Banqueiros recusam apresentar proposta de reajuste na 9ª mesa de negociação

Redução de 17% na massa salarial real desde 2014 e queda de 2% no ano passado, representando perda de R$ 1 bilhão mensal para trabalhadores bancários.
Estamos no dia 24 de agosto, sete dias do limite, sem proposta
Juvandia Moreira marca o tempo que falta para o vencimento da convenção coletiva sem que os bancos apresentem números.
Mark

Por que os bancos estão adiando tanto a apresentação de uma proposta?

Mimi

Tem a ver com o fim da ultratividade. Se eles esperam até depois de 1º de setembro sem assinar nada, os direitos que não estão na lei desaparecem automaticamente. É uma estratégia de pressão.

Mark

Mas os bancos ganham muito dinheiro. Por que não conseguem oferecer um reajuste decente?

Mimi

Ganham, sim. Os cinco maiores tiveram R$ 124 bilhões de lucro em 2025. O problema é que não querem. A rentabilidade deles está 2,3 vezes acima da taxa de juros. Eles podem pagar, mas escolhem não pagar.

Mark

E a paralisação de 20 de agosto — foi realmente bem-sucedida?

Mimi

Mobilizou mais de 50 mil bancários em todo o país, ganhou apoio público, saiu na imprensa. Os bancos tentaram impedir na justiça e perderam. Primeira vez que isso acontece. Isso mostra força.

Mark

O que significa essa queda de 17% na massa salarial desde 2014?

Mimi

Significa que mesmo com inflação, mesmo com os bancos ganhando mais, os trabalhadores estão recebendo menos no total. Perderam R$ 1 bilhão por mês. Enquanto isso, um diretor ganha 120 vezes mais que um escriturário.

Mark

E se não chegarem a um acordo até 1º de setembro?

Mimi

Os direitos que dependem da convenção coletiva — PLR, vales, benefícios — deixam de existir. Só fica o que está na lei. É por isso que os bancos estão enrolando. Quanto mais perto da data-base, mais fraco fica o poder de negociação dos bancários.

  • Nona rodada de negociação sem proposta de reajuste da Fenaban
  • Paralisação de 20 de agosto mobilizou mais de 50 mil bancários
  • Lucro dos cinco maiores bancos em 2025: R$ 124 bilhões
  • Massa salarial real dos bancários caiu 17% desde 2014
  • Data-base da categoria: 1º de setembro; fim da ultratividade elimina direitos não garantidos por lei

Bancos adiaram apresentação de proposta de índice de reajuste, quebrando histórico de prazos em campanhas anteriores. Paralisação de 20 de agosto mobilizou mais de 50 mil bancários e ganhou apoio público contra fechamento de agências e demissões.

Na nona rodada de negociação, a Fenaban não apresentou proposta de reajuste salarial para bancários. O Comando Nacional critica o atraso e anuncia continuidade das negociações.

Na segunda-feira, 24 de agosto, os bancários voltaram à mesa de negociação com a Fenaban — a federação que representa os bancos — pela nona vez neste ano. Mais uma vez, saíram sem o que vinham buscar: uma proposta concreta de reajuste salarial. Os banqueiros, segundo o Comando Nacional dos Bancários, simplesmente não apresentaram números.

Este atraso é histórico. Em campanhas anteriores, a Fenaban havia entregado suas propostas bem mais cedo: em 7 de agosto de 2018, em 18 de agosto de 2020, em 19 de agosto de 2022, em 21 de agosto de 2024. Agora, com apenas sete dias até o vencimento da atual convenção coletiva — marcado para 1º de setembro — os bancos ainda não colocaram nada sobre a mesa. Neiva Ribeiro, presidenta do Sindicato e coordenadora do Comando Nacional, não poupou palavras: os banqueiros optaram por desrespeitar a categoria, atacar a paralisação legítima que ocorreu dias antes, questionar a organização sindical e, mais uma vez, ameaçar levar tudo ao Supremo Tribunal do Trabalho.

A paralisação que Ribeiro mencionava havia acontecido na quinta-feira anterior, 20 de agosto, mobilizando mais de 50 mil trabalhadores de bancos públicos e privados em todo o país. A ação foi aprovada em assembleias no dia 17 de agosto e ganhou apoio público — pessoas afetadas pelas altas taxas de juros, pelo fechamento de agências bancárias e pela redução de postos de trabalho se solidarizaram com os bancários. Os bancos tentaram impedir o movimento na justiça, pedindo uma liminar, mas a 20ª Vara do Trabalho de Brasília indeferiu o pedido. Era a primeira vez que a indústria bancária tentava bloquear judicialmente uma paralisação durante uma campanha nacional.

Os bancários reivindicam 5% de aumento real — reposição da inflação mais 5% de reajuste — para salários e demais verbas. Querem também que o piso salarial da categoria chegue ao salário mínimo ideal calculado pelo Dieese, que é de R$ 7.999,44. Pedem aumentos maiores para vale-alimentação e vale-refeição, além de valorização da participação nos lucros (PLR). Tudo isso foi rejeitado ou ignorado. Os bancos haviam sugerido, em rodadas anteriores, um modelo de reajuste por faixas salariais — que valeria também para os vales — mas retiraram essa proposta justamente após o Comando Nacional apresentar os resultados das assembleias que a rejeitavam.

Os números que o Comando Nacional apresentou ao longo das negociações mostram por que a categoria está indignada. Entre 2003 e 2025, o lucro líquido dos maiores bancos brasileiros cresceu 178% acima da inflação. Após a pandemia, entre 2020 e 2025, o lucro real no setor bancário cresceu 61% nos bancos privados, 10% nos públicos e 1.580% nos digitais. Em 2025 sozinho, os cinco maiores bancos tiveram lucro de R$ 124 bilhões. Enquanto isso, a massa salarial real dos bancários caiu 17% desde 2014 e mais 2% no ano passado — uma perda de R$ 1 bilhão por mês para os trabalhadores. As despesas com pessoal nos bancos caíram 15% entre 2019 e 2025. Um diretor estatutário ganha em média R$ 10,3 milhões por ano; um escriturário, função de entrada na carreira, ganha 120 vezes menos.

Há também a questão da ultratividade — a garantia de que um acordo coletivo permanece válido até que um novo seja assinado. Essa proteção foi eliminada pela Reforma Trabalhista de 2017. O Comando Nacional cobrou dos bancos a garantia de ultratividade durante as negociações. Os banqueiros recusaram. Isso significa que se não houver novo acordo assinado até 1º de setembro, direitos dos bancários que não estão garantidos por lei simplesmente desaparecem. A estratégia dos bancos de adiar a apresentação de proposta — deixando tudo para o último momento — está diretamente ligada a essa vulnerabilidade criada pela reforma.

As negociações continuam. A próxima rodada estava marcada para terça-feira, 25 de agosto, e seguiria durante toda a semana. Neiva Ribeiro deixou claro: a categoria quer respeito e valorização, e isso significa uma proposta concreta com índice de reajuste. Não vão debater outros temas enquanto isso não acontecer. Juvandia Moreira, presidenta da Contraf-CUT e também coordenadora do Comando Nacional, reforçou que o caminho é a negociação, mas com propostas reais e disposição dos bancos para valorizar os trabalhadores. A mobilização dos bancários, disse ela, é consequência direta da postura da Fenaban.

Os banqueiros, mais uma vez, optaram por desrespeitar a categoria e não apresentaram proposta de índice de reajuste
— Neiva Ribeiro, presidenta do Sindicato e coordenadora do Comando Nacional dos Bancários
A mobilização dos trabalhadores é consequência da postura da Fenaban
— Juvandia Moreira, presidenta da Contraf-CUT
Contattaci Domande frequenti