Manifestação reuniu dezenas de milhares em Berlim com palavras de ordem pedindo fim da guerra e suspensão de exportações de armas alemãs para Israel. Pesquisa mostra que 62% dos eleitores alemães consideram ações israelenses genocídio, aumentando pressão política sobre governo de Merz para reavaliação de postura.
Berlim reúne mais de 50 mil em protesto contra guerra em Gaza
A Alemanha nega a violência sistemática que está ocorrendo
Por que essa manifestação em Berlim é tão significativa? Não há protestos contra guerras em muitas cidades?
Há, mas essa é diferente porque coloca a Alemanha numa encruzilhada histórica. O país construiu sua identidade pós-guerra em torno da proteção de Israel. Agora seus próprios cidadãos estão dizendo que isso não é compatível com os direitos humanos.
Então é uma questão de hipocrisia?
Não exatamente hipocrisia. É mais uma contradição genuína. A Alemanha diz que apoia Israel por responsabilidade histórica, mas também diz que defende direitos humanos. Quando essas duas coisas entram em conflito, o que vem em primeiro lugar?
E o governo está ouvindo?
Está sentindo a pressão. Merz já suspendeu algumas exportações de armas. Mas ele não usa a palavra "genocídio", e recusa sanções. É um meio-termo que parece estar deixando todo mundo insatisfeito.
Qual é o risco para Merz se ele mudar de posição?
Ele corre o risco de ser acusado de virar as costas a Israel no momento em que o país mais precisa de apoio. Mas se não mudar, corre o risco de perder a legitimidade com seus próprios eleitores, que em sua maioria acreditam que há genocídio acontecendo.
Os números da pesquisa são realmente tão altos?
Sim. 62% dos alemães, 71% dos social-democratas. Isso não é margem de erro. É uma mudança real na opinião pública, e mudanças assim forçam governos a se mexer, mais cedo ou mais tarde.
The Pulse
- Mais de 50 mil pessoas em Berlim (organizadores falam em 100 mil)
- 62% dos eleitores alemães consideram ações israelenses genocídio
- Alemanha suspendeu algumas exportações de armas mas recusa sanções contra Israel
- Manifestação descrita como a maior do tipo na capital alemã
Manifestação reuniu dezenas de milhares em Berlim com palavras de ordem pedindo fim da guerra e suspensão de exportações de armas alemãs para Israel. Pesquisa mostra que 62% dos eleitores alemães consideram ações israelenses genocídio, aumentando pressão política sobre governo de Merz para reavaliação de postura.
Mais de 50 mil pessoas protestaram em Berlim contra a ofensiva israelense em Gaza, exigindo embargo de armas e sanções da UE, em manifestação descrita como a maior do tipo na capital alemã.
Mais de 50 mil pessoas tomaram as ruas de Berlim no sábado para protestar contra a guerra em Gaza, numa manifestação que os organizadores descrevem como a maior já realizada na capital alemã sobre o tema. A marcha atravessou o centro da cidade, passando pelo parque Tiergarten, com manifestantes carregando cartazes e entoando palavras de ordem pedindo uma Palestina livre e o fim do conflito entre Israel e o Hamas. O que unia a multidão era uma demanda clara: que a Alemanha suspendesse suas exportações de armas para Tel Aviv e que a União Europeia impusesse sanções contra o governo israelense.
A polícia registrou cerca de 50 mil participantes, com aproximadamente 1.800 agentes monitorando o ato. Os organizadores, porém, falam em mais de 100 mil pessoas reunidas sob a bandeira do movimento "Todos os Olhos em Gaza", que contou com o apoio de cerca de 50 entidades, incluindo o Partido de Esquerda. Em um comunicado, os coordenadores da manifestação foram diretos: as ações do governo israelense foram descritas como genocídio por especialistas e organizações internacionais, e a Corte Internacional de Justiça as está investigando. Apesar disso, afirmaram, o governo alemão nega a violência sistemática que está ocorrendo.
A posição de Berlim em relação a Israel é historicamente complexa. A Alemanha é vista como uma das maiores apoiadoras do país, uma postura que se estende por décadas e que tem raízes profundas na responsabilidade histórica do país pelo Holocausto. Essa culpa histórica moldou a política externa alemã do pós-guerra em torno da garantia da segurança de Israel e do combate ao antissemitismo. No mês anterior, o chanceler Friedrich Merz havia declarado que a Alemanha não autorizaria exportações de equipamento militar para Israel que pudesse ser usado em Gaza "até novo aviso". Ainda assim, Berlim se recusa a apoiar sanções contra o governo israelense.
Mas a pressão interna está crescendo. Uma pesquisa divulgada na terça-feira anterior mostrou que 62% dos eleitores alemães acreditam que as ações israelenses em Gaza constituem genocídio. O sentimento transcende as divisões políticas: entre os eleitores do bloco conservador de Merz, 60% consideram a campanha militar de Israel um genocídio contra os palestinos. Entre os eleitores do Partido Social-Democrata, parceiro de coalizão do governo, o número sobe para 71%. Essa crescente convicção entre o eleitorado está aumentando a pressão sobre o governo de centro-direita para reavaliar sua posição.
Nem todos em Berlim concordavam com a manifestação principal. Um grupo de cerca de 100 pessoas protestou a favor de Israel e "contra todas as formas de antissemitismo", segundo a emissora pública alemã RBB. Houve confrontos isolados quando os dois grupos se encontraram, embora não ficasse claro se ocorreram entre manifestantes rivais ou entre manifestantes e a polícia. A tensão reflete o dilema que o país enfrenta: como equilibrar sua responsabilidade histórica com Israel e seu compromisso com os direitos humanos.
O protesto não se limitou a Berlim. Milhares de pessoas também saíram às ruas em Düsseldorf, no oeste do país, sob o lema "não esqueceremos Gaza — liberdade para a Palestina e todos os povos oprimidos". Em Genebra, na Suíça, cerca de 6 mil pessoas marcharam pelo fim da guerra. Enquanto isso, Merz e o ministro das Relações Exteriores, Johann Wadephul, intensificaram suas críticas à ofensiva militar de Israel e ao bloqueio da ajuda humanitária a Gaza, mas evitaram usar o termo "genocídio" — uma omissão que não passou despercebida pelos manifestantes e que pode se tornar insustentável à medida que a opinião pública alemã continua a se deslocar.
Notable Quotes
As ações do governo israelense têm sido descritas como genocídio por especialistas e organizações internacionais, e a Corte Internacional de Justiça as está investigando. Embora todos possam ver como o Exército israelense está cometendo atrocidades em massa em Gaza, o governo alemão nega a violência sistemática.— Organizadores do movimento 'Todos os Olhos em Gaza'