No Arizona, uma lei de 1864 que proibia o aborto em quase todas as circunstâncias foi revogada após semanas de turbulência jurídica e política. A governadora Katie Hobbs assinou a revogação de um texto nascido antes mesmo de o território se tornar estado — uma legislação que havia ressurgido como lei vigente após a Suprema Corte estadual revalidá-la, na esteira do fim da proteção federal garantida por Roe versus Wade. O episódio revela como o passado pode ser convocado para governar o presente, e como a fragilidade dos direitos conquistados exige vigilância contínua.
Arizona revoga lei antiaborto de 1864 após pressão política
Uma proibição aprovada por 27 homens, antes do Arizona ser estado
Por que essa lei de 1864 ainda existia nos livros do Arizona? Não deveria ter sido removida há muito tempo?
Estava tecnicamente nos livros, mas inativa — ninguém a aplicava. Quando a Suprema Corte dos EUA derrubou Roe versus Wade em 2022, criou um vácuo legal. A Suprema Corte do Arizona viu isso como uma oportunidade para reativar a lei antiga.
Mas espera — a corte estadual realmente acreditava que aquela lei de 1864 era a melhor opção? Ou estava apenas testando os limites?
A corte argumentou que, sem proteção federal, o estado tinha direito de aplicar suas próprias restrições. Tecnicamente correto, mas politicamente explosivo.
E como a governadora conseguiu reverter isso tão rápido?
Alguns republicanos no Senado e na Câmara votaram com os democratas. Dois no Senado, três na Câmara. Suficiente para passar.
Esses republicanos — eles votaram por princípio ou porque a lei era politicamente tóxica demais?
Provavelmente os dois. Uma lei que não faz exceção nem para estupro é difícil de defender publicamente, mesmo para conservadores.
Então o Arizona agora tem uma lei de 2022 que permite aborto até 15 semanas. Isso é considerado restritivo?
Muito restritivo comparado ao que era antes de Roe ser revogada. Mas menos extremo do que a lei de 1864. É um meio termo.
E o ponto é que esse meio termo pode mudar novamente, dependendo de quem estiver no poder e como as cortes decidam.
Então nada está realmente resolvido?
Nada está resolvido. Apenas adiado.
El Pulso
- A Suprema Corte do Arizona reativou em abril uma lei de 1864 que proibia o aborto desde a concepção, sem exceções para estupro ou incesto, lançando médicos e clínicas em estado de alarme.
- A perspectiva de penas de prisão para profissionais de saúde gerou onda de medo e incerteza no acesso a cuidados reprodutivos em todo o estado.
- A procuradora-geral e o presidente Biden reagiram com veemência, enquanto a pressão política se intensificava sobre legisladores republicanos em um estado historicamente dividido.
- Uma fissura na bancada republicana foi decisiva: dois senadores e três deputados do partido se uniram aos democratas para aprovar a revogação.
- Com a assinatura de Hobbs, o Arizona retorna à lei de 2022, que proíbe o aborto após 15 semanas — um alívio imediato, mas não o fim do debate sobre direitos reprodutivos.
No Arizona, uma lei de 1864 que proibia o aborto em quase todas as circunstâncias foi revogada após semanas de turbulência jurídica e política. A governadora Katie Hobbs assinou a revogação de um texto nascido antes mesmo de o território se tornar estado — uma legislação que havia ressurgido como lei vigente após a Suprema Corte estadual revalidá-la, na esteira do fim da proteção federal garantida por Roe versus Wade. O episódio revela como o passado pode ser convocado para governar o presente, e como a fragilidade dos direitos conquistados exige vigilância contínua.
Na quinta-feira, 2 de maio, a governadora democrata do Arizona, Katie Hobbs, assinou a revogação de uma lei de 1864 que proibia o aborto em praticamente todas as circunstâncias, inclusive em casos de estupro. A assinatura encerrou um episódio que havia abalado médicos, clínicas e mulheres no estado ao longo de poucas semanas.
Tudo começou quando a Suprema Corte estadual revalidou aquela legislação do século 19, argumentando que, após o Supremo dos EUA revogar Roe versus Wade, não havia mais impedimento para o Arizona aplicar a proibição histórica. O texto, inativo por décadas, ressurgiu como lei vigente — e com ele, a ameaça de multas e prisão de dois a cinco anos para médicos que realizassem o procedimento.
A reação foi imediata. A procuradora-geral Kris Mayes chamou a decisão de "inconcebível e um ultraje à liberdade". Biden a classificou como fruto de uma "agenda política extrema". No Senado estadual, dois republicanos se juntaram aos democratas para derrotar a lei; na Câmara, três haviam feito o mesmo dias antes.
Ao assinar a revogação, Hobbs foi direta sobre o peso histórico do momento: tratava-se de uma proibição aprovada por 27 homens, antes de o Arizona ser estado, numa época em que mulheres sequer podiam votar. O Arizona opera agora sob a lei de 2022, que veta o aborto após 15 semanas — uma restrição significativa, mas distante da proibição quase total que havia sido brevemente restaurada. O episódio deixou claro, porém, que mesmo sob governos democratas, direitos reprodutivos permanecem contestados e dependentes de decisões judiciais e da coragem política de legisladores dispostos a defendê-los.
Na quinta-feira, 2 de maio, a governadora democrata do Arizona, Katie Hobbs, assinou a revogação de uma lei de 1864 — um texto que datava de quando o território ainda não era estado — que proibia o aborto em praticamente todas as circunstâncias, inclusive em casos de estupro. A assinatura encerrou um episódio de apenas algumas semanas que havia abalado médicos, clínicas e mulheres no estado.
Tudo começou no início de abril, quando a Suprema Corte estadual revalidou aquela legislação do século 19. O tribunal argumentou que, uma vez que o Supremo dos Estados Unidos havia revogado a decisão Roe versus Wade — que garantia o direito ao aborto em nível federal — não havia mais impedimento legal para o Arizona aplicar a proibição quase total contida na lei histórica. O texto havia permanecido inativo por décadas, mas agora ressurgia como lei vigente.
A lei de 1864 era extrema em seus termos. Proibia o aborto a partir do momento da concepção, com uma única exceção: quando necessário para salvar a vida da mãe. Não havia margem para estupro, incesto ou qualquer outra circunstância. Médicos que realizassem o procedimento enfrentariam multas e penas de prisão de dois a cinco anos. Essa perspectiva gerou onda de incerteza e medo entre profissionais de saúde e clínicas que ofereciam cuidados reprodutivos no estado.
A reação foi rápida. A procuradora-geral do Arizona, Kris Mayes, democrata, chamou a decisão da corte de "inconcebível e um ultraje à liberdade", afirmando que o tribunal havia "arriscado a saúde e as vidas da população do Arizona". O presidente Joe Biden também se pronunciou, caracterizando a decisão como resultado da "agenda política extrema" de republicanos eleitos comprometidos em eliminar direitos reprodutivos das mulheres.
No Senado estadual, na quarta-feira, 1º de maio, dois republicanos se juntaram aos democratas para derrotar a lei. Na Câmara, três republicanos haviam votado da mesma forma no final de abril. Essa rachadura na coesão republicana foi significativa em um estado que historicamente oscila entre os dois partidos. Hobbs assinou a revogação logo após a aprovação no Senado.
Ao assinar, a governadora contextualizou o momento com clareza histórica. "Uma proibição aprovada por 27 homens, antes de o Arizona ser um estado, em uma época em que os EUA estavam em guerra pelo direito de ter escravos e em que mulheres nem podiam votar", disse ela. A frase capturava não apenas a antiguidade da lei, mas também seu caráter como artefato de um sistema político que excluía as mulheres completamente.
Agora o Arizona opera sob uma lei de 2022 que veta o aborto apenas após 15 semanas de gestação — uma restrição significativa, mas fundamentalmente diferente da proibição quase total que havia sido brevemente restaurada. O estado segue assim um caminho intermediário entre a proteção federal que existia antes de Roe ser revogada e as proibições totais que alguns estados implementaram. Mas o episódio deixou claro que, mesmo em estados com governadores democratas, o direito ao aborto permanece contestado e vulnerável, dependendo de decisões judiciais e da vontade política de legisladores dispostos a defendê-lo.
Citas Notables
Uma proibição aprovada por 27 homens, antes de o Arizona ser um estado, em uma época em que os EUA estavam em guerra pelo direito de ter escravos e em que mulheres nem podiam votar— Katie Hobbs, governadora do Arizona
O tribunal arriscou a saúde e as vidas da população do Arizona— Kris Mayes, procuradora-geral do Arizona