O programa precisa melhorar a focalização para chegar prioritariamente aos mais pobres e evitar transferências que alterem a ordenação de renda das famílias. O Bolsa Família deve ser mais amigável com o trabalho, descontando parcialmente a renda do trabalho no cálculo de elegibilidade, diferentemente da aposentadoria.
Bolsa Família pode ser aperfeiçoado para melhor focalização e compatibilidade com trabalho
Trabalhar sem fome é menos penoso que trabalhar com fome
O senhor diz que o Bolsa Família mudou a ordenação das pessoas. Como assim?
Imagine duas famílias. Uma tem renda per capita de R$ 216 e recebe o benefício. Outra tem R$ 220 e não recebe. Depois do programa, a primeira fica mais rica que a segunda. Invertemos quem é mais pobre.
E por que isso é tão grave?
Porque um programa de transferência não deveria mudar a ordem natural das coisas. O Imposto de Renda não faz isso — quem é mais rico antes continua mais rico depois. O Bolsa Família deveria funcionar igual.
Mas as pessoas não dizem que o Bolsa Família tira o incentivo de trabalhar?
Dizem, mas os dados mostram o oposto. Quando você tem mais renda, você se alimenta melhor, se veste melhor, consegue ir a uma entrevista. Sua produtividade sobe. Para um pequeno empreendedor, é como trocar uma bicicleta por uma moto.
Há um efeito psicológico também?
Sim. Quando você é muito pobre, tem vergonha de socializar. Socializa pouco, tem poucas opções de trabalho. À medida que fica menos pobre, participa mais da sociedade, tem mais capital social, encontra mais emprego.
Então o programa deveria incentivar mais o trabalho?
Exatamente. Se alguém consegue um emprego de R$ 1.500, esse valor não deveria contar inteiro no cálculo de renda. Deveria contar apenas R$ 500, ou nem contar. Assim sinalizamos que trabalhar não o tira do programa.
E quanto às apostas online? O bloqueio faz sentido?
Não. Regular apenas o Bolsa Família é inadequado. As bets são um problema nacional que exige regulação ampla para todos. Entrar no mérito de como cada pessoa gasta seu dinheiro é maluquice.
O Pulso
- 19,3 milhões de famílias beneficiárias em julho de 2026, queda de 9% desde março de 2023
- Teto de renda per capita é R$ 218; programa inverte ordenação quando beneficiário ultrapassa R$ 225
- Ricardo Paes de Barros integrou equipe que concebeu o Bolsa Família em 2003, no primeiro governo Lula
O programa precisa melhorar a focalização para chegar prioritariamente aos mais pobres e evitar transferências que alterem a ordenação de renda das famílias. O Bolsa Família deve ser mais amigável com o trabalho, descontando parcialmente a renda do trabalho no cálculo de elegibilidade, diferentemente da aposentadoria.
Ricardo Paes de Barros, um dos idealizadores do Bolsa Família, afirma que há espaço para melhorar o programa, especialmente na focalização e na compatibilidade com o trabalho, rebatendo críticas sobre dependência.
Ricardo Paes de Barros, aos 71 anos, senta-se para conversa com a Folha em julho, durante uma conferência de economia no Rio de Janeiro. Ele é um dos arquitetos do Bolsa Família, o programa de transferência de renda que nasceu em 2003 no primeiro mandato de Lula. Hoje, como pesquisador do Insper, ele enxerga um programa que pode ser significativamente melhorado — e tem ideias precisas sobre como.
O cenário atual: 19,3 milhões de famílias recebem o benefício em julho de 2026, número que caiu quase 9% desde março de 2023, quando o programa foi retomado após o período do Auxílio Brasil. O Ministério do Desenvolvimento Social atribui essa redução a aumentos de renda de outras fontes, modernização do cadastro e atualização das regras de transição. Mas Paes de Barros vê dois problemas estruturais que exigem atenção urgente do próximo governo.
O primeiro é a focalização. O programa deveria priorizar quem mais precisa, mas o desenho atual — ou falhas no Cadastro Único — não garante isso. Ele oferece um exemplo concreto: não faz sentido transferir R$ 10 para uma pessoa enquanto outra, R$ 15 mais pobre, fica de fora. A lógica é simples: o dinheiro deve chegar aos que têm menor renda. Mas há um problema ainda mais grave. Se uma família tem renda per capita de R$ 216, recebe o benefício e sua renda final sobe para além de R$ 225 — ultrapassando a de famílias que ganham R$ 220 e não recebem nada. Isso inverte a ordem natural das coisas. Um programa de transferência não deveria mudar quem é mais rico e quem é mais pobre; deveria apenas redistribuir dentro dessa ordem. O Imposto de Renda funciona assim. O Bolsa Família, hoje, não.
O segundo problema é tornar o programa mais amigável com o trabalho. Paes de Barros reconhece que existem mecanismos bons — como a regra de proteção que permite permanecer no programa por um tempo mesmo após ultrapassar o teto de renda. Mas há uma assimetria problemática. Se alguém da família se aposenta e recebe R$ 1.500, esses R$ 1.500 contam integralmente no cálculo de renda per capita. Se alguém consegue um emprego de R$ 1.500, deveria contar menos — talvez apenas R$ 500. A ideia é dar um tratamento diferenciado ao trabalho, sinalizando que aumentar a renda pelo próprio esforço não o tirará do programa. No limite, poderiam não contar os primeiros R$ 3 mil de renda do trabalho.
Quanto às críticas de que o Bolsa Família gera dependência e afasta as pessoas do mercado de trabalho, Paes de Barros rebate com dados e lógica. Sim, com mais renda, as pessoas trabalham menos horas — mas isso é exatamente o que os países ricos celebram. O economista Abhijit Banerjee, prêmio Nobel, mostrou algo óbvio: quem recebe uma transferência se alimenta melhor, se veste melhor, consegue pegar um ônibus para uma entrevista. A produtividade sobe. Para um pequeno empreendedor, é como trocar uma bicicleta por uma moto — ele quer trabalhar mais, não menos. Há também um efeito psicológico profundo: a pobreza extrema causa vergonha de socializar, reduzindo oportunidades de trabalho. À medida que a pobreza diminui, a pessoa socializa mais, acumula capital social, encontra mais emprego. Trabalhar sem fome é menos penoso que trabalhar com fome. Trabalhar com roupa decente é menos penoso que trabalhar com roupa rasgada.
Para o próximo governo, Paes de Barros aponta duas prioridades claras: melhorar a focalização para que mais dinheiro chegue aos mais pobres, e tornar o programa mais compatível com o trabalho, gerando inclusão produtiva. Mas avisa que isso não é suficiente. Quando o pobre quiser trabalhar, precisará de apoio personalizado — descobrir se precisa de creche para o filho, centro-dia para o avó, qualificação profissional ou assistência técnica para um pequeno negócio. É um atendimento individualizado, não uma política de cima para baixo.
Sobre o bloqueio recente de 2,8 milhões de beneficiários do Bolsa Família e BPC para impedir acesso a apostas online, Paes de Barros é claro: regular apenas o Bolsa Família é inadequado. As bets são um problema nacional que exige regulação ampla, não uma estratégia focada apenas nos pobres. Entrar no mérito de como cada pessoa gasta seu dinheiro é, em suas palavras, maluquice.
Quanto à desigualdade, o Brasil viveu uma redução fantástica entre 2000 e 2015, mas o Bolsa Família não foi a coisa dominante — o grande fator foi o aumento de salários para trabalhadores com baixa qualificação enquanto salários altos cresceram pouco, reduzindo o prêmio da universidade. Desde 2015, o cenário é volátil. No período Lula recente, a desigualdade vem caindo, mas projeções para 2026 indicam crescimento econômico menor, juros altos e endividamento das famílias — variáveis difíceis de prever em seus efeitos sobre a desigualdade.
Citações Notáveis
Há todo o espaço do mundo para aperfeiçoar o desenho do Bolsa Família— Ricardo Paes de Barros, pesquisador do Insper
Um programa de transferência de renda é para incentivar e ajudar as pessoas a trabalhar, não para criar dependência— Ricardo Paes de Barros