Áudios revelam pressão de Vorcaro para Lula defender Banco Master

Daniel Vorcaro foi preso pela Polícia Federal no âmbito das investigações sobre o Banco Master.
Vou pavimentar
Resposta de Warde quando Vorcaro sugeriu acionar "Alexandre" para pressionar o Banco Central.
Mark

Por que esses áudios importam agora, meses depois que o Banco Master foi liquidado?

Mimi

Porque mostram o método. Não é apenas que Vorcaro tentou falar com Lula—é que ele e seu advogado tinham um plano coordenado, com nomes específicos, horários, até a ideia de enviar um avião. Isso revela como operava a pressão.

Luke

Mas preciso ser claro: os áudios mostram o que Vorcaro e Warde diziam entre si. Não há gravação de Lula concordando com nada, nem de Mantega sendo instruído. Temos intenção, não consumação.

Mark

E quanto a "Alexandre"? Vorcaro estava realmente falando de Alexandre de Moraes?

Mimi

Ele nunca deixa claro. Warde apenas respondeu "Sim. Vou pavimentar", o que sugere que ambos sabiam quem era, mas nenhum dos dois nomeou explicitamente.

Luke

Exatamente. É uma inferência razoável, mas não é prova de que Moraes fez qualquer coisa. Ele não se manifestou quando procurado.

Mark

E Lula? O Planalto diz que houve apenas um encontro, em dezembro de 2024.

Mimi

Sim, e os áudios são de julho de 2025—sete meses depois. Mostram que Vorcaro continuava tentando chegar a Lula mesmo após aquele encontro inicial não ter resultado em nada.

Luke

Mas aqui está o ponto: se Lula tivesse intervindo a favor de Vorcaro, o Banco Central não teria vetado a venda em setembro nem liquidado o banco em novembro. O resultado final contradiz a narrativa de que Vorcaro tinha influência presidencial.

Mark

Então os áudios mostram ambição, não sucesso?

Mimi

Mostram ambição e convicção de que havia influência. Mas Luke tem razão—o que aconteceu depois sugere que a influência, se existia, não foi suficiente.

Luke

E Vorcaro foi preso. Sob o governo Lula. Isso também importa para o contexto.

  • Vorcaro e seu advogado trocaram áudios revelando uma estratégia sistemática para mobilizar o ex-ministro Guido Mantega como ponte direta até o presidente Lula, chegando ao ponto de oferecer o avião particular do banqueiro para buscá-lo em Londres.
  • O banqueiro afirmava contar com o respaldo simultâneo do STF, da Câmara, do Senado e da Presidência, e usava esse suposto apoio para enquadrar o diretor do BC contrário ao negócio como alguém que agia contra as próprias instituições da República.
  • Quando os canais com Mantega emperraram, Vorcaro sugeriu acionar 'Alexandre' — referência possivelmente ao ministro Alexandre de Moraes —, ao que seu advogado respondeu apenas: 'Sim. Vou pavimentar'.
  • O Planalto admitiu um único encontro com Vorcaro, em dezembro de 2024, negando qualquer favorecimento e afirmando que Lula orientou que as denúncias fossem analisadas tecnicamente pelo Banco Central.
  • A estratégia fracassou: o BC vetou a venda do Master ao BRB em setembro de 2025, decretou a liquidação do banco em novembro e a Polícia Federal prendeu Vorcaro no âmbito das investigações.

Em julho de 2025, enquanto o Banco Master navegava por águas turbulentas no Banco Central, seu controlador Daniel Vorcaro orquestrava nos bastidores uma campanha de pressão política, buscando que o presidente Lula interviesse em seu favor por meio de intermediários de peso. Os áudios revelados pelo Estadão iluminam a crença do banqueiro de que a influência sobre as mais altas instituições do país poderia dobrar decisões técnicas — uma aposta que, ao final, não resistiu ao peso da lei.

Em julho de 2025, com o Banco Master sob escrutínio crescente do Banco Central, Daniel Vorcaro e seu advogado Walfrido Warde articulavam nos bastidores uma ofensiva política. Os áudios obtidos pelo Estadão revelam a insistência do banqueiro em usar intermediários para levar sua causa diretamente ao presidente Lula.

No dia 23 de julho, Warde informou que o ex-ministro Guido Mantega estava em Londres e sugeriu que Vorcaro enviasse seu avião para trazê-lo de volta, a fim de que conversasse com Lula sobre o destino do banco. Warde também relatou contatos com o chefe de gabinete presidencial e afirmou que Lula havia prometido ligar para Mantega assim que retornasse de viagem. Horas depois, insistia em organizar uma videoconferência para orientar o ex-ministro sobre como abordar o tema com o presidente.

Vorcaro acreditava contar com o apoio do STF, da Câmara, do Senado e da Presidência, e argumentava que o diretor do BC Renato Gomes, contrário à venda do Master ao BRB, estava agindo contra essas quatro instâncias de poder. Quando os canais com Mantega travaram, o banqueiro sugeriu acionar 'Alexandre' — sem esclarecer se se referia ao ministro Alexandre de Moraes. A resposta de Warde foi lacônica: 'Sim. Vou pavimentar'.

O Planalto confirmou apenas um encontro entre Lula e Vorcaro, em 4 de dezembro de 2024, quando o banqueiro chegou acompanhado de Mantega sem agendamento prévio. Presentes também estavam o ministro Rui Costa e Gabriel Galípolo, então diretor do BC. Segundo o governo, Lula respondeu às reclamações de Vorcaro orientando que eventuais denúncias fossem analisadas tecnicamente — e negou qualquer favorecimento.

O desfecho desmentiu a convicção do banqueiro sobre sua influência: o BC vetou a operação em setembro de 2025, decretou a liquidação do Master em novembro e a Polícia Federal prendeu Vorcaro no curso das investigações. Os áudios ficam como registro de uma aposta arriscada — a de que o poder político poderia sobrepor-se às decisões técnicas das autoridades monetárias.

Em julho de 2025, enquanto o Banco Master enfrentava questionamentos crescentes no Banco Central, Daniel Vorcaro e seu advogado Walfrido Warde trocavam mensagens de áudio revelando uma estratégia sistemática: pressionar o presidente Lula, através de intermediários, para que intervisse a favor do banco. Os diálogos, obtidos pelo Estadão, mostram a insistência do banqueiro em mobilizar figuras políticas de peso para contornar a resistência de autoridades monetárias.

No dia 23 de julho, Warde enviou um áudio a Vorcaro mencionando que o ex-ministro Guido Mantega estava em Londres. A solução proposta era direta: Vorcaro deveria enviar seu avião para trazer Mantega de volta ao Brasil a fim de que conversasse com Lula sobre o Banco Master. Warde também relatou estar em contato com Marco Aurélio Santana Ribeiro, então chefe de gabinete presidencial, e afirmou que Lula havia telefonado para Mantega, prometendo chamá-lo assim que retornasse de viagem. Horas depois, Warde insistiu em fazer uma videoconferência com Vorcaro e Mantega para orientar o ex-ministro sobre como abordar o tema com o presidente.

Os áudios revelam que Vorcaro acreditava contar com apoio de instituições-chave: o Supremo Tribunal Federal, a Câmara dos Deputados, o Senado e a Presidência da República. Com essa convicção, o banqueiro argumentava que um diretor do Banco Central contrário à venda do Master ao BRB estava agindo contra essas quatro poderes. Quando enfrentou dificuldades em viabilizar o encontro de Mantega com Lula, Vorcaro sugeriu a Warde acionar "Alexandre"—sem deixar claro se se referia ao ministro do STF Alexandre de Moraes. Warde respondeu simplesmente: "Sim. Vou pavimentar".

Na mesma noite, Vorcaro criticou duramente a atuação do então diretor do Banco Central Renato Gomes, que se opunha à operação. O banqueiro sugeriu solicitar a "suspeição" de Gomes, reiterando que o diretor estava "indo contra" o apoio que ele tinha nas instituições superiores. Em outro momento, Vorcaro afirmou a Warde que o dano causado pelas objeções ao negócio era "irreversível" e que era "urgente" que Mantega escutasse da boca do banqueiro que não havia problema algum.

O Planalto respondeu às revelações afirmando que Lula se encontrou apenas uma vez com Vorcaro, em 4 de dezembro de 2024, no Palácio do Planalto. Naquela ocasião, Vorcaro chegou acompanhado de Guido Mantega, sem agendamento prévio. O encontro contou com a presença do ministro da Casa Civil Rui Costa e de Gabriel Galípolo, então diretor de Política Monetária do Banco Central e hoje seu presidente. De acordo com o Planalto, Vorcaro reclamou de perseguições, e Lula respondeu que eventuais denúncias deveriam ser analisadas tecnicamente pelo Banco Central. O governo negou qualquer favorecimento.

Hugo Motta, presidente da Câmara dos Deputados, foi procurado sobre menções em conversas que sugeriam ter repassado informações sobre Galípolo. Sua assessoria respondeu que o contato com empresários é inerente à atividade parlamentar e que todos seus contatos foram pautados pela "institucionalidade e probidade". Alexandre de Moraes, ministro do STF, e Davi Alcolumbre não se manifestaram.

Os eventos posteriores moldaram o desfecho: em setembro de 2025, o Banco Central vetou a venda do Master ao BRB. Em novembro, decretou a liquidação do banco. Daniel Vorcaro foi preso pela Polícia Federal no âmbito das investigações sobre a instituição. Os áudios agora revelados documentam não apenas as tentativas de pressão, mas a convicção do banqueiro de que possuía influência suficiente nos mais altos escalões do poder para reverter decisões técnicas de autoridades monetárias.

Irmão, deixa te falar, o Guido está em Londres. Só daqui dez dias, mas eu acho que seria o caso de você mandar teu avião lá buscar ele e trazer ele pra encontrar o presidente
— Walfrido Warde, advogado de Vorcaro, em áudio de 23 de julho de 2025
Ele precisa escutar da sua boca. Que não tem problema nenhum e que o dano que estão causando é irreversível
— Daniel Vorcaro, em conversa com Warde
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