O bruxismo (apertar dentes) e a enxaqueca compartilham a mesma via neural pelo nervo trigêmeo, criando uma relação bidirecional entre as duas condições. Estudo com eletromiografia encontrou atividade muscular elevada em 78% de pessoas com enxaqueca crônica, sugerindo bruxismo em vigília frequente nesse grupo.
Apertar os dentes está ligado à enxaqueca? Entenda a conexão neurológica
O que se associa à enxaqueca é a DTM dolorosa
Então a pessoa que aperta os dentes está automaticamente com risco de enxaqueca?
Não exatamente. O bruxismo isolado não está diretamente ligado à enxaqueca. O que se associa é a DTM dolorosa — a disfunção da mandíbula — que muitas vezes acompanha o bruxismo. São coisas diferentes.
Mas o estudo com eletromiografia encontrou bruxismo em 78% das pessoas com enxaqueca crônica. Isso não sugere uma ligação forte?
Encontrou atividade muscular elevada naquele grupo específico. Mas Gonçalves, que é especialista, ressalta que não houve comparação com pessoas sem enxaqueca ou com enxaqueca episódica. O resultado vale para aquele grupo, não para todas as pessoas com enxaqueca crônica.
Entendi. E como funciona essa conexão neurológica que mencionam?
As informações de dor da face e dos músculos da mastigação chegam ao cérebro pelo nervo trigêmeo — a mesma região envolvida nos mecanismos da enxaqueca. Em pessoas com enxaqueca, o cérebro funciona de forma mais excitada, e isso sensibiliza os neurônios dessa região, relacionado ao aperto involuntário dos dentes.
Então é bidirecional? A DTM causa enxaqueca e a enxaqueca causa DTM?
Sim. A DTM dolorosa pode desencadear crises, e quem tem as duas costuma ter crises mais frequentes, intensas e difíceis de controlar.
E qual é o tratamento?
Varia. Para DTM, pode incluir placa rígida sob medida, fisioterapia e medicamentos. Para enxaqueca, é importante um neurologista especializado. O ideal é tratar as duas simultaneamente — um estudo mostrou que a melhora é maior quando isso acontece.
A placa resolve o bruxismo?
Não. A placa protege dentes e articulações, mas não elimina o bruxismo. E é importante que seja rígida e feita sob medida — as macias ou prontas não são recomendadas.
Il Polso
- Nervo trigêmeo compartilha vias neurais entre dor facial e enxaqueca
- Eletromiografia encontrou atividade muscular elevada em 78% de 237 pessoas com enxaqueca crônica
- Meta-análise de 2024 encontrou DTM mais frequente em pessoas com enxaqueca
- Tratamento simultâneo de DTM e enxaqueca produz melhores resultados
O bruxismo (apertar dentes) e a enxaqueca compartilham a mesma via neural pelo nervo trigêmeo, criando uma relação bidirecional entre as duas condições. Estudo com eletromiografia encontrou atividade muscular elevada em 78% de pessoas com enxaqueca crônica, sugerindo bruxismo em vigília frequente nesse grupo.
Enxaqueca e disfunção temporomandibular (DTM) compartilham vias neurais comuns pelo nervo trigêmeo, e tratar ambas simultaneamente melhora o controle das crises de dor.
Ao final do dia, o rosto pesa. A mandíbula parece cansada. Marcas dos dentes aparecem na parte interna da bochecha. Para quem sofre com crises frequentes de enxaqueca, esses sinais costumam passar despercebidos — mas podem indicar algo importante: o bruxismo, aquele hábito de apertar ou ranger os dentes que acontece durante o sono ou mesmo acordado. A pergunta que surge é inevitável: isso tem relação com a enxaqueca?
A resposta passa por um nervo específico. Segundo Daniela Godoi Gonçalves, professora de odontologia na Universidade Estadual Paulista e especialista em dor orofacial e disfunção temporomandibular (DTM), as informações de dor que vêm da face, dos músculos da mastigação e da articulação da mandíbula chegam ao cérebro através de ramos do nervo trigêmeo — e essa mesma região está envolvida nos mecanismos da enxaqueca. Thaís Villa, neurologista especialista em enxaqueca pela Universidade Federal de São Paulo, descreve o processo de forma clara: em pessoas com enxaqueca, o cérebro funciona de maneira mais excitada, repetidamente mais elétrico. Esse estado vai sensibilizando os neurônios da região do nervo trigêmeo, que possui um ramo que se estende até o músculo da mastigação. Essa sensibilização está relacionada ao aperto involuntário dos dentes. Por causa dessa via compartilhada, a relação funciona nos dois sentidos: a DTM dolorosa pode desencadear crises de enxaqueca, e quem tem as duas condições costuma apresentar crises mais frequentes, intensas e difíceis de controlar. Uma meta-análise publicada em 2024 no Journal of Oral & Facial Pain and Headache encontrou DTM com muito mais frequência em pessoas com enxaqueca do que naquelas sem dor de cabeça.
Mas é importante não confundir os termos. O bruxismo é um comportamento, não necessariamente uma doença — muitas pessoas o apresentam sem sentir qualquer dor. A DTM dolorosa, por sua vez, é uma condição que envolve os músculos e as articulações da mastigação e costuma causar dor em peso ou aperto, cansaço no rosto e dificuldade para mastigar. Uma pode existir sem a outra. A dor na mandíbula é um sintoma, não um diagnóstico: pode vir da DTM, mas também de problemas nos dentes ou na gengiva. Como Gonçalves esclarece, o bruxismo isoladamente não está diretamente ligado à enxaqueca. O que se associa à enxaqueca é a DTM dolorosa, que muitas vezes acompanha o bruxismo.
Muita gente aperta os dentes sem perceber. Durante o dia, é raro apertar com muita força — o mais comum é um contato leve mantido por horas, sempre que a pessoa não está falando nem mastigando. Sensação de peso no rosto, músculos da face tensos, incômodo ao falar ou mastigar e marcas dos dentes na lateral da língua ou na bochecha são os sinais mais comuns. Em repouso, o esperado é que os dentes fiquem separados e a musculatura, relaxada. Um estudo do Headache Center Brasil avaliou 237 pessoas com enxaqueca crônica por meio de eletromiografia — exame que mede a atividade elétrica dos músculos — e encontrou atividade muscular acima do ponto de corte em 78% delas. O resultado foi interpretado como bruxismo em vigília. Villa, uma das autoras do trabalho, explica que na avaliação feita de maneira objetiva com eletromiografia, não importa se o paciente se acostumou a estar com os dentes apertados e achar que aquilo é normal. Pela classificação internacional, a enxaqueca é chamada de crônica quando a dor aparece em 15 ou mais dias do mês, por mais de três meses. Quando as crises são menos frequentes, usa-se o termo enxaqueca episódica. Villa ressalta que, nos dois casos, a doença é a mesma e continua presente entre uma crise e outra — o que muda é apenas a frequência.
Gonçalves, que não participou da pesquisa, considera a questão relevante, mas aponta uma limitação importante: a eletromiografia feita no consultório registra a atividade muscular naquele momento específico e não houve comparação com pessoas sem enxaqueca ou com enxaqueca episódica. Para ela, o resultado vale para aquele grupo de pacientes e não pode ser estendido a todas as pessoas com enxaqueca crônica. Ansiedade, estresse e sono ruim são fatores moduladores, não causas — eles aumentam o risco de o comportamento aparecer ou se intensificar. No bruxismo do sono, alguns medicamentos que agem no sistema nervoso, como certos antidepressivos, também podem aumentar a atividade muscular. Por isso, Gonçalves orienta observar em que fases o comportamento piora, como anda o sono e quais remédios estão em uso, e levar essas informações ao médico e ao dentista.
Tratar as duas condições ao mesmo tempo oferece resultados melhores. Gonçalves cita um ensaio clínico conduzido por seu grupo com mulheres que tinham enxaqueca e DTM: a melhora da enxaqueca foi maior quando as duas condições foram tratadas simultaneamente. O tratamento da DTM varia conforme o tipo e pode incluir placa, fisioterapia e medicamentos. A placa, quando indicada, deve ser rígida e feita sob medida — modelos moles ou comprados prontos não são recomendados. A placa protege dentes e articulações, mas não elimina o bruxismo. Para a enxaqueca, a orientação é procurar sempre um neurologista, de preferência com formação em cefaleia. Desgaste dos dentes, dor ou cansaço no rosto e dificuldade para abrir a boca são motivos para consultar também um dentista especialista em dor orofacial e DTM. Quando DTM dolorosa e enxaqueca estão presentes juntas, o ideal é que o acompanhamento com o neurologista e com o especialista em DTM seja feito simultaneamente.
Citazioni salienti
O bruxismo isoladamente não está diretamente ligado à enxaqueca. O que se associa à enxaqueca é a DTM dolorosa, que muitas vezes acompanha o bruxismo.— Daniela Godoi Gonçalves, professora de odontologia da Unesp
Esse cérebro repetidamente mais elétrico vai sensibilizando neurônios da região do nervo trigêmeo. O nervo trigêmeo tem na face um ramo que vai para o músculo da mastigação.— Thaís Villa, neurologista especialista em enxaqueca