Teatro Oficina homenageia Glauber Rocha com espetáculo híbrido que une cinema e performance

Isso não pode simplesmente desaparecer, como nos contratos
Pedro Paulo Rocha sobre seu desejo de expandir o movimento artístico além de uma única apresentação.
Mark

Por que seu pai nunca conseguiu realizar esse Kynorama que imaginava?

Mimi

Glauber morreu em 1981, e a tecnologia, a infraestrutura, tudo era muito diferente. Mas acho que a ideia dele era mais radical do que apenas técnica — era sobre dissolver as fronteiras entre formas de arte que a gente ainda trata como separadas.

Mark

E você acha que agora, com câmeras e transmissão, consegue realizar o que ele não pôde?

Mimi

Não é exatamente realizar. É mais como conversar com a ideia dele através do que a gente consegue fazer hoje. O Teatro Oficina já trabalha com isso há anos. A gente só juntou as peças.

Mark

Você mencionou que quer expandir isso para outras pessoas. Como funciona um movimento assim, sem estar preso ao mercado?

Mimi

É difícil, honestamente. A gente fez "Glauberamas" com muito pouco recurso. Mas a ideia é que outras pessoas aprendam a trabalhar nessas zonas entre linguagens, que criem suas próprias coisas. Não é sobre lucro, é sobre invenção.

Mark

Mas como sustenta um movimento assim? Como as pessoas vivem?

Mimi

Essa é a pergunta que ninguém quer responder, né? A gente está tentando encontrar caminhos. Talvez através de redes, de compartilhamento. Não tenho todas as respostas, mas sei que o jeito tradicional — contratos, métricas, formatos fechados — mata a criatividade.

Mark

Você vê "Glauberamas" como um ato político?

Mimi

Completamente. Num momento de violência fascista, como eu disse, a criatividade é resistência. Meu pai sabia disso. Fazer arte que não se encaixa nos moldes é um ato de ruptura.

  • A morte de Glauber Rocha completa 45 anos, e a ausência do pai pesa como matéria-prima: Pedro Paulo transforma luto em linguagem cênica.
  • Cangaceiros descem a rua Jaceguai cantando, câmeras capturam tudo em tempo real, e a fronteira entre palco e tela se dissolve diante do público.
  • A montagem improvisa sobre roteiros clássicos — 'Deus e o Diabo', 'Terra em Transe' — sem se fixar em nenhum deles, criando tensão entre fidelidade e invenção.
  • Pedro Paulo vê na arte uma resposta urgente ao que chama de revolução fascista: sem ruptura criativa, diz, a esquerda reproduz o sistema que quer combater.
  • O espetáculo será disponibilizado gratuitamente online, e o grupo quer crescer em rede — arte fora da lógica de mercado, ensinando outros a habitar as zonas entre cinema e teatro.

Quarenta e cinco anos após a morte de Glauber Rocha, seu filho Pedro Paulo convoca atores, câmeras e o espírito do Teatro Oficina para ressuscitar não apenas os filmes do pai, mas a visão que ele nunca pôde realizar: um espaço onde cinema e teatro se fundem em algo ainda sem nome. 'Glauberamas' não é apenas homenagem — é a tentativa de provar que certas ideias sobrevivem às gerações que as sonharam. Nessa fusão de sertão, exu e câmera em tempo real, o que está em jogo é a pergunta sobre se a arte pode ainda romper com o mundo que a cerca.

No sábado à noite, uma procissão de cangaceiros desce a rua Jaceguai cantando que o sertão vai virar mar. É assim que 'Glauberamas' começa — uma montagem criada por Pedro Paulo Rocha para marcar os 45 anos da morte de seu pai, o cineasta Glauber Rocha. O que se segue não é exatamente um filme nem exatamente uma peça de teatro, mas algo que habita o intervalo entre os dois.

Cenas de clássicos como 'Deus e o Diabo na Terra do Sol', 'Terra em Transe' e 'Barravento' são reencenadas e reinventadas. Um exu improvisa um rap sobre a memória de Glauber. Ava Rocha, irmã de Pedro Paulo, também está em cena. A partir de um roteiro inicial, os atores constroem episódios novos com o material do pai — e tudo é filmado em tempo real, para depois circular gratuitamente como filme online.

Essa fusão realiza uma ideia que Glauber nunca conseguiu concretizar: o Kynorama, centros híbridos onde cinema e teatro coexistiriam. O cineasta havia escrito que os espaços tradicionais não suportariam as novas formas cinematográficas. 'O Glauber era muito inquieto, um poeta que está sempre tentando ultrapassar os limites da linguagem', diz Pedro Paulo. Essa mesma inquietação guia o filho.

Para Pedro Paulo, a arte precisa romper com o que chama de revolução fascista do presente. Sem invenção e criatividade, diz, ficamos presos à reprodução do sistema. Por isso, ele não quer que 'Glauberamas' seja apenas uma noite: quer que o movimento cresça, forme uma rede de artistas e compartilhe conhecimento fora da lógica de mercado. E já planeja voltar com a montagem durante as eleições — sugerindo que essa homenagem ao pai é também, desde o início, um ato político.

No sábado à noite, uma procissão de cangaceiros desce a rua Jaceguai cantando uma frase que ecoa há quase meio século: o sertão vai virar mar. É assim que começa "Glauberamas", uma montagem que Pedro Paulo Rocha criou para homenagear seu pai, o cineasta Glauber Rocha, cuja morte completa 45 anos neste ano. O que segue é um labirinto — não de um filme só, mas de vários, tecido junto com atores, câmeras, e a presença viva do Teatro Oficina.

Pedro Paulo descreve a peça como uma mistura de filme e teatro, feita em parceria com o grupo que há anos trabalha nas margens entre essas duas linguagens. Cenas, personagens e atmosferas de clássicos como "Deus e o Diabo na Terra do Sol", "Terra em Transe" e "Barravento" são recriadas e reencenadas. Um exu — entidade das religiões de matriz africana — aparece para improvisar um rap sobre a memória de Glauber, papel do artista paraibano Brabo da Terra do Sol. Ava Rocha, irmã de Pedro Paulo, também está em cena. A partir de um roteiro inicial, os atores criam episódios novos a partir do material do pai, tecendo uma narrativa que não é exatamente cinema nem exatamente teatro, mas algo entre os dois.

Toda a apresentação é filmada em tempo real. Depois, o resultado circulará como filme, disponibilizado gratuitamente online nos próximos meses. Essa fusão não é acidental. Pedro Paulo há tempos trabalha com as tensões entre cinema e performance ao vivo. O Teatro Oficina, que se chama a si mesmo de "terreiro eletrônico", há anos usa câmeras e transmissões em suas peças. Agora, esses dois projetos se abraçam e realizam uma ideia antiga que Glauber não conseguiu levar adiante.

O cineasta havia imaginado algo que chamava de Kynorama — centros cinematográficos onde o filme seria projetado em fita, criando uma espécie de teatro-filme. Glauber escreveu sobre isso em palavras que a produção compartilha: no ano 2000, os cinemas tradicionais não suportariam mais as novas formas cinematográficas, e seria preciso construir espaços híbridos. "O Glauber era muito inquieto, um poeta que está sempre tentando ultrapassar os limites da linguagem", diz Pedro Paulo sobre o pai. Essa inquietação é também sua.

O filho busca na arte a possibilidade de inventar novas formas de sentir e entender o mundo, não apenas transmitir informações. Para ele, diante do que chama de revolução fascista e violenta em que vivemos, os movimentos criativos precisam buscar ruptura e invenção. "Há uma necessidade de produzir novos movimentos no campo da esquerda e da anarquia também, da criatividade", afirma. Sem isso, diz, ficamos presos ao conservadorismo e à reprodução do sistema capitalista.

Em busca de criar arte que escape da lógica de mercado — daquelas métricas de sucesso e formatos bem estabelecidos — Pedro Paulo montou um grupo, ou um movimento, como prefere chamar. Dezenas de artistas trabalharam juntos com recursos escassos para tirar "Glauberamas" do papel. Mas ele não quer que isso termine em uma única noite. Quer que o movimento cresça, que forme uma rede de produção artística e compartilhamento de conhecimento, ensinando outras pessoas a trabalharem nessas zonas de interstício entre cinema e teatro. "Isso não pode simplesmente desaparecer, como nos contratos", diz.

A apresentação acontece neste sábado, às 20h, no Teatro Oficina. Pedro Paulo já compartilha que gostaria de voltar a apresentar a montagem durante as eleições — um gesto que sugere que essa homenagem ao pai é também um ato político, uma tentativa de manter viva uma certa forma de pensar a arte e o mundo.

O Glauber era muito inquieto, um poeta que está sempre tentando ultrapassar os limites da linguagem
— Pedro Paulo Rocha, sobre seu pai
Diante da revolução fascista e violenta em que a gente vive, é preciso que os movimentos criativos busquem uma perspectiva de ruptura e invenção
— Pedro Paulo Rocha
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