Lacerda era conhecido pela virulência retórica e atuação inflamada na imprensa, usando jornalismo como arma política contra sucessivos governos brasileiros. Sua trajetória foi não-linear: começou simpatizante comunista nos anos 1930, rompeu com o partido em 1939 e se tornou feroz anticomunista e crítico de Getúlio Vargas.
Biografia revela trajetória virulenta de Carlos Lacerda entre comunismo e golpismo
Quando alguém pergunta o que Lacerda achava de algo, a resposta é: quando?
Por que Lacerda é tão difícil de biografar em comparação com Marighella?
Porque Marighella tinha uma trajetória mais linear. Lacerda mudou de convicção várias vezes. Começou comunista, virou anticomunista feroz, apoiou golpes. Não é fácil explicar isso sem parecer que você está julgando.
Então ele nunca foi realmente comunista?
Nem filiado era. Ele mesmo dizia ser "um simpatizante com ar de militante". Mas estava envolvido na Intentona de 1935, participava daqueles círculos. O rompimento em 1939 foi real, mas técnico.
E quanto ao atentado da rua Tonelero? Lacerda foi vítima ou culpado?
Ele foi o alvo, mas a bala matou o major Rubens Vaz no seu lugar. Depois, quando Vargas se suicidou, a opinião pública virou contra Lacerda. Nelson Rodrigues disse que ele virou "o assassino de um suicida". É uma inversão brutal.
Magalhães descobriu coisas novas sobre esse episódio?
Sim. Descobriu quem realmente escreveu a carta-testamento de Vargas. E encontrou um artigo que Lacerda escreveu dias antes do suicídio, que nunca foi publicado porque seu irmão achou muito inflamatório.
Como um biógrafo consegue ser justo com alguém tão contraditório?
Magalhães diz que não julga, não acusa, não defende. Só conta o que aconteceu. E quando perguntam o que Lacerda achava de algo, ele responde: "Quando?" Porque a resposta muda dependendo do ano.
E hoje, como Lacerda é usado politicamente?
Candidatos de esquerda e direita o reivindicam. Mas Magalhães avisa: a questão é sempre qual Lacerda você está invocando. Ele coloca contradições para todos os lados.
O Pulso
- Carlos Lacerda morreu em 1977, aos 63 anos, após um infarto
- Rompeu com o Partido Comunista em 1939, publicando artigo crítico na revista O Observador Econômico e Financeiro
- Atentado da rua Tonelero ocorreu em 1954, matando o major Rubens Vaz no lugar de Lacerda
- Biografia de Mário Magalhães cobre período de 1914 a 1955, com segundo volume previsto para 2028
- Magalhães trabalhou 18 anos na Folha de S.Paulo antes de deixar o jornal em 2010 para dedicar-se à biografia
Lacerda era conhecido pela virulência retórica e atuação inflamada na imprensa, usando jornalismo como arma política contra sucessivos governos brasileiros. Sua trajetória foi não-linear: começou simpatizante comunista nos anos 1930, rompeu com o partido em 1939 e se tornou feroz anticomunista e crítico de Getúlio Vargas.
Novo livro de Mário Magalhães examina a vida do jornalista e político Carlos Lacerda, figura central da história brasileira marcada por posições políticas radicais e contraditórias, do comunismo ao golpismo.
Carlos Lacerda parecia viver em um estado de agitação permanente. Quem o conheceu descreveu um homem que "não dormia nunca e nem deixava que os outros dormissem", nas palavras do jornalista Newton Carlos. O governador Juracy Magalhães tinha uma imagem ainda mais vívida: Lacerda se comportava "como macaco em loja de louças". Essa energia frenética, essa incapacidade de repouso, marcou toda a trajetória de um dos personagens mais contraditórios da história política brasileira.
Mário Magalhães, jornalista que passou 18 anos na Folha de S.Paulo como ombudsman e repórter especial, dedicou mais de uma década para desvendar a vida de Lacerda. Depois de deixar o jornal em 2010, ele mergulhou em arquivos, documentos inéditos de órgãos americanos e depoimentos para compor uma biografia que começou a ser publicada agora. O primeiro volume, com 442 páginas, cobre o período de 1914 a 1955 e se chama "Lacerda - Coração de Tempestade". Um segundo volume ainda está em preparação e deve sair em 2028. Magalhães já havia escrito uma biografia anterior, sobre Carlos Marighella, que se tornou referência e depois filme dirigido por Wagner Moura.
O que torna Lacerda tão desafiador de biografar é justamente a falta de linearidade em suas convicções. Ele não foi sempre um homem de direita. Na juventude, simpatizava com o comunismo de forma "aguerrida", como Magalhães descreve. Estava envolvido até o pescoço na Intentona Comunista de 1935, enquanto Marighella nem sabia do levante. Mas em 1939, rompeu com o Partido Comunista de forma ruidosa, publicando um artigo crítico a Luiz Carlos Prestes na revista O Observador Econômico e Financeiro. Tecnicamente, Lacerda nunca havia sido filiado ao partido; era, em suas próprias palavras, "um simpatizante com ar de militante". Mesmo assim, o rompimento foi sonoro e marcou uma virada em sua trajetória política.
A arma de Lacerda era a imprensa. Ele usava o panfleto, as colunas de jornal, seu próprio veículo chamado Tribuna da Imprensa, o rádio e depois a televisão para atacar sucessivos governos. Em 1954, quando o major Rubens Vaz pediu que ele moderasse a virulência contra Getúlio Vargas, Lacerda respondeu que "se não fosse violento, a campanha não teria efeito". Vaz morreria meses depois, assassinado a tiros no lugar do jornalista no atentado da rua Tonelero. Esse episódio, orquestrado pelo chefe da guarda presidencial Gregório Fortunato, saiu pela culatra. Quando os detalhes vieram à tona, a pressão sobre Vargas se tornou insustentável. O presidente respondeu com um tiro no próprio peito, deixando uma carta-testamento que, conforme descobriu Magalhães, teve como ghost-writer José Soares Maciel Filho, um conselheiro que anos antes "santificava o Führer" em um jornal nazifascista. Lacerda, que havia sido o alvo, virou aos olhos públicos "o assassino de um suicida", nas palavras do dramaturgo Nelson Rodrigues.
A trajetória de Lacerda não se resumiu a esses episódios. Ele apoiou a Revolução de 1930 aos 16 anos, foi crítico do Estado Novo que começou em 1937, celebrou sua queda em 1945, mas depois se opôs à eleição de Vargas em 1950 com argumentos golpistas. Esses mesmos argumentos se voltariam contra a posse de Juscelino Kubitschek em 1955 e a favor do golpe militar de 1964. Um colunista como Paulo Francis, nunca conhecido pela mansidão, achava que Lacerda "perdia as estribeiras no ataque". O jurista Evandro Lins e Silva, amigo que se afastou dele, dizia que era "extremado mesmo quando se colocava no centro".
Magalhães insiste que não julga seus personagens, nem acusa nem defende. "Quando alguém pergunta o que Carlos Lacerda achava de algum assunto, eu costumo responder: quando?", diz o biógrafo. Ele descobriu, por exemplo, um manuscrito de 20 folhas que Lacerda escreveu dias antes do suicídio de Vargas, um artigo que nunca foi publicado porque seu irmão Maurício o considerou desnecessariamente inflamatório. Esses detalhes, esses bastidores, compõem a narrativa que Magalhães oferece.
Hoje, Lacerda é reivindicado por candidatos de diferentes espectros políticos. Magalhães avisa que a questão é sempre: qual Lacerda? "Ele coloca contradições tanto para quem o rejeita sem reservas quanto para quem o acolhe sem reservas", afirma. O biógrafo não espera que seu livro seja lido de forma desapaixonada em um ambiente político tão polarizado. "Os fanáticos vão odiar o livro que eu escrevi", diz. Mas sua intenção foi devolver Lacerda à história com integridade, libertando-o das "camisas de força históricas" que o aprisionam como se fosse apenas uma coisa ou outra.
Citações Notáveis
Se não fosse violento, a campanha não teria efeito— Carlos Lacerda, respondendo ao major Rubens Vaz em 1954 sobre sua retórica contra Getúlio Vargas
É impossível entender a história do Brasil sem conhecer a história do Carlos Lacerda— Mário Magalhães, biógrafo