Aos 81 anos, a Organização das Nações Unidas confronta uma crise que vai além do financeiro: é uma crise de sentido. Fundada sobre a promessa de que o diálogo poderia substituir a violência entre nações, a instituição assiste impotente a guerras na Ucrânia, no Oriente Médio e no Sudão, enquanto as próprias potências que a ergueram — Estados Unidos, China e Rússia — figuram entre seus maiores devedores e mais frequentes obstruidores. O que está em jogo não é apenas o orçamento de um organismo internacional, mas a viabilidade da ideia de que nações podem, de alguma forma, governar-se coletivamen
Aos 81 anos, ONU enfrenta sua maior crise de legitimidade
O mundo real é governado pela coerção, não por princípios
Por que a ONU é tão importante se ela não consegue impedir guerras? Parece que não funciona.
Não funciona porque foi construída sobre um acordo que já não existe. Quando foi criada, havia um consenso mínimo entre as potências sobre como o mundo deveria ser organizado. Agora, esse consenso desapareceu.
Mas a ONU nunca impediu guerras. Ela foi criada depois da Segunda Guerra Mundial, e desde então houve dezenas de conflitos. O que mudou?
O que mudou é que antes as potências fingiam acreditar nas regras, mesmo quando as quebravam. Agora elas nem fingem mais. Trump diz abertamente que o mundo é governado pela coerção, não por princípios.
E quanto aos países menores? Eles não têm voz?
Têm voz, mas não têm poder de veto. A ONU reflete exatamente o mundo como é — desigual. Os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança podem bloquear qualquer resolução.
Espera, os EUA devem 1,31 bilhão de dólares à ONU, China e Rússia também devem. Como uma instituição funciona quando seus membros mais poderosos não pagam?
Não funciona bem. Mas o dinheiro é apenas um sintoma. O problema real é que ninguém acredita mais que a ONU possa resolver conflitos.
Então por que Lula vai discursar lá?
Porque ainda é o único lugar onde todos os países se sentam à mesma mesa. É simbólico, mas o símbolo importa.
Mas se Trump está atacando a instituição e retirando financiamento, não está o símbolo perdendo força?
Está, sim. É por isso que dizemos que a ONU enfrenta sua maior crise. Não é só financeira. É existencial.
Il Polso
- A ONU chega à sua Assembleia Geral de 2026 sem autoridade moral suficiente para conter nenhum dos grandes conflitos em curso — e com os cofres esvaziados pelos mesmos países que detêm poder de veto.
- A administração Trump não apenas se recusa a financiar organismos multilaterais, mas ataca os próprios princípios que sustentam a ordem internacional, com Stephen Miller declarando abertamente que o mundo real é governado pela coerção.
- O padrão de instrumentalização da ONU pelas grandes potências se aprofunda: Biden usou o veto para proteger Israel durante a invasão de Gaza, bloqueando propostas de cessar-fogo enquanto civis palestinos eram mortos.
- Lula subirá ao pódio da Assembleia Geral para defender soberania e reforma do Conselho de Segurança — um apelo que ressoa há décadas sem produzir resultado concreto.
- Paradoxalmente, 54% dos americanos confiam na ONU — mais do que confiam na própria Presidência ou na Suprema Corte —, revelando um abismo entre a população e seus governantes sobre o valor do multilateralismo.
Aos 81 anos, a Organização das Nações Unidas confronta uma crise que vai além do financeiro: é uma crise de sentido. Fundada sobre a promessa de que o diálogo poderia substituir a violência entre nações, a instituição assiste impotente a guerras na Ucrânia, no Oriente Médio e no Sudão, enquanto as próprias potências que a ergueram — Estados Unidos, China e Rússia — figuram entre seus maiores devedores e mais frequentes obstruidores. O que está em jogo não é apenas o orçamento de um organismo internacional, mas a viabilidade da ideia de que nações podem, de alguma forma, governar-se coletivamente.
A ONU completa 81 anos em 2026 diante do que pode ser sua crise mais profunda de propósito e autoridade. Quando o presidente Lula subir ao pódio da Assembleia Geral em Nova York, o cenário será familiar: Donald Trump voltará a atacar a instituição que, ironicamente, ajudou a consolidar a hegemonia americana no pós-guerra. Fundada sobre a promessa de que nações poderiam resolver diferenças pelo diálogo, a organização permanece impotente diante da guerra na Ucrânia, do conflito no Oriente Médio e da crise humanitária no Sudão.
O paradoxo financeiro revela algo sobre a paralisia estrutural da instituição. Os três membros permanentes mais poderosos do Conselho de Segurança — EUA, China e Rússia — estão entre seus maiores devedores. Washington enviou 725 milhões de dólares recentemente, mas ainda deve 1,31 bilhão. A crise, porém, não é de dinheiro: é de legitimidade. Lula deve invocar soberania e defender uma reforma do Conselho — um apelo que ecoa há décadas sem resultado.
O que mudou não é tanto a disposição americana de usar o veto, mas a disposição de questionar os próprios princípios que fundamentaram a ordem internacional. Mesmo Biden, posicionado à esquerda de seus antecessores, usou o veto para blindar Israel durante a invasão de Gaza, bloqueando propostas de cessar-fogo enquanto o mundo assistia às atrocidades contra civis palestinos. A administração Trump vai além: seu vice-chefe de gabinete, Stephen Miller, foi direto ao afirmar que o mundo real é governado pela coerção.
O Partido Republicano trabalhou metodicamente para retirar apoio e financiamento de organismos como a OMS e a Unesco, sob uma agenda antiglobalista que chega ao microgerenciamento ideológico — como banir a palavra diversidade de documentos internacionais. Ao abrir mão dessa influência, os EUA ignoram o quanto se beneficiaram, a baixo custo, de seu poder dentro da ONU. O dado mais revelador talvez seja este: 54% dos americanos confiam na organização global — mais do que confiam na própria Presidência ou na Suprema Corte. Quando Lula discursar, estará em uma sala onde as regras do jogo estão sendo reescritas, e ninguém sabe ainda qual será o resultado.
A Organização das Nações Unidas completa 81 anos em 2026 enfrentando o que pode ser sua crise mais profunda de propósito e autoridade. Quando o presidente Lula sobe ao pódio da Assembleia Geral em Nova York na próxima terça-feira para seu discurso de abertura, o cenário será previsível: Donald Trump atacará novamente a instituição que, ironicamente, ajudou a consolidar a hegemonia americana no período pós-guerra. A ONU nasceu do horror da Segunda Guerra Mundial, construída sobre a promessa de que nações poderiam resolver suas diferenças através do diálogo e da cooperação. Oitenta e um anos depois, permanece impotente diante da guerra na Ucrânia, do conflito no Oriente Médio e da crise humanitária no Sudão.
O paradoxo financeiro da organização revela algo sobre sua paralisia estrutural. Os três membros permanentes mais poderosos do Conselho de Segurança — Estados Unidos, China e Rússia — estão entre os maiores devedores da instituição. Os EUA enviaram um cheque de 725 milhões de dólares na quarta-feira passada, reduzindo sua dívida para 1,31 bilhão de dólares. Cortes orçamentários não resolvem o problema real. A crise não é de dinheiro; é de legitimidade. Lula, em seu discurso, deve invocar a palavra soberania e defender uma reforma do Conselho de Segurança — um apelo que ecoa há décadas sem resultado concreto.
O que mudou não é tanto a disposição dos Estados Unidos em usar seu poder de veto — sucessivos presidentes americanos fizeram isso — mas a disposição em questionar os próprios princípios que fundamentaram a ordem internacional que criou a ONU. Em fevereiro de 2003, o general Colin Powell, secretário de Estado de George W. Bush, apresentou ao Conselho de Segurança o que afirmava serem provas de que o Iraque fabricava armas de destruição em massa. A apresentação era falsa. Rússia, China e França não se convenceram, mas nos corredores havia um senso palpável de inevitabilidade. Seis semanas depois, a invasão começou. Powell passou o resto de sua vida envergonhado por ter apresentado, em um fórum global, provas que sabia serem falsas.
Mesmo Joe Biden, um democrata que se posicionava à esquerda de seus antecessores, usou o poder de veto para blindar Israel durante a invasão de Gaza, bloqueando sucessivas propostas de cessar-fogo enquanto o mundo assistia impotente às atrocidades contra civis palestinos. O padrão é claro: potências usam a ONU quando lhes convém e a ignoram quando não. Mas a administração Trump vai além. Seu vice-chefe de gabinete, Stephen Miller — descrito por um ex-assessor militar como o Rasputin de Trump — definiu a visão da Casa Branca sobre o papel americano no mundo. Quando questionado na CNN após a invasão da Venezuela, Miller foi direto: podemos falar sobre formalidades, mas o mundo real é governado pela coerção.
O Partido Republicano trabalhou metodicamente para retirar apoio e financiamento de organismos multilaterais como a Organização Mundial de Saúde e a Unesco, tudo sob o guarda-chuva de uma agenda antiglobalista vaga que se estende até microgerências ideológicas — insistir em banir a palavra diversidade de documentos, ações que nada têm a ver com política global substantiva. Ao abrir mão da influência sobre a manutenção da estabilidade global, essa abordagem ignora quanto os Estados Unidos se beneficiaram, a baixo custo, de seu poder dentro da ONU. O Instituto Gallup registrou em julho que apenas 27% dos americanos expressam confiança em instituições nacionais como a Presidência e a Suprema Corte. Mas o Pew Research Center descobriu em agosto que 54% dos adultos nos EUA confiam na ONU. A organização global, paradoxalmente, goza de mais confiança entre americanos do que suas próprias instituições domésticas. Quando Lula discursar na próxima semana, estará falando em uma sala onde as regras do jogo estão sendo reescritas, e ninguém sabe ainda qual será o resultado.
Citazioni salienti
Podemos falar à vontade sobre formalidades, mas o mundo real é governado pela coerção— Stephen Miller, vice-chefe de gabinete da Casa Branca, em entrevista à CNN
Powell morreu envergonhado de ter usado, num fórum global, o que chamou de provas falsas fornecidas por órgãos de inteligência— Referência ao general Colin Powell e sua apresentação sobre armas de destruição em massa no Iraque em 2003