Houthis assumiram controle do porto de Mokha em 10 de setembro, controlando estratégico Estreito de Bab el-Mandab e intensificando combates em Taiz, terceira maior cidade do Iêmen. Mais de 130 mil pessoas foram deslocadas apenas em setembro, somando-se aos 5,2 milhões já deslocados pela guerra civil, com potencial de 100 mil mais nos próximos três meses.
BBC documenta combates intensos no Iêmen enquanto houthis avançam sobre Taiz
Estou apavorado, mas não tenho escolha
Por que Taiz é tão importante neste conflito? Parece ser apenas uma cidade entre muitas outras.
Taiz é a terceira maior cidade do Iêmen e sua capital cultural. Mas o que a torna estratégica agora é sua localização — fica em uma interseção vital entre áreas controladas pelos houthis no norte e áreas sob controle do governo no sul. Se os houthis conseguirem controlar as vias de acesso a oeste, onde estão os terrenos elevados, as forças governamentais terão muito mais dificuldade em retomar Mokha.
Então a batalha por Taiz é realmente sobre manter aberta a rota para o sul? Isso é confirmado ou é análise?
É o que as forças governamentais e a BBC observaram no terreno. Os combates mais intensos estão ocorrendo justamente nessas vias de acesso a oeste.
E quanto aos números de deslocados? 130 mil em um mês parece extraordinário.
A agência da ONU para refugiados divulgou esse número em 22 de setembro. Isso se soma aos 5,2 milhões já deslocados pela guerra civil. A agência também alertou que outros 100 mil poderiam ser forçados a sair nos três meses seguintes.
Mas esses 100 mil são uma projeção ou um número confirmado?
É uma projeção. A agência disse que poderiam ser forçados a deixar suas casas, não que já foram.
A BBC viu crianças-soldados na linha de frente?
Um soldado do governo disse que havia enfrentado crianças-soldados houthis. Há relatos persistentes de recrutamento de menores pelos houthis, embora o grupo tenha assinado um plano de ação com a ONU em 2022 comprometendo-se a acabar com a prática.
Então os houthis negam isso?
Não há citação direta dos houthis negando. A BBC também conversou com adolescentes que servem nas forças governamentais, o que sugere que ambos os lados podem estar usando menores.
Qual é o papel do Irã nisto tudo?
A Arábia Saudita, países ocidentais e especialistas da ONU afirmam que o Irã fornece armas, financiamento e assessoria militar aos houthis. O Irã nega fornecer armas e diz que oferece apenas apoio político.
Então não há confirmação independente do fornecimento de armas do Irã?
Não há. É uma acusação de múltiplas fontes, mas o Irã a nega. A BBC não apresenta evidência independente verificada.
Le Pouls
- Houthis tomaram o porto de Mokha em 10 de setembro, controlando o Estreito de Bab el-Mandab
- Mais de 130 mil pessoas deslocadas em setembro; 5,2 milhões já deslocadas pela guerra civil
- Taiz é a terceira maior cidade do Iêmen, com quase 1 milhão de habitantes
- Cessar-fogo de quatro anos foi rompido com o avanço houthi
Houthis assumiram controle do porto de Mokha em 10 de setembro, controlando estratégico Estreito de Bab el-Mandab e intensificando combates em Taiz, terceira maior cidade do Iêmen. Mais de 130 mil pessoas foram deslocadas apenas em setembro, somando-se aos 5,2 milhões já deslocados pela guerra civil, com potencial de 100 mil mais nos próximos três meses.
Correspondente da BBC visitou a linha de frente em Taiz, Iêmen, onde forças pró-governo enfrentam avanço dos houthis que tomaram porto estratégico no Mar Vermelho, ameaçando rotas comerciais globais e causando deslocamento em massa.
A correspondente Nawal Al-Maghafi da BBC estava abrigada sob arbustos nas encostas a sudoeste de Taiz quando ouviu o primeiro drone. O soldado que a acompanhava sabia o que viria depois. Dez minutos mais tarde, os impactos começaram — estrondos altos, um após o outro, embora não ficasse claro onde atingiam o solo. Era setembro de 2026, e a BBC havia entrado em uma das zonas de conflito mais ativas do Iêmen no momento em que a guerra civil se intensificava de forma dramática.
No dia 10 de setembro, os combatentes houthis haviam tomado o porto de Mokha, localizado 85 quilômetros a oeste de Taiz, rompendo um cessar-fogo que havia se mantido por quatro anos. Com essa conquista, o grupo assumiu o controle de uma faixa de território que domina o Estreito de Bab el-Mandab, um corredor marítimo crucial que liga a Europa à Ásia. A tomada do porto elevou os preços do petróleo globalmente, à medida que cresciam os temores de novas interrupções no fornecimento. As forças pró-governo, apoiadas pela Arábia Saudita, agora lutavam desesperadamente para conter o avanço houthi nas montanhas que cercam Taiz, a terceira maior cidade do Iêmen e sua capital cultural, com quase um milhão de habitantes.
A jornada até a linha de frente revelou a fragmentação das forças que defendem o governo. Cerca de 30 postos de controle marcavam a rota de Aden até Taiz, cada um controlado por diferentes comandantes — um sinal claro de como as forças pró-governo estavam divididas. Conforme se aproximavam da cidade, ambulâncias passavam constantemente. Em meia hora, Al-Maghafi contou pelo menos cinco, todas a caminho do principal hospital de Taiz. Ali, na unidade de terapia intensiva do hospital al-Thawra, todos os leitos que a equipe viu estavam ocupados. Ghana Nabeel, uma menina de 12 anos que pastoreava cabras, havia sido atingida na cabeça por estilhaços de um morteiro houthi. Estava inconsciente, com a cabeça enfaixada, o rosto inchado e coberto de hematomas. Um médico disse que a lesão havia danificado seu cérebro permanentemente. "Ela nunca mais será a mesma", afirmou.
Na linha de frente, a situação era ainda mais sombria. Um combatente do governo descreveu corpos de 18 soldados seus em uma área que sua unidade conseguia atirar, mas não conseguia alcançar para recuperá-los. "Nós atiramos por cima deles, mas não conseguimos retirá-los", disse. Os houthis faziam uso extensivo de drones em seu avanço, além de morteiros e outras armas. Segundo a Arábia Saudita, países ocidentais e especialistas da ONU, o Irã fornecia armas, financiamento e assessoria militar ao grupo — uma acusação que o Irã negava, afirmando fornecer apenas apoio político. Havia também relatos persistentes de que os houthis recrutavam crianças-soldados. Um soldado do governo disse à BBC: "É difícil olhar para uma criança iemenita e atirar nela. Mas aí elas apontam a arma para você e você tem que se defender."
A alguns quilômetros de distância da batalha, a vida civil continuava de forma surreal. Quando a equipe chegou a Taiz após o escurecer, as lojas estavam iluminadas, os restaurantes lotados e crianças brincavam nas ruas. Mas, de vez em quando, outros sons interrompiam a cena — o baque dos bombardeios e o estampido dos tiros vindos das montanhas ao redor. Ali, um homem que vivia a cerca de um quilômetro da linha de frente, havia enviado seus filhos para um campo de deslocados porque não aguentavam mais os bombardeios. Ele havia ficado com a esposa e as irmãs para cuidar de seu rebanho de cabras. "Estou apavorado", disse ele, fornecendo apenas seu primeiro nome por medo de represálias caso os houthis tomassem a área. "Mas não tenho escolha, todos passaremos fome sem nossos animais e morreremos de qualquer maneira."
A 20 quilômetros ao sul de Taiz, no campo de deslocados de al-Monig, centenas de tendas abrigavam famílias que haviam fugido de Mokha e de aldeias atingidas pelos combates. Duzentas famílias haviam chegado nos dez dias anteriores. Maryam Saleh, nome fictício para proteger sua segurança, havia chegado uma semana antes com o marido e cinco filhos, o mais novo com sete anos. Ela estava tecendo um chapéu para vender e comprar comida para o dia. "Caminhávamos descalços e não levávamos nada conosco, apenas nossos filhos", contou. Seu sobrinho havia sido morto por estilhaços de um morteiro enquanto fugiam. Fatma Mohammed Saleh, uma mulher com deficiência que não conseguia andar, havia rastejado por dois dias sob fogo cruzado para escapar. "Eu estava rastejando e as balas vinham daqui e os projéteis dali. E as balas estavam aqui, e os projéteis ali. E acima de mim era como um trovão. Eu estava rezando para Deus."
Em 22 de setembro, a agência da ONU para refugiados informou que mais de 130 mil pessoas haviam sido deslocadas no Iêmen apenas naquele mês, somando-se aos 5,2 milhões já deslocados pela guerra civil. A agência alertava que outras 100 mil pessoas poderiam ser forçadas a deixar suas casas nos três meses seguintes. Contatos do lado houthi informaram à BBC que estavam consolidando tropas e se preparando para uma grande ofensiva. Quando perguntadas sobre isso, as forças do governo disseram estar cientes da situação e que também estavam se preparando. A batalha por Taiz e o controle das rotas que levam ao sul da cidade — e potencialmente a Mokha — estava apenas começando.
Citations marquantes
Ela nunca mais será a mesma— Médico do hospital al-Thawra, sobre Ghana Nabeel, menina de 12 anos ferida por estilhaços
Caminhávamos descalços e não levávamos nada conosco, apenas nossos filhos— Maryam Saleh, mulher que fugiu de Mokha com sua família