No coração do nordeste da República Democrática do Congo, onde décadas de conflito transformaram florestas em campos de batalha e campos de refugiados em alvos, a milícia Codeco voltou a derramar sangue civil — desta vez em Drodo e Lugu, matando pelo menos 107 pessoas entre domingo e segunda-feira de novembro de 2021. O ataque, que incendiou casas de deslocados internos já despojados de tudo, revela a crueldade de um ciclo de violência que nem o estado de sítio nem milhares de capacetes azuis da ONU conseguiram interromper. Nesta região onde mais de 120 grupos rebeldes disputam poder e sobrevi
Ataque rebelde na RDCongo mata pelo menos 107 civis em campo de deslocados
O campo de deslocados em Drodo foi incendiado, transformando tudo em cinzas
Por que é que um grupo como a Codeco consegue manter-se operacional durante tanto tempo, apesar da presença de forças de paz?
Porque a Monusco está espalhada por um território imenso e os rebeldes conhecem a floresta melhor do que qualquer soldado estrangeiro. Além disso, há 122 grupos armados na região — é impossível estar em todo o lado ao mesmo tempo.
O estado de sítio declarado em abril não funcionou?
Não. Matou mais de mil civis nos sete meses seguintes. O estado de sítio é uma ferramenta militar, não uma solução para a falta de oportunidades económicas que leva as pessoas a aderir a grupos rebeldes.
A Codeco começou com um objetivo legítimo — combater abusos militares. Como é que se tornou numa milícia que mata civis?
Essa é a trajetória de muitos grupos rebeldes. Começam com uma causa, ganham poder, e depois o poder corrompe. Ou talvez a causa nunca tenha sido tão legítima quanto parecia.
O que significa para as pessoas que vivem em campos de deslocados como Drodo?
Significa que não há lugar seguro. Já perderam as suas casas uma vez. Agora perdem-nas novamente, desta vez em chamas, e não há para onde ir.
Há alguma perspetiva de mudança?
Enquanto houver pobreza extrema e ausência de oportunidades, haverá rapazes dispostos a pegar em armas. A Codeco é apenas a segunda milícia mais mortífera. Há 120 outras.
El Pulso
- A milícia Codeco atacou durante dois dias seguidos um campo de deslocados internos e aldeias vizinhas em Ituri, matando pelo menos 107 civis — número que pode crescer porque os rebeldes ainda controlam a floresta ao redor.
- O campo de Drodo foi incendiado, reduzindo a cinzas as últimas posses de populações que já haviam fugido de outras violências — um golpe duplo contra quem já não tinha para onde recuar.
- A busca pelos corpos está bloqueada pela presença contínua dos atacantes na região, mantendo famílias e autoridades numa angustiante incerteza sobre a verdadeira dimensão da tragédia.
- O estado de sítio declarado pelo governo congolês em abril não impediu a morte de mais de mil civis nos sete meses seguintes, expondo a fragilidade das respostas institucionais a uma crise que se aprofunda.
- Com raízes desde 1998 e mais de 122 grupos armados ativos, o leste do Congo permanece numa espiral de violência que a presença de 14 mil soldados da Monusco não conseguiu conter.
No coração do nordeste da República Democrática do Congo, onde décadas de conflito transformaram florestas em campos de batalha e campos de refugiados em alvos, a milícia Codeco voltou a derramar sangue civil — desta vez em Drodo e Lugu, matando pelo menos 107 pessoas entre domingo e segunda-feira de novembro de 2021. O ataque, que incendiou casas de deslocados internos já despojados de tudo, revela a crueldade de um ciclo de violência que nem o estado de sítio nem milhares de capacetes azuis da ONU conseguiram interromper. Nesta região onde mais de 120 grupos rebeldes disputam poder e sobrevivência, os mais vulneráveis continuam a pagar o preço mais alto.
Entre domingo e segunda-feira de novembro de 2021, a milícia Codeco atacou o campo de deslocados internos de Drodo e aldeias vizinhas no território de Irumu, província de Ituri, no nordeste da República Democrática do Congo. Pelo menos 107 civis foram mortos — um número que Jean Bosco Lalo, representante da sociedade civil local, alertou poder ser ainda maior. O campo de Drodo foi incendiado, destruindo as casas dos refugiados que ali viviam em condições já precárias.
A incerteza persiste porque os rebeldes continuam presentes na floresta circundante, impedindo buscas sistemáticas pelos corpos. O porta-voz do exército em Ituri confirmou inicialmente apenas 12 mortos no campo — um número rapidamente superado pela realidade no terreno. Líderes comunitários de várias aldeias atacadas corroboraram a dimensão da tragédia.
A Codeco surgiu em 2018 alegando combater abusos do exército congolês, mas tornou-se responsável por pelo menos 229 mortes em quase 250 ataques, sendo hoje a segunda milícia mais mortífera da região. Este episódio insere-se numa escalada que levou o governo a declarar estado de sítio em abril — medida que, apesar de uma maior presença militar, não impediu a morte de mais de mil civis nos sete meses seguintes.
O leste do Congo carrega décadas de conflito alimentado por dezenas de grupos armados, pobreza estrutural e a ausência de alternativas económicas. A missão de paz da ONU, com mais de 14 mil soldados, não conseguiu travar a violência numa região onde pelo menos 122 milícias operam. Os ataques a campos de deslocados internos revelam como os mais vulneráveis se tornaram alvos preferenciais numa crise humanitária sem fim à vista.
No nordeste da República Democrática do Congo, um grupo rebelde pouco conhecido chamado Codeco atacou um campo de deslocados internos e aldeias vizinhas entre domingo e segunda-feira, deixando um rastro de morte que as autoridades locais ainda estão a tentar quantificar. Pelo menos 107 civis foram mortos nos ataques a Drodo e Lugu, ambas localizadas no território de Irumu, na província de Ituri — um número que Jean Bosco Lalo, representante local da sociedade civil, alertou que pode aumentar significativamente.
O ataque começou no domingo e prolongou-se durante todo o dia de segunda-feira, atingindo múltiplos locais no território de Djugu e especificamente o campo de deslocados internos de Drodo. O porta-voz do exército na província de Ituri, Tenente Jules Ngongo, confirmou que operações de busca no campo e arredores encontraram 12 civis mortos, mas este número inicial revelou-se rapidamente subestimado. Lalo explicou que o número elevado de vítimas reflete a natureza do alvo — um campo de deslocados internos onde populações vulneráveis já viviam em condições precárias.
A incerteza sobre o verdadeiro número de mortos persiste porque os rebeldes permanecem na região florestal circundante, impossibilitando buscas sistemáticas pelos corpos. Maki Bataga, representante dos jovens da cidade vizinha de Largu, advertiu que o número de vítimas poderia ser ainda maior pela mesma razão. Charité Banza, líder da sociedade civil de North Bahema, uma das aldeias atacadas, confirmou que o campo de deslocados em Drodo foi incendiado, transformando todas as casas dos refugiados em cinzas.
A Codeco surgiu em 2018 com o objetivo declarado de lutar contra os abusos do exército regular congolês, mas rapidamente se tornou responsável por numerosos assassinatos de civis. De acordo com o Kivu Security Tracker, uma entidade local de segurança, o grupo já matou pelo menos 229 pessoas em quase 250 ataques, consolidando-se como a segunda milícia mais mortífera da região. Este ataque de novembro representa apenas o episódio mais recente de uma escalada de violência que tem caracterizado Ituri e a vizinha Kivu do Norte.
As duas províncias registaram um aumento dramático de ataques rebeldes e mortes de civis durante o último ano, levando o governo congolês a declarar o estado de sítio no final de abril. Apesar desta medida e de uma maior presença militar, o Congo Research Group, um projeto de investigação independente, registou mais de mil civis mortos nos sete meses subsequentes — um número que ilustra a ineficácia das respostas até agora implementadas.
O conflito no leste da RDCongo tem raízes profundas. Desde 1998, a região tem sido palco de violência alimentada por milícias rebeldes e ataques de soldados do exército regular, apesar da presença da missão de manutenção da paz das Nações Unidas, a Monusco, que enviou mais de 14 mil soldados. A ausência de alternativas económicas e de meios de subsistência estáveis levou milhares de congoleses a pegar em armas, transformando a região num campo de batalha de pelo menos 122 grupos rebeldes diferentes. O ataque a Drodo e Lugu é sintomático de uma crise humanitária que continua a aprofundar-se, com populações deslocadas a tornarem-se alvos cada vez mais vulneráveis.
Citas Notables
O número é muito elevado e pode piorar, porque a tragédia ocorreu num campo de deslocados internos— Jean Bosco Lalo, representante local da sociedade civil
Os rebeldes estão na floresta e não há maneira de sair para procurar os corpos— Maki Bataga, representante dos jovens de Largu