Bolsonaro tenta sellar filiação ao PP após dois anos sem partido e fracassos em série

O centrão, outrora execrado, é hoje a base de sustentação do governo
Bolsonaro retorna ao PP após criticar duramente o bloco político que agora sustenta seu governo no Congresso.
Mark

Por que Bolsonaro levou quase dois anos para encontrar um partido?

Mimi

Porque quis criar um do zero, totalmente sob seu controle. O Aliança pelo Brasil era seu plano A — um partido bolsonarista puro. Mas a ideia não decolou. Precisava de 492 mil assinaturas validadas e conseguiu apenas 140 mil em quase dois anos.

Mark

E por que as outras tentativas falharam?

Mimi

Porque cada vez que ele chegava em um partido pequeno, causava crises internas. No Patriota, o presidente que apoiava Bolsonaro foi removido. No PTB, houve acusações de interferência e ameaças de expulsão. Os partidos não conseguiam absorver a turbulência que ele trazia.

Mark

Então por que o PP é diferente?

Mimi

Porque o PP é grande, é o centrão, e já sustenta seu governo no Congresso. Ciro Nogueira, presidente do PP, é ministro da Casa Civil. Arthur Lira, que comanda a Câmara, já aceitou. Não há risco de implosão interna.

Mark

Qual é o ganho para Bolsonaro nessa filiação?

Mimi

Ele ganha legitimidade institucional e poder sobre candidaturas. Em troca, pode escolher os candidatos ao Senado em estados-chave. É uma moeda de troca clara.

Mark

E para o PP?

Mimi

O PP ganha a máquina presidencial, a base de Bolsonaro, e sua capacidade de mobilização. É um casamento de conveniência, não de ideologia.

Mark

Isso significa que o centrão venceu?

Mimi

Sim. Bolsonaro passou anos criticando o centrão como símbolo de tudo que estava errado na política. Agora ele precisa dele para governar. É uma derrota ideológica disfarçada de pragmatismo.

  • Sem partido há quase dois anos, Bolsonaro enfrenta um vazio institucional que ameaça sua viabilidade eleitoral para 2022.
  • O projeto do Aliança pelo Brasil naufragou silenciosamente — apenas 140 mil fichas validadas de um mínimo necessário de 492 mil, com a pandemia solapando o esforço de coleta.
  • Tentativas de filiação ao PRTB, Patriota e PTB deixaram rastros de crise interna, disputas de liderança e acusações de interferência em cada legenda que se aproximou.
  • O PP, com 90% dos diretórios estaduais favoráveis e resistência apenas pontual no Nordeste, se apresenta como porto seguro — e Arthur Lira, inicialmente relutante, já sinalizou aceitação.
  • Em troca da filiação, Bolsonaro negociaria o direito de indicar candidatos ao Senado em estados estratégicos, transformando sua entrada no partido em alavanca de poder para as eleições gerais.

Há algo quase circular na trajetória de Jair Bolsonaro: o presidente que chegou ao poder criticando o centrão agora negocia seu retorno ao PP, a mesma sigla que o acolheu no início de sua carreira parlamentar. Após quase dois anos sem partido, fracassos sucessivos na criação do Aliança pelo Brasil e negociações frustradas com legendas menores, Bolsonaro converge para o pragmatismo — buscando abrigo justamente na força que sustenta seu governo no Congresso. O movimento revela menos uma contradição do que uma constante da política brasileira: o poder tende a encontrar o poder.

Quase dois anos depois de deixar o PSL em meio a atritos públicos, Jair Bolsonaro trabalha para selar sua filiação ao PP — a mesma sigla que o acolheu no início de sua carreira política e que hoje lidera o centrão, o mesmo bloco que ele e seus aliados costumavam criticar com veemência. O retorno marca uma virada pragmática: o PP sustenta o governo no Congresso, comanda a Câmara dos Deputados e possui bancadas expressivas nas duas casas legislativas.

O caminho até aqui foi acidentado. O projeto mais ambicioso do período sem partido foi o Aliança pelo Brasil, lançado em novembro de 2019 com a presença da primeira-dama e de filhos do presidente. A ideia era ter uma legenda própria a tempo das eleições municipais de 2020 — prazo logo abandonado. A pandemia dificultou a coleta de apoio, e até outubro de 2021 o partido em formação havia reunido apenas 140 mil fichas validadas, menos de um terço das 492 mil exigidas pelo TSE.

Antes de convergir para o PP, Bolsonaro tentou negociar entrada no PRTB, no Patriota e no PTB de Roberto Jefferson. Em cada caso, as negociações geraram crises internas: no Patriota, o presidente da sigla favorável à filiação foi removido do cargo em reuniões conturbadas; no PTB, surgiram acusações de interferência e ameaças de expulsão de membros da família Jefferson.

No PP, o cenário é diferente. Dirigentes da sigla afirmam que basta Bolsonaro confirmar a decisão. Ciro Nogueira, presidente do partido e ministro da Casa Civil, sinalizou que a resistência de alguns diretórios nordestinos já não representa obstáculo real. Arthur Lira, que temia impactos em sua própria reeleição, também aceitou a migração. Em troca, Bolsonaro teria o direito de escolher candidatos ao Senado em estados estratégicos para 2022.

A filiação ao PP fecharia um círculo na longa trajetória partidária de Bolsonaro — iniciada na Arena, passando por PDC, PPR, PPB, PTB, PFL, PSC e PSL ao longo de mais de três décadas. Seria um retorno à sigla que o recebeu quando ainda era deputado federal iniciante, há mais de vinte anos.

Quase dois anos se passaram desde que Jair Bolsonaro deixou o PSL — o partido pelo qual chegou à presidência — em meio a atritos públicos e desentendimentos. Agora, em outubro de 2021, ele trabalha para selar sua filiação ao PP, a mesma sigla que o acolheu quando iniciava sua carreira política décadas atrás. O movimento marca um retorno ao centrão, aquele mesmo bloco de poder que Bolsonaro e seus aliados costumavam criticar duramente nos anos anteriores, mas que hoje sustenta seu governo no Congresso.

Nos quase 24 meses longe de um partido, Bolsonaro e sua rede de apoiadores enfrentaram uma série de fracassos. O projeto mais ambicioso foi a criação do Aliança pelo Brasil, lançado em novembro de 2019 em um evento em Brasília onde o presidente compareceu ao lado da primeira-dama Michelle e de três de seus cinco filhos. A ideia era construir uma legenda inteiramente sob seu comando, capaz de disputar as eleições municipais de 2020. Esse prazo foi abandonado rapidamente. A pandemia chegou e complicou ainda mais a coleta de apoio. Até outubro de 2021, o partido em formação havia conseguido apenas 140 mil fichas de eleitores validadas nos cartórios, quando precisava de 492 mil para solicitar seu registro ao Tribunal Superior Eleitoral.

Antes de se render à ideia de voltar ao PP, Bolsonaro tentou negociar entrada em outras legendas. Passou pelo PRTB e pelo Patriota, pequenos partidos que sofreram crises internas com essas negociações. No Patriota, o então presidente Adilson Barroso, entusiasta da filiação de Bolsonaro, foi removido do cargo durante confusas reuniões para aprovar a entrada do presidente. Seu sucessor, Ovasco Resende, denunciou ações irregulares e afirmou que o partido continuava trabalhando de forma democrática para ultrapassar a cláusula de barreira. O senador Flávio Bolsonaro chegou a se filiar ao Patriota, mas também deve sair. As negociações com o PTB de Roberto Jefferson — hoje preso em investigações sobre suposta organização criminosa digital — também geraram turbulências, com acusações de interferência e ameaças de expulsão de membros da família Jefferson.

O retorno ao PP representa uma mudança pragmática. Segundo dirigentes da sigla, basta Bolsonaro bater o martelo para se filiar. Aproximadamente 90% dos diretórios estaduais do partido concordam em recebê-lo, com resistência maior apenas no Nordeste — Paraíba, Pernambuco e Bahia. Mesmo essa oposição, conforme relatou em conversas reservadas Ciro Nogueira, presidente do PP e ministro da Casa Civil, não é mais um obstáculo real. Arthur Lira, presidente da Câmara, que inicialmente temia que a entrada de Bolsonaro pudesse prejudicar sua reeleição em 2022, já aceitou a migração.

O PP é uma força considerável no Congresso. Comanda a Câmara dos Deputados e possui a quarta maior bancada da Casa, com 42 deputados. No Senado, também tem a quarta maior representação, com 7 parlamentares. Em troca da filiação, Bolsonaro teria o direito de escolher os candidatos ao Senado em estados considerados estratégicos para as eleições de 2022, consolidando sua influência sobre a composição do Congresso.

A trajetória partidária de Bolsonaro é longa e sinuosa. Desde que se elegeu vereador em 1988, passou formalmente por oito agremiações diferentes, embora esse número seja inflado pelas constantes fusões e mudanças de nomenclatura que marcam o sistema partidário brasileiro. Sua origem está na Arena, partido de sustentação do regime militar. Começou no PDC em 1988, transitou pelo PPR, PPB, PTB, PFL, PSC e PSL, antes de tentar criar o Aliança pelo Brasil. Descontadas as fusões, esteve filiado a cinco partidos distintos ao longo de sua carreira: PP e suas variações, PFL, PTB, PSC e PSL. O retorno ao PP fecha um círculo, levando-o de volta à sigla que o acolheu quando iniciava sua vida como deputado federal, há mais de duas décadas.

Enquanto estiver no prazo, vamos continuar trabalhando. Só vou falar que não deu depois que não der, mas, por enquanto, estou achando que dá
— Luís Felipe Belmonte, vice-presidente do Aliança pelo Brasil
Na verdade, o movimento feito pelo ex-presidente do partido foi através de ações irregulares, razão pela qual não concordamos e tomamos as medidas judiciais cabíveis
— Ovasco Resende, presidente do Patriota
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