necessárias e começa a operar — pode redefinir não apenas o mercado de satélites, mas também a geopolítica da conectividade no país.
Notable Quotes
Ter múltiplos fornecedores do mesmo produto é um indicador de saúde de qualquer mercado, mas nesse em especial, por ser estratégico, é essencial que o Brasil consiga atrair outros competidores da Starlink— Thiago Ayub, diretor de tecnologia da Sage Networks
Ele tem que respeitar a decisão da Suprema Corte Brasileira. Se quiser bem, se não quiser, paciência. Se não for assim, esse país nunca será soberano— Presidente Luiz Inácio Lula da Silva