No cruzamento entre o efémero e o eterno, um pulso de rádio com apenas milissegundos de duração atravessou mais de 10 mil milhões de anos de história cósmica antes de ser captado na África do Sul em março de 2024. A explosão rápida de rádio FRB 20240304B, a mais distante alguma vez localizada na sua galáxia de origem, convida a humanidade a contemplar um Universo jovem e turbulento, muito anterior à existência da Terra. Com o auxílio do telescópio James Webb, astrónomos de todo o mundo começam a decifrar não apenas a origem deste sinal, mas a própria distribuição da matéria ao longo da históri
Astrónomos detetam sinal de rádio com mais de 10 mil milhões de anos
Um sinal com milissegundos ilumina 10 mil milhões de anos
Como é que um sinal tão breve — apenas milissegundos — consegue viajar 10 mil milhões de anos sem se perder?
As ondas de rádio viajam à velocidade da luz, portanto a duração do sinal não é o problema. O que importa é que ele foi emitido com energia suficiente para atravessar todo esse espaço. O desafio real foi identificar de onde veio.
Mas espera — como é que sabem que o sinal tem realmente 10 mil milhões de anos? Isso é medido diretamente ou é uma estimativa baseada na distância?
É baseado na distância. Eles identificaram a galáxia de origem e mediram o desvio para o vermelho, que indica a distância e, portanto, o tempo que o sinal levou a chegar. A galáxia estava num estado que corresponde a quando o Universo tinha 3 mil milhões de anos.
E por que é que o James Webb foi necessário se o MeerKAT já tinha detetado o sinal?
O MeerKAT detetou a emissão de rádio, mas a galáxia era demasiado ténue para ser vista em luz visível ou ultravioleta. O James Webb observa no infravermelho, que consegue penetrar poeira e detectar objetos muito distantes e fracos.
Portanto, ainda não sabem realmente o que causa estas explosões? Falam de magnetares, mas dizem que pode não ser a explicação completa.
Exatamente. Os magnetares são uma hipótese plausível, mas há muitas FRB que ainda não têm explicação. Esta descoberta ajuda a investigar, mas não resolve o mistério.
E qual é o valor científico real de saber que existe matéria entre as galáxias?
Permite aos astrónomos mapear a distribuição de matéria no Universo — incluindo matéria escura e gás que é invisível aos telescópios convencionais. Cada sinal distante é como uma sonda que nos diz o que existe no caminho.
Mas quantas FRB precisam de encontrar antes de terem uma amostra estatisticamente significativa? Uma descoberta não é suficiente para tirar conclusões gerais.
Concordo. Por isso é que os astrónomos estão entusiasmados em procurar mais. Uma amostra maior permitirá comparações e padrões que uma única deteção não pode fornecer.
Le Pouls
- Um sinal de rádio com apenas milissegundos de duração chegou à Terra carregando informação de quando o Universo tinha apenas 3 mil milhões de anos — um recorde absoluto de distância para uma explosão rápida de rádio localizada.
- A galáxia de origem era demasiado ténue para telescópios terrestres, exigindo o poder do James Webb para revelar uma galáxia anã com formação estelar intensa e escassez de elementos pesados.
- A causa exata das FRB permanece incerta: os magnetares são a hipótese mais plausível, mas os cientistas admitem que nem todos os casos partilham o mesmo mecanismo.
- Ao longo do percurso do sinal foram identificadas estruturas de grupos de galáxias, incluindo um agrupamento até então desconhecido, transformando a deteção numa ferramenta de mapeamento cósmico.
- A comunidade astronómica aguarda novas deteções a distâncias ainda maiores, esperando construir uma amostra que permita comparar épocas cada vez mais remotas da história do Universo.
No cruzamento entre o efémero e o eterno, um pulso de rádio com apenas milissegundos de duração atravessou mais de 10 mil milhões de anos de história cósmica antes de ser captado na África do Sul em março de 2024. A explosão rápida de rádio FRB 20240304B, a mais distante alguma vez localizada na sua galáxia de origem, convida a humanidade a contemplar um Universo jovem e turbulento, muito anterior à existência da Terra. Com o auxílio do telescópio James Webb, astrónomos de todo o mundo começam a decifrar não apenas a origem deste sinal, mas a própria distribuição da matéria ao longo da história do cosmos.
No dia 4 de março de 2024, o radiotelescópio MeerKAT, na África do Sul, captou um pulso de rádio que viajou mais de 10 mil milhões de anos até à Terra. Designado FRB 20240304B, tornou-se a explosão rápida de rádio mais distante jamais localizada na sua galáxia de origem — um resultado publicado na revista Science por uma equipa internacional que inclui investigadores da Universidade de Sydney.
As FRB são fenómenos cósmicos brevíssimos: duram milissegundos, mas libertam energia extraordinária. Este sinal específico originou-se quando o Universo tinha apenas cerca de 3 mil milhões de anos, percorrendo assim mais de três quartos da história cósmica antes de ser detetado. Identificar a galáxia responsável exigiu o telescópio espacial James Webb, já que a fonte era demasiado ténue para instrumentos terrestres. As observações revelaram uma galáxia anã com intensa formação de estrelas e poucos elementos pesados — pistas valiosas sobre a origem destas explosões misteriosas.
A hipótese mais aceite aponta para os magnetares, estrelas de neutrões com campos magnéticos extremos, mas os cientistas reconhecem que este mecanismo pode não explicar todos os casos. O verdadeiro alcance da descoberta vai além do recorde: ao atravessar o espaço intergaláctico, o sinal interagiu com gás ionizado e plasma, e a análise dessas alterações permitiu identificar estruturas de grupos de galáxias ao longo do percurso — incluindo um agrupamento previamente desconhecido.
Cada FRB distante funciona assim como uma lanterna que ilumina a distribuição da matéria entre galáxias ao longo de milhares de milhões de anos. Os astrónomos esperam detetar sinais ainda mais antigos, transformando estas mensagens do passado remoto em instrumentos cada vez mais precisos para compreender a evolução do Universo.
No dia 4 de março de 2024, o radiotelescópio MeerKAT, instalado na África do Sul, captou um pulso de rádio tão antigo que viajou mais de 10 mil milhões de anos até chegar à Terra. Esse sinal, designado FRB 20240304B, tornou-se a explosão rápida de rádio mais distante jamais localizada na sua galáxia de origem — um marco que uma equipa internacional de astrónomos, incluindo investigadores da Universidade de Sydney, acaba de publicar na revista Science.
As explosões rápidas de rádio, conhecidas pela sigla FRB, são fenómenos cósmicos extremamente breves. Duram apenas alguns milissegundos, mas libertam quantidades extraordinárias de energia. A FRB 20240304B originou-se numa época em que o Universo tinha aproximadamente 3 mil milhões de anos — muito antes da Terra existir. Considerando que o Universo tem atualmente cerca de 13,8 mil milhões de anos, este sinal viajou através de mais de três quartos da história cósmica.
Identificar a galáxia responsável pela emissão revelou-se um desafio considerável. O MeerKAT conseguiu detetar o sinal, mas a galáxia de origem era demasiado ténue para ser observada pelos telescópios terrestres convencionais. Os investigadores recorreram então ao telescópio espacial James Webb, que utiliza observações no infravermelho para estudar objetos extremamente distantes. Os dados revelaram uma pequena galáxia anã com intensa atividade de formação de estrelas e uma quantidade relativamente reduzida de elementos pesados — características que ajudam a investigar a origem destas explosões misteriosas.
Uma das hipóteses científicas aponta para os magnetares, estrelas de neutrões com campos magnéticos extraordinariamente intensos que podem formar-se após a explosão de estrelas massivas. Contudo, os cientistas ainda não compreendem completamente a origem de todas as FRB, e não é possível concluir que este mecanismo explique todos os casos. A descoberta abre portas, mas também deixa questões em aberto.
A importância desta deteção vai muito além do recorde de distância. Durante o seu percurso até à Terra, o sinal atravessou regiões do espaço preenchidas de gás ionizado e plasma, alterando a forma como as ondas de rádio se propagam. Ao analisar essas alterações, os astrónomos conseguem estimar a quantidade de matéria atravessada pelo sinal — incluindo matéria que é difícil de observar diretamente com telescópios convencionais. Neste caso específico, os investigadores identificaram indícios associados a estruturas de grupos de galáxias ao longo do percurso da emissão, incluindo um agrupamento que não era conhecido anteriormente.
Este método transforma as explosões rápidas de rádio em ferramentas poderosas para estudar a distribuição da matéria no Universo. Cada nova deteção distante funciona como uma lanterna que ilumina como o gás se distribui entre galáxias e como estas estruturas evoluíram ao longo de milhares de milhões de anos. Os astrónomos esperam localizar mais explosões rápidas de rádio a distâncias ainda maiores. Com uma amostra mais alargada, será possível comparar características, investigar os mecanismos que lhes dão origem e estudar períodos cada vez mais antigos da história cósmica.
A FRB 20240304B demonstra que um sinal com apenas alguns milissegundos de duração pode transportar informação valiosa sobre mais de 10 mil milhões de anos de história do Universo. O que os astrónomos descobrirão a seguir dependerá da capacidade de detetar e analisar mais destes sinais antigos — cada um deles uma mensagem do passado distante.
Citations marquantes
Um sinal emitido quando a Terra ainda não existia, originário de uma época em que o Universo tinha aproximadamente 3 mil milhões de anos— Descrição do fenómeno no estudo
Os astrónomos esperam localizar mais explosões rápidas de rádio a distâncias ainda maiores para comparar características e investigar períodos cada vez mais antigos da história cósmica— Perspectiva futura da investigação