A doença não se distribui ao acaso pelo território: ela segue os contornos invisíveis dos hábitos, das dietas e das histórias partilhadas entre povos vizinhos. Um atlas conjunto do INSA português e do Instituto de Saúde Carlos III espanhol mapeou, município a município, a mortalidade por cancro na Península Ibérica entre 2003 e 2012, revelando onde a morte por tumores supera o esperado — e porque isso importa para o futuro da saúde pública. O estudo não responde a todas as perguntas, mas traça com rigor o mapa das que ainda precisamos de fazer.
Atlas revela padrões de mortalidade por cancro em Portugal e Espanha por região
Os padrões de risco não respeita fronteiras
Porque é que a geografia importa tanto para o cancro? Não é apenas uma questão de genética?
A genética é parte da história, mas o sítio onde vivemos molda muito mais do que pensamos. O que comemos, o ar que respiramos, se fumamos, quanto álcool bebemos — tudo isto varia de região para região.
Mas o estudo é de 2003 a 2012. Estamos em 2022. Quanto destes padrões ainda são válidos?
Carlos Dias explicou que os padrões de distribuição do cancro não se alteram drasticamente de um ano para o outro. Mantêm uma tendência relativa que permanece estável durante anos.
Então o Porto ter o maior risco de morte por cancro do pulmão — isso significa que há algo específico no Porto?
Pode ser. Pode ser poluição, pode ser hábitos de fumo, pode ser acesso aos cuidados. O atlas não diz porquê, apenas mostra que está lá.
E quanto ao cancro do estômago em Portugal ser muito mais mortal do que em Espanha? Isso é estranho.
É. Sugere que há diferenças em comportamentos, estilos de vida ou acesso aos cuidados de saúde entre os dois países que não estão presentes noutros tipos de cancro.
O que é que o atlas não nos diz?
Não nos diz as causas. Mostra as manchas de risco, mas não explica porque é que existem. É um mapa, não uma resposta.
Exactamente. Por isso é que abre pistas para investigação futura. Os investigadores estão a dizer: olhem para isto, há algo aqui que precisa de ser estudado.
E o atraso na publicação — quanto tempo perdemos?
Nove anos entre o fim dos dados e a publicação. A pandemia atrasou, mas ainda assim é um intervalo considerável para um estudo de saúde pública.
Der Puls
- O cancro do pulmão mata mais do que qualquer outro tumor em Portugal e Espanha, e em Portugal a tendência é de agravamento em ambos os sexos desde 2001 — ao contrário de Espanha, onde os homens já mostram sinais de melhoria.
- Portugal regista uma mortalidade por cancro do estômago muito superior à de Espanha, sem um padrão geográfico claro, sugerindo diferenças profundas em comportamentos, dieta e acesso aos cuidados de saúde.
- O cancro colorretal, o mais diagnosticado em 2018, concentra o seu risco de morte no sul do país e no Alentejo, numa tendência que investigadores associam ao aumento do consumo de tabaco, álcool e carnes processadas.
- O Porto destaca-se como a região com maior risco relativo de morte por cancro do pulmão, enquanto o cancro da mama pesa mais sobre o Sul — Lisboa, Alentejo e Algarve — do que sobre o Norte.
- A publicação do atlas sofreu atrasos causados pela pandemia de covid-19, que absorveu as equipas de investigação, mas os autores sublinham que os padrões geográficos do cancro mantêm relevância ao longo de vários anos.
A doença não se distribui ao acaso pelo território: ela segue os contornos invisíveis dos hábitos, das dietas e das histórias partilhadas entre povos vizinhos. Um atlas conjunto do INSA português e do Instituto de Saúde Carlos III espanhol mapeou, município a município, a mortalidade por cancro na Península Ibérica entre 2003 e 2012, revelando onde a morte por tumores supera o esperado — e porque isso importa para o futuro da saúde pública. O estudo não responde a todas as perguntas, mas traça com rigor o mapa das que ainda precisamos de fazer.
A geografia do cancro não é obra do acaso. Um atlas publicado em conjunto pelo Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge e pelo Instituto de Saúde Carlos III de Espanha mapeou a mortalidade por tumores na Península Ibérica entre 2003 e 2012, concelho a concelho, para identificar onde a morte por cancro supera o que seria estatisticamente esperado. O objectivo é lançar hipóteses sobre os factores subjacentes — tabaco, álcool, dieta, estilos de vida — que moldam estes padrões.
Portugal e Espanha partilham alguns riscos, mas divergem noutros. O cancro do esófago mata mais do que o esperado no Norte de ambos os países; o cancro da laringe concentra-se no Sul, sobretudo nos homens, apontando para o papel do tabaco e do álcool. Já o cancro do estômago conta uma história diferente: Portugal regista uma mortalidade muito superior à de Espanha, distribuída por todo o território sem um padrão geográfico definido, sugerindo diferenças em comportamentos e acesso aos cuidados de saúde.
O cancro do pulmão é o mais mortífero em ambos os países. Em Portugal, ao contrário de Espanha, o número de mortes tem vindo a aumentar em ambos os sexos desde 2001 — em 2018, matou 3654 homens e 1017 mulheres. O Porto é a região com maior risco relativo de morte. O cancro colorretal, o mais diagnosticado em 2018 e o segundo mais mortal, pesa mais sobre o Sul e o Alentejo, numa tendência ligada ao consumo de tabaco, álcool e carnes processadas.
Nas mulheres, o cancro da mama é o de maior incidência e o segundo mais mortal: 6974 novos casos e 1748 mortes em 2018, com maior impacto no Sul do país. O cancro do pâncreas concentra-se na região de Lisboa e Vale do Tejo, associado a factores genéticos, enquanto o cancro da bexiga regista um aumento de mortes sem padrão regional definido.
Os autores reconhecem que os dados cobrem o período 2003-2012 — um intervalo explicado pela complexidade de homogeneizar metodologias entre dois países e agravado pelos atrasos causados pela pandemia. Ainda assim, sublinham que os padrões de distribuição do cancro são suficientemente estáveis para manter relevância ao longo de uma década, e que o atlas abre pistas valiosas para investigação futura sobre comportamento, ambiente e acesso à saúde.
A geografia do cancro não é acidental. Onde vivemos, como vivemos, o que comemos e respiramos — estas coisas deixam marcas mensuráveis na forma como a doença nos mata. Um atlas publicado em conjunto pelo Instituto Nacional de Saúde Doutor Ricardo Jorge e pelo Instituto de Saúde Carlos III de Espanha mapeou precisamente estas marcas, estudando a mortalidade por cancro em Portugal e Espanha entre 2003 e 2012, município por município, para revelar onde a morte por tumores é mais frequente do que seria de esperar.
O trabalho funciona como um mapa de risco. Os investigadores calcularam, para cada concelho da Península Ibérica, se a mortalidade causada por um determinado tipo de cancro estava acima ou abaixo do esperado. Isto permite lançar hipóteses sobre os factores subjacentes — o tabaco, o álcool, a dieta, os hábitos de vida — que podem estar a moldar estes padrões. Carlos Dias, coordenador do Departamento de Epidemiologia do INSA e um dos autores do estudo, explicou que o atlas olha para a mortalidade ao nível dos municípios para calcular se, comparativamente ao que seria previsível, a morte num determinado lugar está acima ou abaixo do esperado.
Os dados revelam que Portugal e Espanha partilham factores de risco comuns, mas nem sempre nos mesmos sítios. O cancro do esófago mata mais do que o esperado no Norte de ambos os países. O cancro da laringe concentra-se no Sul, particularmente nos homens, sugerindo um papel importante do tabaco e do álcool — dois factores de risco bem conhecidos que atravessam fronteiras. Mas o cancro do estômago conta uma história diferente: em Portugal, a mortalidade é muito superior ao esperado em comparação com Espanha, apontando para diferenças em comportamentos, estilos de vida e acesso aos cuidados de saúde que distinguem os dois países. O cancro do estômago estende-se por todo o território nacional português sem um padrão geográfico claro.
O cancro do pulmão é o mais mortífero em ambos os países, e aqui Portugal enfrenta uma tendência preocupante. Enquanto Espanha registou uma diminuição de mortes em homens e um aumento em mulheres, Portugal vê o número de mortes a subir em ambos os sexos desde 2001. Em 2018, o cancro do pulmão matou 3654 homens e 1017 mulheres em Portugal. O Porto emerge como a região com o maior risco relativo de morte, enquanto o Interior, o Centro, Lisboa e Vale do Tejo e o norte do Alentejo registam menor prevalência.
O cancro colorretal foi o mais diagnosticado em ambos os países em 2018, e o segundo mais mortal. O risco de morte é maior no sul de Portugal e no centro do Alentejo, com menor incidência no Norte e Interior. O estudo sugere que o crescimento desta doença nos últimos anos pode estar ligado ao aumento do consumo de tabaco, bebidas alcoólicas e carnes vermelhas ou processadas. O cancro da próstata, terceiro mais mortal para os homens portugueses, registou 6609 novos casos e 1879 mortes em 2018, distribuindo-se de forma relativamente uniforme pelo país.
O cancro da mama é o de maior incidência em Portugal quando se consideram apenas as mulheres, e o segundo mais mortal para elas. Em 2018, foram diagnosticados 6974 novos casos e registaram-se 1748 mortes. Geograficamente, o Sul — particularmente Lisboa, Alentejo e Algarve — sofre mais vítimas, enquanto o Norte tem menor incidência. O cancro do pâncreas concentra-se na região de Lisboa e Vale do Tejo, com destaque para a capital e Cascais, reflectindo uma ligação a factores genéticos. O cancro da bexiga mostra um aumento crescente no número de mortes, mas sem um padrão regional específico.
Este atlas abre pistas para investigação futura. Os padrões geográficos identificados sugerem que há muito a aprender sobre como o comportamento, o ambiente e o acesso aos cuidados de saúde moldam a distribuição da doença. A publicação sofreu atraso em parte devido à pandemia de covid-19, que mobilizou quase totalmente as equipas de investigação. A necessidade de ajustar metodologias e homogeneizar dados entre os dois países explica o intervalo de tempo entre 2003 e 2012. Carlos Dias sublinhou que os dados de mortalidade específicos por causa são muito mais demorados de processar do que os de mortalidade geral, mas que os padrões de distribuição do cancro não se alteram drasticamente de um ano para o outro — mantêm uma relativa tendência que não perde actualidade num espaço de cinco ou dez anos.
Bemerkenswerte Zitate
Os padrões de distribuição do cancro não se alteram de um ano para o outro, mantêm uma relativa tendência que não perde actualidade num espaço de cinco, dez anos— Carlos Dias, coordenador do Departamento de Epidemiologia do INSA
A mortalidade por cancro de estômago é muito superior ao esperado em Portugal do que na generalidade de Espanha, abrindo caminho a factores de comportamento, estilos de vida e acesso aos cuidados de saúde que são diferentes— Carlos Dias