Cada dia de atraso no Ferrovia 2020 representa 14 mil litros de gasóleo consumidos e 35 toneladas de CO2 emitidas nas linhas do Algarve, Oeste e Douro. Se as três linhas já estivessem electrificadas, Portugal teria 268 quilómetros de vias férreas electrificadas e pouparia dois terços das emissões de CO2 do transporte ferroviário.
Atrasos no Ferrovia 2020 custam 2,4 milhões em emissões de CO2
Cada dia de atraso representa 14 mil litros de gasóleo e 35 toneladas de CO2
Como é que chegaram ao número de 2,4 milhões de euros?
Calcularam as emissões totais de CO2 se as três linhas continuassem com diesel até ao fim dos atrasos previstos — 45.626 toneladas — e depois aplicaram um factor de dois terços, porque comboios eléctricos emitem três vezes menos CO2. Isso dá 3,7 milhões de euros em custos ambientais evitáveis, e dois terços disso são 2,4 milhões.
Mas isso assume que o preço da tonelada de CO2 é constante. Qual é o valor unitário que usaram? E é o preço de mercado ou uma estimativa de custo social?
Porque é que os atrasos chegaram aos quatro anos e três meses?
O artigo não explica as razões específicas dos atrasos. Apenas constata que aconteceram e que as previsões apontam para um total de nove anos e meio.
Isso é importante. Sem saber se foram atrasos orçamentais, administrativos ou técnicos, fica difícil avaliar se isto é um problema de planeamento ou de execução.
A DPD em Lisboa está a fazer bem, então?
Sim, operou com frota 100% eléctrica e aproveita o carregamento nocturno em regime bi-horário. Francisco Ferreira da Zero diz que é mais barato e é o caminho a seguir.
Mas a DPD é uma empresa privada com modelo de negócio específico. Os CTT vão na mesma linha, mas lentamente. Os táxis não têm medidas integradas. Há uma diferença enorme entre o que é possível para uma empresa de distribuição e o que é viável para táxis que circulam 24 horas.
A Carris tem 15 eléctricos em 740. Isso é muito pouco?
É residual. Mas a empresa comprometeu-se com 100% eléctrica até 2040 e quer maioria eléctrica em 2030. Começam a chegar 15 novos articulados eléctricos no próximo ano.
O ritmo é lento. Se têm 15 agora e querem maioria em 2030, precisam de acelerar significativamente. E 2040 para 100% é uma data muito distante.
O que é que a guerra na Ucrânia tem a ver com isto?
Álvaro Costa alerta que pode desviar recursos. Os orçamentos de defesa aumentam, a reconstrução ucraniana absorve fundos, e a prioridade passa a ser a independência energética da Rússia, não a descarbonização dos transportes.
Mas isso é especulação sobre o futuro. O que sabemos é que a guerra começou há pouco e ainda não há decisões concretas sobre cortes em financiamento de mobilidade sustentável.
Um avião emite 14 vezes mais CO2 que um comboio?
Sim, por passageiro e por quilómetro. É por isso que o movimento Back on Track defende comboios nocturnos para substituir voos de 800 a 1500 quilómetros.
Esse número é para aviões comerciais típicos? Há variação consoante o tipo de avião, ocupação, e tipo de comboio. É um número útil para comparação, mas não é absoluto.
Der Puls
- Atrasos de 4 anos e 3 meses no Ferrovia 2020, com previsão de 9 anos e meio no total
- 268 quilómetros de vias férreas que deveriam estar electrificadas
- 30 mil toneladas de CO2 emitidas e 2,4 milhões de euros em custos ambientais evitáveis
- Carris tem 15 autocarros eléctricos em 740; STCP tem 20 em 420
- Um avião emite 14 vezes mais CO2 por passageiro-quilómetro que um comboio
Cada dia de atraso no Ferrovia 2020 representa 14 mil litros de gasóleo consumidos e 35 toneladas de CO2 emitidas nas linhas do Algarve, Oeste e Douro. Se as três linhas já estivessem electrificadas, Portugal teria 268 quilómetros de vias férreas electrificadas e pouparia dois terços das emissões de CO2 do transporte ferroviário.
Atrasos de quatro anos no programa Ferrovia 2020 obrigam a CP a manter comboios a diesel em três linhas, gerando 30 mil toneladas de CO2 e custos de 2,4 milhões de euros que poderiam ser evitados com electrificação.
Os atrasos na modernização ferroviária portuguesa têm um preço que se mede em toneladas de carbono. Enquanto o programa Ferrovia 2020 deveria ter trazido comboios eléctricos para as linhas do Algarve, Oeste e Douro, o material a diesel continua a rodar nos carris. A conta é simples e pesada: cada dia que passa representa 14 mil litros de gasóleo consumidos e 35 toneladas de CO2 emitidas. Desde o início dos atrasos, já se acumularam quatro anos e três meses de espera, com previsões de que o atraso total chegue aos nove anos e meio.
O impacto ambiental desta demora é substancial. Se as três linhas já tivessem sido electrificadas conforme planeado, Portugal teria hoje 268 quilómetros adicionais de vias férreas com tracção eléctrica. Em vez disso, a manutenção de comboios a diesel neste período equivale a 45.626 toneladas de CO2 emitidas, com um custo ambiental de 3,7 milhões de euros. Considerando que a energia eléctrica também tem custos ambientais — comboios eléctricos emitem três vezes menos CO2 que os movidos a diesel — o cálculo conservador aponta para uma perda de 2,4 milhões de euros em emissões evitáveis. Os números tornam-se ainda mais preocupantes quando se inclui o transporte de mercadorias, particularmente na linha Évora-Elvas, que deveria estar concluída desde 2019 e cujos atrasos geram milhões de toneladas adicionais de CO2 não contabilizadas nesta análise.
O material circulante que continua em serviço é velho e ineficiente. Os comboios do Algarve consomem 126 litros de gasóleo por cem quilómetros, enquanto os do Oeste e Douro gastam 191 litros. As locomotivas da linha do Douro chegam aos 228 litros por cem quilómetros. Anualmente, a CP gasta 1,4 milhões de litros no Algarve, 2,7 milhões no Douro e 2,1 milhões no Oeste. Esta ineficiência não é apenas uma questão ambiental — é também económica e operacional, justificando a urgência de substituição por unidades eléctricas.
A descarbonização dos transportes é central para os objectivos europeus de neutralidade climática até 2050. Em Portugal, o Plano Nacional Integrado 2030 prevê a electrificação de praticamente toda a rede ferroviária nacional, incluindo os troços em falta do Oeste e Douro. Contudo, especialistas alertam que a prioridade não pode ser apenas o comboio. Francisco Ferreira, da organização Zero, sublinha que no transporte rodoviário a descarbonização das frotas é essencial — autocarros, táxis, veículos de distribuição e plataformas como a Uber. Os táxis de Lisboa, cerca de 3000, circulam o dia todo e representam uma oportunidade significativa. A DPD já opera em Lisboa com frota 100% eléctrica, aproveitando o carregamento nocturno. A Uber estabeleceu que até 2025, em sete capitais europeias incluindo Lisboa, metade dos quilómetros terão de ser feitos em veículos com emissão zero, e já não admite novos condutores com carros a combustão.
Os autocarros urbanos são outro campo de batalha. Na Carris, apenas 15 dos 740 autocarros são eléctricos, embora a empresa tenha fixado 2040 como limite para 100% de frota eléctrica. Em 2030 quer que a maioria seja eléctrica. Nos STCP, são apenas 20 em 420, mas uma candidatura ao Plano de Recuperação e Resiliência permitirá adquirir mais 48 em 2023, com objectivo de 156 eléctricos até 2027. Paris e Londres lideram as boas práticas europeias, com Paris a criar zonas centrais interditas a veículos a combustão.
Mas há nuvens no horizonte. Álvaro Costa, professor da Faculdade de Engenharia do Porto, avisa que a guerra na Ucrânia pode inverter as prioridades europeias. Os orçamentos de defesa aumentam — a Alemanha tende para 2% do PIB — e os recursos para descarbonização dos transportes podem diminuir. A reconstrução ucraniana absorverá fundos, e a dependência energética da Rússia desvia o foco para a indústria e produção energética. Há mesmo quem defenda um compasso de espera na transição energética ou até um aumento da produção petrolífera. Em Portugal, houve propostas de reabrir a central a carvão do Pego. Sem políticas correctas nos transportes, porém, não haverá transição energética possível.
O movimento cívico Back on Track defende o regresso dos comboios nocturnos e o aumento das ligações ferroviárias transfronteiriças, argumentando que um avião emite 14 vezes mais CO2 por passageiro e quilómetro que um comboio. A CP disponibiliza um simulador ambiental que mostra as vantagens: numa viagem de Intercidades Porto-Lisboa, as emissões são 4,92 kg de CO2 por passageiro, enquanto de automóvel chegam aos 39,22 kg. No transporte de mercadorias, a Medway demonstra que transportar 100 toneladas em comboio entre Leixões e Bobadela reduz emissões em 1,9 toneladas face ao camião — uma poupança de 69%. A Medway já realiza 86% da sua operação com tracção eléctrica em Portugal, mas em Espanha apenas 13% da quilometragem é feita com comboios eléctricos. O caminho está traçado, mas a velocidade de implementação permanece incerta.
Bemerkenswerte Zitate
Eles têm a possibilidade de carregar durante a noite, em regime bi-horário, e circular durante o dia. É mais barato e é este o caminho a seguir.— Francisco Ferreira, Zero, sobre o modelo da DPD em Lisboa
Sem políticas correctas nos transportes, que é um sector altamente poluidor, não haverá transição energética.— Álvaro Costa, Faculdade de Engenharia do Porto