Na Avenida Paulista, a direita brasileira reuniu-se por um dia em torno da bandeira da anistia, revelando não apenas força de mobilização, mas também a geometria frágil de um acordo não dito: governadores com ambições presidenciais ofereceram apoio à causa de Bolsonaro em troca de seu respaldo em 2026. O gesto foi eloquente, mas os alicerces permanecem instáveis — pois entre a demonstração de força e a construção de uma maioria real há um abismo que nenhum palanque, por maior que seja, consegue sozinho transpor.
Ato pró-anistia na Paulista: demonstração de força da direita, mas sem acordos consolidados
Força sim, acordos consolidados não
O ato na Paulista realmente mudou algo na política brasileira, ou foi apenas teatro?
Mudou a percepção de força. Mostrou que a direita consegue se mobilizar e que governadores com ambições presidenciais estão dispostos a conversar com Bolsonaro. Mas mudança concreta? Ainda não.
Precisamos ser precisos: quantos votos a anistia tem garantidos na Câmara agora? O texto não diz.
Exatamente. Os governadores não controlam suas bancadas. Vão tentar buscar votos no varejo, mas não há garantia.
Então Bolsonaro está usando esses governadores para manter seu protagonismo?
Ele está em uma posição confortável. Pode ser candidato, pode apoiar alguém, pode esperar. Quanto mais espera, mais poder tem.
Mas há um risco real para ele: se desistir de concorrer para apoiar um aliado, perde o centro das atenções. Alguns bolsonaristas temem isso.
E Tarcísio? Parece ser o favorito.
Tem sinais positivos — elogios de Bolsonaro, aprovação de Michelle. Mas Bolsonaro não confirmou nada. Tarcísio também teria que resolver sua sucessão em São Paulo.
E São Paulo tem muitos nomes conservadores em jogo. Nunes, Kassab, Derrite. Não é simples.
Então o ato foi uma demonstração de força sem acordos reais?
Exatamente. Força sim, acordos consolidados não. Todos saem de lá com mais poder de negociação, mas ninguém fechou nada.
Le Pouls
- A manifestação na Paulista reuniu quatro governadores com ambições presidenciais, transformando um ato pró-anistia em vitrine de negociação política para 2026.
- O acordo implícito — apoio à anistia dos acusados do 8 de janeiro em troca de eventual benção bolsonarista — nunca foi dito em voz alta, mas pautou cada discurso e cada abraço no palco.
- A fragilidade do pacto é imediata: os governadores não controlam suas bancadas na Câmara com força suficiente para garantir a aprovação da anistia, que terá de ser conquistada voto a voto.
- Bolsonaro preserva deliberadamente seu protagonismo, recusando-se a escolher um nome antes do fim de 2025 e mantendo intacto seu poder de veto sobre o campo da direita.
- A direita unida permanece mais promessa do que realidade — a tendência aponta para uma profusão de candidatos, com alianças possíveis apenas no segundo turno, e mesmo isso sem garantia.
Na Avenida Paulista, a direita brasileira reuniu-se por um dia em torno da bandeira da anistia, revelando não apenas força de mobilização, mas também a geometria frágil de um acordo não dito: governadores com ambições presidenciais ofereceram apoio à causa de Bolsonaro em troca de seu respaldo em 2026. O gesto foi eloquente, mas os alicerces permanecem instáveis — pois entre a demonstração de força e a construção de uma maioria real há um abismo que nenhum palanque, por maior que seja, consegue sozinho transpor.
O ato de domingo na Avenida Paulista entregou uma mensagem que transcendeu o tema da anistia: a direita brasileira é capaz de se reunir, e essa demonstração não passou despercebida nem entre quem não compareceu. O que se viu foi o esboço de um acordo entre Bolsonaro e governadores que já miram 2026 com ambições próprias.
Os termos eram claros em intenção, vagos em detalhes. Tarcísio de Freitas, Ronaldo Caiado, Romeu Zema e Ratinho Jr. sinalizavam disposição de avançar com a proposta de anistia para os acusados pelo 8 de janeiro, reforçando a narrativa de que não houve tentativa de golpe. Em troca, esperavam que Bolsonaro — caso permaneça inelegível — apoiasse o nome com melhores condições de derrotar Lula. Uma troca de favores clássica, ainda sem assinatura.
O problema é que o acordo esbarra na realidade. Os governadores não dominam suas bancadas na Câmara com força suficiente para aprovar a anistia de forma unificada — terão de negociar voto a voto. Bolsonaro, por sua vez, não tem pressa: mantém-se como o candidato em potencial, preservando seu protagonismo e poder de barganha pelo menos até o fim de 2025. Apoiadores mais leais temem que, ao abrir mão da candidatura, ele perca justamente o que o define politicamente.
Tarcísio foi o mais estratégico no palanque, puxando um 'volta Bolsonaro' que agradou ao ex-presidente, que retribuiu com elogios diretos. Michelle Bolsonaro o chamou de 'melhor ministro' do governo anterior. A proximidade não é casual — se Bolsonaro quiser Tarcísio como seu representante em 2026, precisará decidir ainda este ano, pois o governador teria de organizar sua própria sucessão em São Paulo, onde nomes conservadores não faltam.
O ato encerrou com todas as pontes abertas e ninguém verdadeiramente comprometido. A anistia segue sem votos garantidos. Os candidatos potenciais continuam em seus postos, observando. E Bolsonaro mantém intacta sua capacidade de ditar o ritmo — enquanto o desfecho desta temporada política permanece, deliberadamente, adiado.
O ato de domingo na Avenida Paulista deixou uma mensagem clara: a direita brasileira conseguiu se reunir, pelo menos por um dia, e essa demonstração de força não passou despercebida nem mesmo entre quem não compareceu ou não simpatiza com Bolsonaro. O que se viu foi mais do que um comício pró-anistia. Foi o esboço de um acordo entre o ex-presidente e um grupo de governadores que já olham para 2026 com ambições próprias.
O acordo informal tinha seus termos bem definidos, ainda que nunca fossem ditos em voz alta. Os gestores estaduais presentes — entre eles Tarcísio de Freitas, de São Paulo; Ronaldo Caiado, de Goiás; Romeu Zema, de Minas Gerais; e Ratinho Jr., do Paraná — sinalizavam disposição de levar adiante a proposta de anistia para os acusados pelos eventos de 8 de janeiro de 2023, reforçando a narrativa de que não houve golpe de Estado. Em troca, esperavam que Bolsonaro, caso permanecesse inelegível, apoiasse quem estivesse em melhores condições de derrotar Lula na eleição presidencial. Era uma troca de favores política, clara em sua intenção, vaga em seus detalhes.
Mas há um problema: esses acordos estão longe de se transformarem em realidade. Os governadores não controlam suas bancadas na Câmara dos Deputados com força suficiente para forçar uma aprovação unificada da anistia. Terão que buscar votos um a um, negociando no varejo. Bolsonaro, por sua vez, está plenamente ciente de seu poder político e não tem pressa em escolher um nome para apoiar. Ele se mantém como o candidato — aquele que ainda pode concorrer, aquele que ainda é o centro das atenções. Essa posição lhe convém, e tudo indica que ele a preservará pelo menos até o fim de 2025. Alguns de seus apoiadores mais leais temem que, se ele desistir de concorrer para apoiar um aliado, perca o protagonismo que tanto o define.
A tão sonhada união dos partidos de direita segue sendo um horizonte distante. O que existe de mais concreto nesse sentido é um projeto de federação entre União Brasil, liderada por Antônio Rueda, e o PP, sob comando do senador Ciro Nogueira. Se Bolsonaro não se apresentar como candidato, a tendência é que surja uma profusão de nomes concorrendo, cada um buscando seu espaço, com a possibilidade de alianças apenas no segundo turno — e mesmo isso é incerto.
Entre os sete governadores presentes no ato, pelo menos quatro são considerados potenciais candidatos ao Planalto. Tarcísio foi particularmente estratégico em sua fala, puxando um "volta Bolsonaro" que agradou ao ex-presidente. Michelle Bolsonaro o chamou de "melhor ministro" do governo anterior, e ele recebeu elogios diretos de Jair. Essa proximidade não é casual. Se Bolsonaro quiser Tarcísio como seu representante na corrida de 2026, precisará tomar essa decisão ainda este ano, porque o governador paulista teria que preparar sua própria sucessão em São Paulo — um estado onde conservadores têm nomes em abundância, do prefeito Ricardo Nunes ao presidente do PSD, Gilberto Kassab, passando pelo secretário de Segurança Pública, Guilherme Derrite.
O ato terminou deixando todos em campo e com as pontes abertas. Ninguém se comprometeu de verdade, ninguém fechou portas. Mas também ninguém avançou de forma concreta. A anistia segue sem ter votos garantidos na Câmara. Os candidatos potenciais continuam em suas posições, observando, esperando. Bolsonaro mantém seu poder de veto e sua capacidade de negociação intactos. Estamos ainda muito longe do desfecho desta temporada política — seja para a questão da anistia, seja para a definição de quem realmente concorrerá pela direita em 2026.
Citations marquantes
Se conseguir praticar a união que promoveu ontem, dificultará e muito a vida de Lula na campanha reeleitoral— Análise do ato