Barroso deixa STF aos 67 anos com legado de defesa democrática

Estou saindo do Supremo mas não abandonando o Brasil
Barroso reflete sobre sua saída da corte máxima após anos defendendo a democracia contra pressões políticas.
Mark

Por que Barroso saiu oito anos antes do prazo? Isso não era obrigatório?

Mimi

Não era. Ele poderia ter ficado até os 75 anos, como manda a lei. Mas escolheu sair. Acho que depois de presidir o tribunal nos anos mais turbulentos de sua história, ele simplesmente cansou da exposição.

Mark

E o que ele fez de tão importante que merece ser lembrado?

Mimi

Ele foi o rosto da resistência democrática quando as instituições estavam sendo atacadas. Não só como presidente, mas antes disso também. Enfrentou Bolsonaro, combateu a desinformação na pandemia, e ainda assim tocou em temas que definem direitos — casamento gay, aborto em casos específicos, descriminalização da maconha.

Mark

Parece que ele e Gilmar Mendes não se davam bem.

Mimi

Tiveram um episódio feio em 2018. Barroso foi muito duro nas palavras. Mas pessoas mudam, e eles fizeram as pazes. Na despedida, abraçaram emocionados. Às vezes a gente esquece que ministros também são humanos.

Mark

Para onde ele vai agora?

Mimi

Para a Alemanha primeiro, depois para a França dar aula na Sorbonne. Ele quer sair da exposição pública, viver um pouco sem as obrigações do cargo. Mas deixou claro que não abandona o Brasil — só precisa de distância por enquanto.

Mark

Qual é o risco agora que ele saiu?

Mimi

O tribunal continua sob pressão. Barroso foi uma âncora institucional durante anos muito difíceis. Quem vem depois tem que manter essa resistência. O Brasil ainda está descobrindo se suas instituições conseguem se defender sozinhas.

  • Barroso deixou o STF voluntariamente aos 67 anos, surpreendendo ao antecipar em oito anos sua saída e confessar publicamente que ainda não sabia bem o que viria depois.
  • Sua presidência da corte coincidiu com o período de maior pressão política sobre o tribunal, quando ataques institucionais e tentativas de desestabilização democrática se intensificaram.
  • O ministro construiu um legado de confrontos diretos — com Bolsonaro, com o negacionismo pandêmico, com aliados que tentaram minar o processo eleitoral — tornando-se símbolo de resistência judicial.
  • Mesmo dentro da corte, Barroso não escapou de conflitos: o bate-boca com Gilmar Mendes em 2018 revelou tensões profundas, mas a reconciliação pública na sessão de despedida sinalizou uma maturidade institucional conquistada a custo.
  • Ele parte para lecionar na Sorbonne e em universidades alemãs, afastando-se dos holofotes enquanto o STF permanece sob pressões que sua saída não dissolve.

Num outubro de incertezas institucionais, Luís Roberto Barroso desceu voluntariamente do posto mais alto da Justiça brasileira, oito anos antes do que a lei exigiria. Sua passagem pelo Supremo Tribunal Federal — marcada pela resistência ao autoritarismo, pela defesa da Constituição e por decisões que tocaram o tecido moral da sociedade — encerra um capítulo e abre uma reflexão sobre o que significa guardar a democracia em tempos de tempestade. Ele parte para a academia europeia carregando não apenas diplomas de Yale e Harvard, mas a memória de um tribunal que, sob sua presidência, escolheu resistir.

Luís Roberto Barroso deixou o Supremo Tribunal Federal numa quinta-feira de outubro, aos 67 anos, oito anos antes da aposentadoria compulsória. Disse aos colegas que era sua última sessão plenária e confessou aos jornalistas que ainda não sabia exatamente o que faria — apenas que partiria do Brasil por um tempo, primeiro para a Alemanha, depois para a França, onde daria aulas na Sorbonne. Queria, nas suas palavras, viver um pouco longe dos holofotes.

Indicado por Dilma Rousseff em 2013, Barroso ganhou peso histórico quando passou a se colocar na frente das investidas contra a democracia. Assumiu a presidência do STF em junho de 2023, substituindo Rosa Weber num dos momentos mais turbulentos da corte, e conduziu o tribunal sob pressão constante de forças políticas que questionavam sua legitimidade. Antes disso, presidiu o TSE entre 2020 e 2022, período que incluiu duas eleições de alta tensão.

Seu legado atravessa décadas de questões que definem o que uma sociedade escolhe ser: pesquisa em células-tronco, casamento homoafetivo, limitação do foro privilegiado, descriminalização do porte de maconha, aborto em casos de anencefalia. Durante a pandemia, foi voz ativa contra o negacionismo. Em 2022, quando um provocador bolsonarista o abordou em Nova Iorque após a derrota eleitoral, respondeu com uma frase que viralizou — direta, atravessada, e reveladora de um homem que não se intimidava com facilidade.

Nem tudo foi harmonia. Em 2018, um bate-boca com o ministro Gilmar Mendes no plenário expôs tensões internas com palavras duras que o perseguiram por anos. Mas na sessão de despedida, os dois se abraçaram emocionados — Barroso agradeceu publicamente a parceria do decano, e o gesto encerrou um ciclo com dignidade.

Ao se despedir, Barroso foi preciso: disse ter estudado, refletido e se convencido do que era certo em cada causa difícil — e ter feito. Completou que saía do Supremo, mas não abandonava o Brasil. Deixa uma corte que resistiu, e segue para a vida acadêmica carregando o peso e o privilégio de ter estado no centro quando o centro precisava ser defendido.

Luís Roberto Barroso desceu do banco mais alto da Justiça brasileira numa quinta-feira de outubro, aos 67 anos, oito anos antes do momento em que a lei o obrigaria a sair. Ele havia dito aos colegas que aquela era sua última sessão plenária. Aos jornalistas, confessou que ainda não sabia bem o que faria depois — só tinha certeza de que sairia do Brasil por um tempo, primeiro para a Alemanha em novembro, depois para a França em janeiro, onde daria aulas na Sorbonne. Queria, disse, "viver um pouco da vida" longe dos holofotes, das obrigações que um cargo assim exige.

Barroso chegou ao Supremo em 2013, indicado pela então presidente Dilma Rousseff para ocupar a cadeira de Carlos Ayres Britto. Mas sua passagem pela corte ganhou peso real anos depois, quando começou a se colocar na frente das investidas contra a democracia. Primeiro como ministro que se levantava contra as pressões de Jair Bolsonaro e sua família. Depois, a partir de janeiro de 2023, como presidente da instituição — cargo que assumiu em junho daquele ano, substituindo Rosa Weber, justamente quando o tribunal enfrentava seus momentos mais turbulentos.

Seu legado não cabe em uma única linha. Durante a pandemia de covid-19, ele foi uma voz contra a desinformação e o negacionismo que se espalhavam. Quando presidiu o Tribunal Superior Eleitoral, entre 2020 e 2022, deixou marca. Mas seu trabalho no Supremo tocou questões que definem o que uma sociedade é: pesquisa em células-tronco, casamento entre pessoas do mesmo sexo, limitação do foro privilegiado para políticos, descriminalização do porte de maconha para uso pessoal. Ele também esteve no centro da discussão sobre aborto em casos de feto anencéfalo, um processo que ainda não foi totalmente encerrado.

Há momentos que ficam. Em 2022, quando Bolsonaro perdeu a eleição, um provocador o seguiu na rua em Nova Iorque. Barroso respondeu com uma frase que viralizou nas redes: "perdeu, mané, não amola". Era uma resposta atravessada, mas também era Barroso — um homem que não se intimidava fácil.

Mas nem tudo foi harmonia dentro da corte. Em 2018, ele e o ministro Gilmar Mendes tiveram um bate-boca no plenário sobre regras eleitorais. Barroso foi duro: chamou Gilmar de "pessoa horrível", uma "mistura do mal com atraso e pitadas de psicopatia". A frase o perseguiu. Mas os dois fizeram as pazes com o tempo. Na quinta-feira de sua despedida, Barroso agradeceu a parceria de Gilmar, que é o decano do tribunal. Os dois se abraçaram, emocionados.

Nascido em Vassouras, no Rio de Janeiro, Barroso é professor de Direito Constitucional com doutorado pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Tem mestrado por Yale e pós-doutorado por Harvard. Quando se despediu, fez uma reflexão breve sobre seu tempo no tribunal. "Todos nós julgamos causas difíceis, complexas, com interesses múltiplos. E cada um procura fazer o melhor. De minha parte, ao longo desses anos, diante das questões mais delicadas, eu as estudei, refleti e me convenci de qual era a coisa certa a fazer. E fiz", disse. Depois completou: "Estou saindo do Supremo mas não abandonando o Brasil."

Ele deixa a corte em um momento em que ela continua sob pressão. Mas deixa também um tribunal que, sob sua liderança, resistiu. Agora segue para a vida acadêmica, para refletir longe dos jornalistas, das câmeras, das decisões que pesam.

Todos nós julgamos causas difíceis, complexas, com interesses múltiplos. De minha parte, ao longo desses anos, diante das questões mais delicadas, eu as estudei, refleti e me convenci de qual era a coisa certa a fazer. E fiz.
— Luís Roberto Barroso, em seu discurso de despedida
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