Em julho de 2025, enquanto o Banco Master navegava por águas turbulentas no Banco Central, seu controlador Daniel Vorcaro orquestrava nos bastidores uma campanha de pressão política, buscando que o presidente Lula interviesse em seu favor por meio de intermediários de peso. Os áudios revelados pelo Estadão iluminam a crença do banqueiro de que a influência sobre as mais altas instituições do país poderia dobrar decisões técnicas — uma aposta que, ao final, não resistiu ao peso da lei.
Áudios revelam pressão de Vorcaro para Lula defender Banco Master
Vou pavimentar
Por que esses áudios importam agora, meses depois que o Banco Master foi liquidado?
Porque mostram o método. Não é apenas que Vorcaro tentou falar com Lula—é que ele e seu advogado tinham um plano coordenado, com nomes específicos, horários, até a ideia de enviar um avião. Isso revela como operava a pressão.
Mas preciso ser claro: os áudios mostram o que Vorcaro e Warde diziam entre si. Não há gravação de Lula concordando com nada, nem de Mantega sendo instruído. Temos intenção, não consumação.
E quanto a "Alexandre"? Vorcaro estava realmente falando de Alexandre de Moraes?
Ele nunca deixa claro. Warde apenas respondeu "Sim. Vou pavimentar", o que sugere que ambos sabiam quem era, mas nenhum dos dois nomeou explicitamente.
Exatamente. É uma inferência razoável, mas não é prova de que Moraes fez qualquer coisa. Ele não se manifestou quando procurado.
E Lula? O Planalto diz que houve apenas um encontro, em dezembro de 2024.
Sim, e os áudios são de julho de 2025—sete meses depois. Mostram que Vorcaro continuava tentando chegar a Lula mesmo após aquele encontro inicial não ter resultado em nada.
Mas aqui está o ponto: se Lula tivesse intervindo a favor de Vorcaro, o Banco Central não teria vetado a venda em setembro nem liquidado o banco em novembro. O resultado final contradiz a narrativa de que Vorcaro tinha influência presidencial.
Então os áudios mostram ambição, não sucesso?
Mostram ambição e convicção de que havia influência. Mas Luke tem razão—o que aconteceu depois sugere que a influência, se existia, não foi suficiente.
E Vorcaro foi preso. Sob o governo Lula. Isso também importa para o contexto.
Le Pouls
- Vorcaro e seu advogado trocaram áudios revelando uma estratégia sistemática para mobilizar o ex-ministro Guido Mantega como ponte direta até o presidente Lula, chegando ao ponto de oferecer o avião particular do banqueiro para buscá-lo em Londres.
- O banqueiro afirmava contar com o respaldo simultâneo do STF, da Câmara, do Senado e da Presidência, e usava esse suposto apoio para enquadrar o diretor do BC contrário ao negócio como alguém que agia contra as próprias instituições da República.
- Quando os canais com Mantega emperraram, Vorcaro sugeriu acionar 'Alexandre' — referência possivelmente ao ministro Alexandre de Moraes —, ao que seu advogado respondeu apenas: 'Sim. Vou pavimentar'.
- O Planalto admitiu um único encontro com Vorcaro, em dezembro de 2024, negando qualquer favorecimento e afirmando que Lula orientou que as denúncias fossem analisadas tecnicamente pelo Banco Central.
- A estratégia fracassou: o BC vetou a venda do Master ao BRB em setembro de 2025, decretou a liquidação do banco em novembro e a Polícia Federal prendeu Vorcaro no âmbito das investigações.
Em julho de 2025, enquanto o Banco Master navegava por águas turbulentas no Banco Central, seu controlador Daniel Vorcaro orquestrava nos bastidores uma campanha de pressão política, buscando que o presidente Lula interviesse em seu favor por meio de intermediários de peso. Os áudios revelados pelo Estadão iluminam a crença do banqueiro de que a influência sobre as mais altas instituições do país poderia dobrar decisões técnicas — uma aposta que, ao final, não resistiu ao peso da lei.
Em julho de 2025, com o Banco Master sob escrutínio crescente do Banco Central, Daniel Vorcaro e seu advogado Walfrido Warde articulavam nos bastidores uma ofensiva política. Os áudios obtidos pelo Estadão revelam a insistência do banqueiro em usar intermediários para levar sua causa diretamente ao presidente Lula.
No dia 23 de julho, Warde informou que o ex-ministro Guido Mantega estava em Londres e sugeriu que Vorcaro enviasse seu avião para trazê-lo de volta, a fim de que conversasse com Lula sobre o destino do banco. Warde também relatou contatos com o chefe de gabinete presidencial e afirmou que Lula havia prometido ligar para Mantega assim que retornasse de viagem. Horas depois, insistia em organizar uma videoconferência para orientar o ex-ministro sobre como abordar o tema com o presidente.
Vorcaro acreditava contar com o apoio do STF, da Câmara, do Senado e da Presidência, e argumentava que o diretor do BC Renato Gomes, contrário à venda do Master ao BRB, estava agindo contra essas quatro instâncias de poder. Quando os canais com Mantega travaram, o banqueiro sugeriu acionar 'Alexandre' — sem esclarecer se se referia ao ministro Alexandre de Moraes. A resposta de Warde foi lacônica: 'Sim. Vou pavimentar'.
O Planalto confirmou apenas um encontro entre Lula e Vorcaro, em 4 de dezembro de 2024, quando o banqueiro chegou acompanhado de Mantega sem agendamento prévio. Presentes também estavam o ministro Rui Costa e Gabriel Galípolo, então diretor do BC. Segundo o governo, Lula respondeu às reclamações de Vorcaro orientando que eventuais denúncias fossem analisadas tecnicamente — e negou qualquer favorecimento.
O desfecho desmentiu a convicção do banqueiro sobre sua influência: o BC vetou a operação em setembro de 2025, decretou a liquidação do Master em novembro e a Polícia Federal prendeu Vorcaro no curso das investigações. Os áudios ficam como registro de uma aposta arriscada — a de que o poder político poderia sobrepor-se às decisões técnicas das autoridades monetárias.
Em julho de 2025, enquanto o Banco Master enfrentava questionamentos crescentes no Banco Central, Daniel Vorcaro e seu advogado Walfrido Warde trocavam mensagens de áudio revelando uma estratégia sistemática: pressionar o presidente Lula, através de intermediários, para que intervisse a favor do banco. Os diálogos, obtidos pelo Estadão, mostram a insistência do banqueiro em mobilizar figuras políticas de peso para contornar a resistência de autoridades monetárias.
No dia 23 de julho, Warde enviou um áudio a Vorcaro mencionando que o ex-ministro Guido Mantega estava em Londres. A solução proposta era direta: Vorcaro deveria enviar seu avião para trazer Mantega de volta ao Brasil a fim de que conversasse com Lula sobre o Banco Master. Warde também relatou estar em contato com Marco Aurélio Santana Ribeiro, então chefe de gabinete presidencial, e afirmou que Lula havia telefonado para Mantega, prometendo chamá-lo assim que retornasse de viagem. Horas depois, Warde insistiu em fazer uma videoconferência com Vorcaro e Mantega para orientar o ex-ministro sobre como abordar o tema com o presidente.
Os áudios revelam que Vorcaro acreditava contar com apoio de instituições-chave: o Supremo Tribunal Federal, a Câmara dos Deputados, o Senado e a Presidência da República. Com essa convicção, o banqueiro argumentava que um diretor do Banco Central contrário à venda do Master ao BRB estava agindo contra essas quatro poderes. Quando enfrentou dificuldades em viabilizar o encontro de Mantega com Lula, Vorcaro sugeriu a Warde acionar "Alexandre"—sem deixar claro se se referia ao ministro do STF Alexandre de Moraes. Warde respondeu simplesmente: "Sim. Vou pavimentar".
Na mesma noite, Vorcaro criticou duramente a atuação do então diretor do Banco Central Renato Gomes, que se opunha à operação. O banqueiro sugeriu solicitar a "suspeição" de Gomes, reiterando que o diretor estava "indo contra" o apoio que ele tinha nas instituições superiores. Em outro momento, Vorcaro afirmou a Warde que o dano causado pelas objeções ao negócio era "irreversível" e que era "urgente" que Mantega escutasse da boca do banqueiro que não havia problema algum.
O Planalto respondeu às revelações afirmando que Lula se encontrou apenas uma vez com Vorcaro, em 4 de dezembro de 2024, no Palácio do Planalto. Naquela ocasião, Vorcaro chegou acompanhado de Guido Mantega, sem agendamento prévio. O encontro contou com a presença do ministro da Casa Civil Rui Costa e de Gabriel Galípolo, então diretor de Política Monetária do Banco Central e hoje seu presidente. De acordo com o Planalto, Vorcaro reclamou de perseguições, e Lula respondeu que eventuais denúncias deveriam ser analisadas tecnicamente pelo Banco Central. O governo negou qualquer favorecimento.
Hugo Motta, presidente da Câmara dos Deputados, foi procurado sobre menções em conversas que sugeriam ter repassado informações sobre Galípolo. Sua assessoria respondeu que o contato com empresários é inerente à atividade parlamentar e que todos seus contatos foram pautados pela "institucionalidade e probidade". Alexandre de Moraes, ministro do STF, e Davi Alcolumbre não se manifestaram.
Os eventos posteriores moldaram o desfecho: em setembro de 2025, o Banco Central vetou a venda do Master ao BRB. Em novembro, decretou a liquidação do banco. Daniel Vorcaro foi preso pela Polícia Federal no âmbito das investigações sobre a instituição. Os áudios agora revelados documentam não apenas as tentativas de pressão, mas a convicção do banqueiro de que possuía influência suficiente nos mais altos escalões do poder para reverter decisões técnicas de autoridades monetárias.
Citations marquantes
Irmão, deixa te falar, o Guido está em Londres. Só daqui dez dias, mas eu acho que seria o caso de você mandar teu avião lá buscar ele e trazer ele pra encontrar o presidente— Walfrido Warde, advogado de Vorcaro, em áudio de 23 de julho de 2025
Ele precisa escutar da sua boca. Que não tem problema nenhum e que o dano que estão causando é irreversível— Daniel Vorcaro, em conversa com Warde