Em setembro de 2026, Samuel Vecht, gestor da BlackRock especializado em mercados emergentes, chegou a São Paulo carregando uma tese que vai na contramão do sentimento dominante: a Bolsa brasileira representa uma compra clara, não apesar dos riscos, mas precisamente porque o mercado já os precificou em excesso. Quando o pessimismo se torna consenso, ele historicamente abre espaço para retornos desproporcionais — e Vecht, com 25 anos de experiência e passagens por 80 países, reconhece nesse momento um padrão que já viu antes.
BlackRock vê Brasil como 'clear buy' com muito pessimismo precificado no mercado
Há muito pessimismo precificado, e isso pode ser observado nos fluxos de capital
Por que você acha que o Brasil merece ser chamado de 'clear buy' quando a economia enfrenta tantos desafios estruturais?
Não é porque os desafios desapareceram. É porque o mercado já precifica tudo de ruim. Se as taxas de juros caírem — e há razão para acreditar que isso pode acontecer em 2027 — o impacto seria desproporcional. A economia não precisa melhorar tanto.
Mas quando você diz que há razão para acreditar em queda de juros, você está falando de uma expectativa de controle de gastos públicos. Quão sólida é essa expectativa? É uma promessa de campanha ou há mecanismos institucionais que garantem isso?
É uma observação histórica. Governos costumam gastar antes de eleições e depois ajustam. Mas você tem razão — não é garantido.
E quanto ao argumento de que a Bolsa brasileira está barata há tanto tempo que essa constatação perdeu sentido? Como você responde a isso?
Vecht usa o exemplo da Coreia e da Samsung. As percepções mudam, às vezes rapidamente. O Brasil não é único em estar barato por muito tempo — é um padrão que se repete.
Mas Samsung é uma empresa específica com um catalisador claro. No Brasil, qual é o catalisador? Queda de juros é uma esperança, não um catalisador confirmado.
Justo. Por isso ele diz que pode ser surpreendido. Mas o ponto é que o pessimismo está precificado nos fluxos de capital.
Você mencionou que 11% do fundo está no Brasil, sete pontos acima do referencial. Isso é uma aposta significativa. Como ele justifica não estar mais exposto?
Ele não quer ser confiante demais. Há risco real. Mas também reconhece que há limites para quanto pessimismo faz sentido precificar.
E a questão do tamanho relativo? O Brasil é a décima maior economia do mundo mas representa apenas 4% do índice de mercados emergentes. Isso é um argumento de valuation ou apenas um argumento de que o Brasil está subrepresentado?
É ambos. Subrepresentação sugere que há espaço para rebalanceamento. Mas rebalanceamento não é garantido — depende de mudanças nas percepções dos investidores.
Der Puls
- Mercados emergentes negociam a dois desvios-padrão abaixo de suas médias históricas, um desconto que Vecht considera uma anomalia insustentável, não uma nova normalidade.
- Bancos brasileiros caíram de múltiplos históricos de 10 a 12 vezes o lucro para entre 5 e 7; varejistas despencaram de 18–25 para cerca de 6 — um abandono que cria oportunidade para quem tem estômago para o risco.
- A tese depende de uma queda de juros em 2027: mesmo uma redução modesta nas taxas teria impacto desproporcional sobre ações de bancos, fintechs, varejistas e utilities, setores hoje ignorados pelo mercado.
- O maior risco não é local — é geracional: uma geração inteira de investidores foi condicionada a apostar apenas em tecnologia americana, e mudar esse comportamento pode ser lento ou abrupto.
- Vecht mantém 11% do seu fundo UCITS na Bolsa brasileira — sete pontos acima do referencial — sinalizando que a convicção já se traduz em posição real, não apenas em retórica.
Em setembro de 2026, Samuel Vecht, gestor da BlackRock especializado em mercados emergentes, chegou a São Paulo carregando uma tese que vai na contramão do sentimento dominante: a Bolsa brasileira representa uma compra clara, não apesar dos riscos, mas precisamente porque o mercado já os precificou em excesso. Quando o pessimismo se torna consenso, ele historicamente abre espaço para retornos desproporcionais — e Vecht, com 25 anos de experiência e passagens por 80 países, reconhece nesse momento um padrão que já viu antes.
Samuel Vecht chegou a São Paulo em setembro de 2026 com uma tese simples e contrária: a Bolsa brasileira é uma compra clara. Não porque a economia vai bem, mas porque o mercado precifica um pessimismo tão profundo que qualquer melhora modesta — especialmente uma queda de juros — geraria retornos desproporcionais.
Os números sustentam o argumento. Mercados emergentes como grupo negociam a dois desvios-padrão abaixo de suas médias históricas. Em dólar, os preços das ações na América Latina e na China mal se moveram desde 2007, enquanto os mercados desenvolvidos — sobretudo os EUA — acumularam um prêmio que Vecht considera exagerado e historicamente insustentável.
No Brasil, o padrão é ainda mais marcante. Bancos que historicamente negociavam entre 10 e 12 vezes o lucro agora estão entre 5 e 7. Varejistas caíram de múltiplos de 18 a 25 para cerca de 6. Essas empresas sobreviveram a ciclos difíceis e têm gestão sólida. Se as taxas de juros recuarem em 2027 — como Vecht espera, seguindo o padrão de ajuste fiscal no primeiro ano de mandato —, o impacto nas ações seria desproporcional ao movimento das taxas em si.
Quando questionado sobre o argumento de que o Brasil está barato há tanto tempo que isso perdeu relevância, Vecht recorre à história. Em agosto de 2025, analistas diziam que a Samsung não tinha futuro. Um ano depois, a ação havia subido cinco vezes. Percepções mudam — às vezes mais rápido do que se imagina.
Em termos de alocação, Vecht mantém 11% do seu fundo UCITS na Bolsa brasileira, sete pontos acima do referencial, e cerca de 35% na China. Os setores preferidos são os voltados para a economia doméstica: bancos, fintechs, varejistas, consumo e utilities — exatamente os que o mercado abandonou.
O maior risco, porém, não é específico do Brasil. É geracional. Uma geração inteira de investidores conheceu apenas uma narrativa: a da tecnologia americana superando tudo. Vecht questiona por quanto tempo isso se sustenta — e aposta que, quando a percepção mudar, os mercados que hoje parecem esquecidos serão os primeiros a se mover.
Samuel Vecht, gestor de portfólio da BlackRock especializado em mercados emergentes, chegou a São Paulo em setembro de 2026 com uma tese simples mas contrária ao sentimento dominante: a Bolsa brasileira é uma compra clara. Não porque a economia está em excelente forma, mas porque o mercado precifica um pessimismo tão profundo que qualquer melhora modesta — particularmente uma queda nas taxas de juros — geraria retornos desproporcionalais.
A convicção de Vecht repousa em números. Os mercados emergentes como grupo negociam a dois desvios-padrão abaixo de suas médias históricas. Em dólar, os preços das ações em lugares como América Latina e China mal se moveram desde 2007, enquanto o prêmio que os mercados desenvolvidos — especialmente os EUA — conquistaram nos últimos cinco anos cresceu de forma exagerada. Vecht vê isso não como um sinal de força americana permanente, mas como uma anomalia que a história sugere ser insustentável. Os mercados emergentes estão em bear market há quase duas décadas, e setores inteiros funcionam muito bem nesses países: tecnologia em Taiwan, Coreia e China; commodities na América Latina e partes da África.
No Brasil especificamente, Vecht identifica um padrão cíclico que os investidores parecem ter esquecido. Estrangeiros e brasileiros perderam confiança no mercado local — compreensível, dado o nível das taxas de juros. Mas ele aponta que governos democraticamente eleitos tendem a gastar antes de eleições e depois ajustam no primeiro ano de mandato. Se as taxas caírem em 2027, como ele espera, o impacto nas ações seria desproporcional. A economia não precisa melhorar dramaticamente; apenas uma mudança modesta nas condições financeiras seria suficiente.
Os números de valuation reforçam o argumento. Os bancos brasileiros, que historicamente negociavam entre dez e doze vezes o lucro, agora estão entre cinco e sete. Varejistas caíram de múltiplos entre 18 e 25 para cerca de seis. Essas empresas já passaram por ciclos complicados no passado e têm gestão sólida. O Brasil também possui vantagens estruturais que Vecht acredita serem subestimadas: um diferencial claro em commodities, capacidade de negociar comercialmente com diferentes países, e uma produção agrícola extraordinária — embora, como ele observa com certa ironia, pessoas em Faria Lima frequentemente ignorem o que acontece nessa área.
Quando confrontado com o argumento de que a Bolsa brasileira está barata há tanto tempo que essa constatação perdeu relevância, Vecht recorre à sua experiência de 25 anos no mercado e viagens a 80 países. Cada país acredita ser especial, mas há 194 membros especiais nas Nações Unidas. Ele cita o exemplo da Coreia: em agosto de 2025, analistas diziam que a Samsung não tinha futuro e nenhum estudante queria trabalhar lá. Um ano depois, o preço da ação subiu cinco vezes. As percepções mudam, às vezes mais rápido do que se espera, e pequenas mudanças podem ter grandes impactos.
Em termos de alocação, Vecht coloca China e Brasil como os dois principais overweight dos fundos que administra. No fundo UCITS atrelado ao índice de mercados emergentes, ele mantém 11% do patrimônio na Bolsa brasileira — cerca de sete pontos acima do referencial — e aproximadamente 35% na China, cerca de 15 pontos acima. Os setores mais interessantes são aqueles voltados para a economia doméstica: bancos, fintechs, varejistas, empresas de consumo e utilities. Esses setores estão abandonados pelos investidores, que parecem presos à narrativa de que nada vai mudar.
O maior risco que Vecht identifica não é específico do Brasil, mas global. Uma geração inteira de investidores viu apenas uma história: a dos Estados Unidos e suas empresas de tecnologia superando todos os mercados. Desde 2008, essa tem sido uma via de mão única, independentemente de inflação alta ou baixa, dólar forte ou fraco, republicanos ou democratas no poder. Mas Vecht questiona quanto tempo mais isso durará. A teoria econômica sugere que muito investimento concentrado em uma área leva a retornos mais baixos no futuro. O Brasil é um clear buy, ele conclui, mas com ressalvas: há risco, pode ser surpreendido, e o Brasil frequentemente surpreende tanto na alta quanto na baixa. O que importa agora é que há muito pessimismo precificado, e isso pode ser observado nos fluxos de capital.
Bemerkenswerte Zitate
Uma pequena mudança nas taxas teria um impacto desproporcional na Bolsa— Samuel Vecht, portfolio manager da BlackRock
Temos de questionar quanto tempo mais a dominância dos EUA e suas empresas de tecnologia vai durar— Samuel Vecht