Ausência de Lula marca cúpula do Brics na Índia com foco em multilateralismo

A Índia conseguiu fazer sua agenda prevalecer sem alienar nenhum membro
Reflexão sobre como o país anfitrião navegou as tensões internas do bloco na cúpula.
Mark

Por que a ausência de Lula foi tão significativa? Ele estava doente?

Mimi

Lula estava se recuperando de uma cirurgia na cabeça. Mas a ausência importa porque o Brasil é membro fundador do Brics, e sua voz — especialmente em temas de comércio e sanções — é central nas discussões.

Luke

Certo, mas a gente sabe por quê ele não foi? O comunicado oficial foi claro?

Mimi

Não há muitos detalhes públicos. O que sabemos é que ele estava em recuperação e optou por não viajar.

Mark

E quanto à declaração final — ela realmente critica os EUA diretamente?

Mimi

Não nominalmente. Mas fala em unilateralismo econômico, sanções abusivas, tarifas. Qualquer um sabe quem é o alvo.

Luke

Mas isso é novo? O Brics sempre criticou essas políticas.

Mimi

Verdade. O que é novo é o contexto — Trump voltou, e o bloco está respondendo com mais clareza.

Mark

E essa história de moeda comum? Avançou?

Mimi

Não. Ainda estão longe de um mecanismo de câmbio unificado. O que aprovaram foi expandir o uso de moedas nacionais nas transações.

Luke

Então não é uma moeda do Brics, é só... menos dólar?

Mimi

Exatamente. É reduzir a dependência, não criar uma alternativa única.

Mark

E o Oriente Médio? Como conseguiram uma declaração com Irã e Emirados no mesmo bloco?

Mimi

Com muito cuidado. A Índia, como anfitriã, equilibrou tudo. Condenou terrorismo sem nomear o Paquistão, apoiou a Palestina sem alienar os Emirados.

Luke

Mas isso significa que a declaração é fraca sobre a região?

Mimi

Significa que é realista. Não dá para ser incisivo quando seus membros têm interesses opostos.

  • A ausência de Lula na cúpula deixou o Brasil sem voz ativa num momento em que o bloco formalizou críticas diretas às políticas comerciais de Trump — tarifas, sanções e barreiras que afetam diretamente o país.
  • A declaração final atacou o unilateralismo econômico americano sem nomear Washington, um equilíbrio retórico que reflete tanto a coragem quanto os limites do bloco diante da potência que todos evitam confrontar abertamente.
  • A questão do Oriente Médio expôs as fraturas internas: Irã, Emirados Árabes e Índia carregam interesses incompatíveis, e qualquer declaração mais incisiva sobre Gaza ou Israel poderia romper o frágil consenso do grupo.
  • A cúpula serviu de palco para o primeiro contato diplomático de alto nível entre Emirados e Irã desde o início do conflito atual, sinalizando que a diplomacia ainda busca frestas mesmo onde os muros parecem sólidos.
  • A Índia saiu fortalecida: conseguiu inserir na declaração uma condenação ao atentado de Pahalgam — recado claro ao Paquistão — sem que o texto nomeasse o país, contornando o veto implícito da China com precisão cirúrgica.

Em setembro de 2026, a Índia sediou a 18ª Cúpula do Brics com a ausência notável do presidente Lula, enquanto Xi Jinping pisava em solo indiano pela primeira vez em sete anos. O encontro revelou um bloco que cresce em ambição — criticando o unilateralismo americano e defendendo o uso de moedas nacionais — mas que ainda navega fraturas internas profundas, especialmente diante das tensões no Oriente Médio. A Índia emergiu como a grande arquiteta do momento, conduzindo uma declaração final que serviu às suas prioridades sem romper os fios que mantêm o bloco unido.

A 18ª Cúpula do Brics encerrou-se na Índia nos dias 12 e 13 de setembro carregando uma ausência simbólica: Lula não esteve presente. Para o Brasil, foi o detalhe mais imediato. Mas o encontro tinha outras camadas — a primeira visita de Xi Jinping à Índia em sete anos e uma declaração final que equilibrou críticas ao poder americano com a necessidade de manter um bloco cada vez mais heterogêneo coeso.

A declaração girou em torno de três eixos. Sem nomear os Estados Unidos, o texto condenou o unilateralismo econômico, o uso excessivo de sanções e as tarifas que fragmentam o comércio global — uma crítica direta às políticas de Trump, sentidas por Brasil, Índia, Irã e Rússia de formas distintas. Em paralelo, o bloco defendeu a expansão do uso de moedas nacionais nas transações entre membros, reduzindo a dependência do dólar. O avanço, porém, permanece travado: não há acordo sobre um mecanismo de câmbio comum.

O Oriente Médio foi o terreno mais delicado. A declaração pediu contenção e diálogo, reconheceu a Palestina como Estado associado à ONU e criticou o uso da fome como arma — um recado sobre Gaza. Mas o tom foi medido, porque o bloco carrega uma fratura interna difícil de esconder: Irã e Emirados Árabes, com laços próximos a Israel, sentam à mesma mesa, com a Índia no meio tentando manter relações viáveis com os três. A cúpula serviu, ao menos, para o primeiro contato de alto nível entre Emirados e Irã desde o início do conflito.

A Índia saiu como a maior vencedora. Conduziu uma declaração sob medida para suas prioridades, equilibrista onde precisava ser e explícita onde podia: o texto condenou o atentado de Pahalgam, na Caxemira, enquadrando o terrorismo transfronteiriço como preocupação internacional — sem nomear o Paquistão, algo que a China vetaria, mas com a mensagem intacta. Fazer a própria agenda prevalecer sem alienar nenhum membro é um feito raro em encontros onde os interesses divergem tanto.

A 18ª Cúpula do Brics encerrou-se na Índia nos dias 12 e 13 de setembro com uma ausência que marcou presença: o presidente Luiz Inácio Lula da Silva não compareceu ao encontro dos líderes do bloco. Para o Brasil, essa falta foi o detalhe mais imediato. Mas a reunião carregava outras camadas — a primeira visita de Xi Jinping à Índia em sete anos, uma declaração final que ecoava críticas diretas à política econômica americana, e um equilíbrio diplomático tão delicado quanto frágil sobre o Oriente Médio.

A declaração final do encontro girou em torno de três eixos. O primeiro, sem nomear explicitamente os Estados Unidos, dirigiu-se diretamente a Washington. Os líderes condenaram o unilateralismo econômico, o uso excessivo de sanções, as tarifas comerciais e as barreiras que fragmentam o comércio global. Defenderam, em contrapartida, o fortalecimento de um sistema multilateral. Essa crítica não era abstrata: o bloco reúne alguns dos países mais atingidos pelas políticas comerciais de Donald Trump — Brasil e Índia entre eles — além de nações sob sanções americanas, como Irã e Rússia.

O segundo tema fluía do primeiro. A declaração pediu expansão do uso de moedas nacionais nas transações entre membros do Brics, reduzindo a dependência do dólar e, com ela, a vulnerabilidade a sanções financeiras americanas. Importante notar: o bloco ainda não chegou a um acordo sobre um mecanismo de câmbio comum, algo frequentemente confundido com uma "moeda do Brics". O avanço permanece travado.

O terceiro pilar foi o Oriente Médio. A declaração pediu "máxima contenção", diálogo e esforços diplomáticos diante da escalada na região. Reconheceu a Palestina como Estado associado à ONU e reafirmou apoio à solução de dois Estados. Criticou deslocamentos forçados e o uso da fome como arma contra populações civis — um recado claro sobre Gaza. Mas o tom foi medido, não incisivo. E havia razão para isso.

Os temas regionais do Oriente Médio expõem fraturas internas no bloco. De um lado está o Irã. Do outro, os Emirados Árabes, com laços próximos a Israel. No meio, a Índia, equilibrista por necessidade, precisando manter relações viáveis com os três. Dificilmente uma declaração do Brics sobre a região poderia ser ambiciosa ou contundente sem quebrar esse frágil equilíbrio. A cúpula serviu, inclusive, para o primeiro contato de alto nível entre Emirados e Irã desde o início do conflito atual — um sinal de que a diplomacia ainda tenta encontrar espaço.

A Índia saiu como maior vencedora. Sua declaração final foi sob medida para suas prioridades. Nem muito para um lado, nem muito para o outro, nos temas em que precisava manter posição intermediária. Mas explícita onde podia ser: condenou o atentado de Pahalgam, na Caxemira, em 2025, enquadrando o terrorismo transfronteiriço como preocupação internacional. O texto não nomeou o Paquistão — algo que a China não aprovaria — mas deixou clara a mensagem. A Índia conseguiu fazer sua agenda prevalecer sem alienar nenhum membro do bloco, um feito raro em encontros multilaterais onde os interesses divergem tanto.

A declaração pediu máxima contenção, diálogo e diplomacia diante da escalada no Oriente Médio
— Declaração final da 18ª Cúpula do Brics
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