Argentina e a política de inimizade: além do futebol, a rivalidade que encobre histórias

O futebol encobre que Brasil e Argentina produziram mais intercâmbios que rivalidades
O artigo revela como narrativas coloniais mascaram a convergência estratégica entre os países nos anos 2000.
Mark

Por que o futebol se tornou o espaço onde essa política de inimizade ganha força?

Mimi

Porque o futebol é visível, é transmitido, é compartilhado. É o lugar onde narrativas simples ganham circulação massiva. Enquanto políticas públicas de integração aconteciam nos bastidores, o futebol seguia contando a história de dois países como inimigos naturais.

Mark

Mas não há razões legítimas para crítica? O gol de Maradona com a mão, as acusações de racismo?

Mimi

Há, sim. Mas essas razões não explicam por que a Argentina inteira vira sinônimo de vilania. Por que não vemos a Argentina negra, indígena, periférica sendo discutida com a mesma intensidade.

Mark

Então você está dizendo que devemos ignorar essas questões?

Mimi

Não. Estou dizendo que precisamos parar de usar essas questões como desculpa para apagar outras Argentinas, outras histórias que não cabem no enquadramento da Copa do Mundo.

Mark

Qual seria o efeito de reconhecer essas outras narrativas?

Mimi

Talvez conseguíssemos ver que Brasil e Argentina produziram muito mais intercâmbios do que rivalidades. Que temos mais em comum do que imaginamos, especialmente nas margens.

Mark

Isso muda algo no futebol?

Mimi

Muda tudo. Ou muda nada, dependendo de quem está disposto a escutar.

  • A Copa do Mundo de 2026 funcionou como catalisador: o antagonismo Brasil-Argentina deixou de ser provocação de arquibancada e ganhou peso ideológico e discursivo no debate público.
  • Acusações de favoritismo da Fifa, episódios de racismo e o silêncio político de ídolos alimentam uma narrativa de desconfiança que se tornou quase impossível de questionar sem ser silenciado.
  • Enquanto o espetáculo esportivo polarizava, ficava invisível a Argentina negra, indígena e periférica — e, do outro lado, o Brasil que sofre o mesmo apagamento dentro de sua própria narrativa nacional.
  • Na primeira década dos anos 2000, Brasil e Argentina construíram instrumentos públicos de comunicação e apostaram na integração via TeleSur, provando que a aproximação é historicamente possível — mas essa memória não circula.
  • Superar a política de inimizade exige escuta ativa das narrativas que o imaginário colonial sistematicamente chuta para fora do campo: as ancestralidades negras e indígenas que habitam os dois países.

Ao longo da Copa do Mundo de 2026, a histórica rivalidade futebolística entre Brasil e Argentina atravessou uma fronteira simbólica e se instalou no campo da política de inimizade — onde estereótipos coloniais substituem o diálogo e apagam as populações negras, indígenas e periféricas de ambos os países. O paradoxo é que, nos anos 2000, os dois Estados construíram pontes institucionais de comunicação pública e integração latino-americana, enquanto os imaginários coletivos insistiam em fabricar adversários naturais. O que o futebol encobre não é apenas uma rivalidade esportiva, mas a recusa de reconhecer as múltiplas Argentinas e os múltiplos Brasis que existem além das câmeras do torneio.

Quem vive perto da tríplice fronteira conhece bem as provocações, as piadas e o clima de beligerância que marcam a rivalidade entre Brasil e Argentina. Mas algo se deslocou durante a Copa do Mundo de 2026: o antagonismo migrou do esporte para a política, transformando-se naquilo que se pode chamar de política de inimizade — uma disputa carregada de peso ideológico e discursivo.

Os motivos aparentes são conhecidos: suspeitas de favoritismo da Fifa, o gol de mão de Maradona, acusações de racismo na seleção argentina, o silêncio político de Messi. Cada um desses pontos alimenta a desconfiança. Mas nenhum deles explica por que o discurso sobre a Argentina se congelou em uma única narrativa de antagonismo, tornando-se praticamente interdito qualquer outro olhar.

O que essa disputa encobre é a Argentina que não aparece nas telas da Copa: negra, indígena, periférica, resistindo ao apagamento de sua própria história. Entre essa Argentina invisível e a imagem monolítica da camisa albiceleste, o imaginário colonial segue operando — organizando a forma como brasileiros e argentinos se enxergam como inimigos naturais.

Há, porém, uma memória que o futebol frequentemente soterra. Na primeira década dos anos 2000, os dois países viveram uma convergência estratégica real: a Argentina reorganizou sua televisão pública com a Lei de Meios e a Televisión Digital Abierta; o Brasil criou a Empresa Brasil de Comunicação. Ambas as iniciativas dialogavam com um projeto maior de integração latino-americana, simbolizado pela criação da TeleSur em 2005. Produziram-se muito mais intercâmbios do que rivalidades — mas é a rivalidade que permanece visível e que se repete.

Rejeitar a síntese colonial dessa política de inimizade exige mais do que indignação pontual. Exige disposição para escutar as narrativas que ultrapassam o futebol: aquelas das populações negras e indígenas que, tanto no Brasil quanto na Argentina, seguem sendo chutadas para fora do enquadramento público — e com elas, as possibilidades de uma reconciliação com ancestralidades desconfortáveis que os dois países ainda relutam em reconhecer.

A rivalidade entre Brasil e Argentina no futebol não é segredo para ninguém que vive perto da tríplice fronteira. As provocações, as piadas nacionalistas, o clima de beligerância — tudo isso transborda as linhas do campo há décadas. Mas algo mudou durante a Copa do Mundo de 2026, que acaba de terminar. O antagonismo deixou de ser apenas desporto. Migrou para a política. Transformou-se naquilo que se pode chamar de política de inimizade, um terreno onde a disputa tradicional ganha peso ideológico e discursivo.

Os motivos aparentes estão ali, óbvios demais: a Fifa favorece a Argentina, dizem alguns. Maradona fez gol com a mão, lembram outros. Há acusações de falta de posicionamento político de Messi, denúncias de racismo na seleção argentina. Cada um desses pontos teria força suficiente para alimentar a desconfiança. Mas nenhum deles, isoladamente ou em conjunto, explica por que chegamos a um ponto em que o discurso sobre a Argentina se tornou praticamente interdito, congelado em uma única narrativa de antagonismo.

O que fica invisível nessa disputa é a própria Argentina que não cabe nas telas da Copa do Mundo. Existe uma Argentina que veste a camisa albiceleste, que alimenta estereótipos antigos, que se apresenta como monolítica. E existe outra, que permanece fora do enquadramento convencional: negra, indígena, periférica, lutando contra o apagamento de sua própria história. Entre essas duas Argentinas, o imaginário colonial continua operando, organizando a forma como brasileiros e argentinos se veem mutuamente, como se fossem inimigos naturais.

Mas há um detalhe que o futebol frequentemente encobre. Na primeira década dos anos 2000, Brasil e Argentina viveram um momento de convergência estratégica. A Argentina reorganizou sua televisão pública através da Lei de Meios e da Televisión Digital Abierta. O Brasil criou a Empresa Brasil de Comunicação. Essas não foram iniciativas isoladas. Ambas dialogavam com um projeto maior de integração latino-americana, impulsionado pela criação da TeleSur em 2005. Enquanto isso acontecia, políticas de Estado tentavam construir instrumentos comuns para fortalecer uma identidade latino-americana compartilhada.

O paradoxo é perturbador: enquanto as instituições públicas buscavam aproximação e integração, os imaginários coletivos continuavam sendo produzidos por narrativas estereotipadas que insistiam em apresentar Brasil e Argentina como adversários históricos. Produziram-se muito mais intercâmbios do que rivalidades, mas a rivalidade é o que permanece visível, o que circula, o que se repete.

A Argentina não branca segue atuante nos bairros populares, na cultura afro-platina, na religiosidade afrodiaspórica, na música, na organização política e na produção intelectual. Mas essa Argentina não aparece nas narrativas que dominam o debate público durante a Copa do Mundo. Ela fica de fora, assim como ficam de fora as populações negras e indígenas do Brasil nas mesmas circunstâncias.

Rejeitar a síntese que o imaginário colonial oferece sobre Brasil e Argentina, por meio dessa política de inimizade, exige mais do que indignação pontual. Exige disposição para escutar outras narrativas, aquelas que ultrapassam o futebol e jogam um jogo muito diferente daquele que foi imposto por um quadro comum de referência. Um quadro que não apenas repeliu corpos negros dos campos, mas chutou para bem longe as possibilidades de reconciliação com as ancestralidades desconfortáveis, negras e indígenas, tanto lá quanto cá.

Enquanto políticas de Estado tentavam construir instrumentos comuns para fortalecer uma identidade latino-americana, nossos imaginários continuavam sendo produzidos por narrativas estereotipadas que insistiam em nos apresentar como adversários históricos
— análise do artigo
Contáctanos FAQ