Bancos recomendam aumentar exposição a ações 'bond proxies' ante queda de juros

Fluxos previsíveis, dividendos altos, baixa exposição ao crescimento
O que torna as "bond proxies" atrativas em cenário de queda de juros, segundo recomendação dos bancos.
Mark

Por que exatamente essas ações "bond proxies" se comportam como títulos de dívida? Qual é a mecânica?

Mimi

Porque seus fluxos de caixa são previsíveis e pouco dependem do crescimento econômico. Uma rodovia cobra pedágio independentemente de a economia estar em boom ou recessão. Um shopping center tem contratos de longo prazo. Quando os juros caem, esses fluxos futuros valem mais em valor presente — assim como um título de dívida sobe de preço quando as taxas caem.

Luke

Mas isso assume que os fluxos realmente são previsíveis. A Eneva tem 75% do EBITDA contratado até 2030 — ótimo. Mas e os outros 25%? E se a inflação não acompanhar as receitas vinculadas à inflação da Ecorodovias?

Mark

Os bancos estão recomendando isso porque esperam que a Selic caia em 2027. Qual é a confiança deles nessa previsão?

Mimi

O Itaú BBA e o BofA chegaram à mesma conclusão, o que sugere consenso entre grandes instituições. Mas é uma aposta condicional — depende de desaceleração econômica real.

Luke

Exatamente. É condicional. Se a economia não desacelerar, ou se o Banco Central manter juros altos por razões de inflação, essa tese inteira não funciona. Os bancos não estão dizendo "a Selic vai cair"; estão dizendo "se cair, comprem isso".

Mark

Qual é o risco maior aqui? Parece que todos os nomes têm alguma coisa a temer.

Mimi

Rumo e Hidrovias podem sofrer com El Niño. TIM tem crescimento fraco de assinantes. Telecomunicações em geral enfrenta competição acirrada. Cada setor tem sua vulnerabilidade.

Luke

E há um risco sistêmico que ninguém está nomeando: se a economia desacelerar muito, mesmo essas empresas "defensivas" podem ver seus fluxos caírem. Uma rodovia com tráfego resiliente ainda é uma rodovia — se ninguém estiver viajando, o tráfego cai. Esses nomes são menos cíclicos, não acíclicos.

Mark

Dividend yield de 12,5% parece muito alto. Como a Axia sustenta isso?

Mimi

Porque é uma empresa de infraestrutura com fluxo de caixa estável e previsível. Pode devolver muito do que ganha aos acionistas porque não precisa reinvestir tanto em crescimento.

Luke

Verdade, mas dividend yield alto também pode significar que o mercado está precificando risco — ou que a ação está barata porque há preocupações não ditas. O BBA não explica por que a Axia está tão barata que oferece 12,5% de dividend yield.

Mark

E se os juros não caírem? Essas ações simplesmente não se movem?

Mimi

Pior que isso. Se os juros subirem, elas caem. Porque o fluxo de caixa futuro vale menos. É o oposto da proteção que você está buscando.

Luke

Exatamente. Essa é uma aposta direcional disfarçada de estratégia defensiva. Você está apostando que os juros caem. Se errar, perde.

  • Correlação negativa de -0,42 entre ações 'bond proxies' e juros reais
  • Axia, Equatorial e Multiplan são principais recomendações do Itaú BBA
  • Dividend yields estimados entre 8% e 12,5% para 2026-2027
  • Shopping centers mostram maior sensibilidade aos juros, com correlação de -0,55
  • Eneva tem 75% do EBITDA contratado até 2030

Ações 'bond proxies' apresentam correlação negativa de -0,42 com juros reais, a maior entre categorias analisadas, oferecendo estabilidade em cenário de redução de taxas. Axia, Equatorial e Multiplan são as principais recomendações do Itaú BBA, com dividend yields entre 8% e 12,5% e potenciais de alta de até 70%.

Itaú BBA e Bank of America recomendam aumentar exposição a ações 'bond proxies' diante da possibilidade de desaceleração econômica e queda dos juros reais em 2027. Empresas de infraestrutura, utilities e shopping centers são as principais apostas.

Dois grandes bancos de investimento chegaram à mesma conclusão quase simultaneamente: se a economia brasileira desacelerar em 2027 e os juros caírem, há um grupo específico de ações que pode se comportar como um porto seguro. São as chamadas "bond proxies" — empresas que se movem como títulos de dívida, oferecendo retornos previsíveis e dividendos consistentes em vez de crescimento agressivo.

O Itaú BBA apresentou essa tese em seu debate Bull & Bear no dia 10 de setembro, seguindo recomendação similar do Bank of America. A lógica é simples: empresas com baixa dependência do ciclo econômico e alta sensibilidade à trajetória da Selic ganham valor quando os juros reais caem. Os números sustentam a ideia. Ações "bond proxies" mostram correlação negativa de -0,42 com juros reais em um período de 12 meses — a mais forte entre todas as categorias analisadas. Para comparação, empresas domésticas têm correlação de -0,35, financeiras de -0,32 e commodities de apenas -0,17.

Dentro desse universo, alguns setores se destacam pela sensibilidade ainda maior aos juros. Shopping centers lideram com correlação de -0,55, seguidos por utilities com -0,41, rodovias com -0,39 e telecomunicações com -0,37. Essa hierarquia molda as recomendações dos bancos. O Itaú BBA aponta três nomes como principais apostas: Axia, Equatorial e Multiplan. A Axia oferece exposição a infraestrutura com dividend yield médio estimado em 12,5% entre 2026 e 2029. A Equatorial, no setor de energia, promete potencial de alta de 66%. A Multiplan, maior administradora de shopping centers, negocia com taxa interna de retorno real de aproximadamente 11%, acima de sua média histórica de 250 pontos-base.

No setor elétrico e de saneamento, a Eneva é a escolha preferida do Itaú BBA. Mais de 75% de seu EBITDA está contratado até 2030, reduzindo incerteza. O banco estima potencial de alta de 13% e aponta catalisadores que podem adicionar até R$ 3,50 por ação até o fim de outubro. Nas rodovias, a Ecorodovias é a favorita, com retorno interno real estimado em cerca de 12%, sustentado por tráfego resiliente e receitas vinculadas à inflação. A Rumo e a Hidrovias, porém, podem sofrer pressão se o fenômeno El Niño prejudicar os volumes de grãos em 2027.

Em telecomunicações, o Itaú BBA adota postura mais cautelosa. A competição acirrada e dúvidas sobre recuperação do mercado levam o banco a manter recomendação neutra. A Vivo é a preferência relativa, considerada mais resiliente em receita média por usuário e com dividend yield estimado em 8% para 2026. A TIM chama atenção pelo dividend yield de aproximadamente 12%, mas o crescimento mais fraco da base de assinantes preocupa.

O Bank of America, por sua vez, destaca Equatorial, Ecorodovias e Allos como principais "bond proxies". A Equatorial é a escolha central do BofA para cenários de maior apetite a risco, com TIR real de aproximadamente 12%. A Axia aparece em ambas as carteiras, com beta mais alto e dividend yield entre 11% e 15%. Para investidores mais defensivos, o BofA recomenda ISA Energia, com TIR real de 10% e potencial de alta superior a 15% caso sua obrigação previdenciária seja resolvida.

A estratégia inteira depende de duas coisas acontecerem: a economia brasileira desacelerar em 2027 e a Selic cair de fato. Se isso ocorrer, essas empresas — com seus fluxos de caixa previsíveis, dividendos altos e baixa exposição ao crescimento econômico — podem oferecer o tipo de retorno estável que investidores buscam em tempos de incerteza. Mas se a economia permanecer resiliente ou os juros se mantiverem altos, a tese desmorona.

Empresas com menor dependência do ciclo econômico e maior sensibilidade à trajetória da Selic podem se beneficiar de um eventual ciclo de queda dos juros reais
— Itaú BBA
Axia oferece dividend yield médio estimado em 12,5% entre 2026 e 2029
— Itaú BBA
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