Anistia denuncia recrutamento enganoso de estrangeiros pela Rússia para guerra na Ucrânia

Estrangeiros vulneráveis são enganados, coagidos e enviados à linha de frente como 'bucha de canhão', sofrendo exploração, confisco de documentos e treinamento inadequado.
Basicamente, são bucha de canhão
Como Agnès Callamard, secretária-geral da Anistia, descreveu o destino de estrangeiros enganados e enviados à linha de frente.
Mark

Como a Anistia conseguiu documentar isso se não pôde entrevistar prisioneiros na Ucrânia?

Mimi

Entrevistaram prisioneiros de guerra que já estavam em poder da Rússia ou que conseguiram sair. Os relatos são consistentes — o padrão se repete.

Luke

Mas quantas pessoas eles entrevistaram? O relatório diz "prisioneiros" no plural, mas não especifica o número. Isso é um ponto fraco.

Mark

Por que a Rússia faria isso? Tem soldados suficientes.

Mimi

Não é só sobre números. É sobre ter pessoas que não têm conexão com o país, que não têm rede de apoio, que são completamente dependentes do Estado. São mais fáceis de controlar.

Luke

Isso é interpretação. O que sabemos é que a Rússia está recrutando estrangeiros e usando métodos enganosos. O porquê estratégico é especulação.

Mark

E quanto aos governos dos países de origem? Brasil, Colômbia — eles não estão fazendo nada?

Mimi

A Anistia pediu que investiguem e processem responsáveis. Mas não há indicação de que estejam agindo.

Luke

Porque seria muito difícil. Processar alguém na Rússia durante uma guerra? Praticamente impossível. A Anistia está pedindo algo que provavelmente não vai acontecer.

Mark

Então essas pessoas estão presas? Mortas? O que acontece com elas?

Mimi

Algumas foram capturadas pela Ucrânia e estão em detenção. Outras provavelmente morreram na linha de frente. A Anistia não tem números exatos.

Luke

Exatamente. Não sabemos quantas pessoas estamos falando. 28 mil estrangeiros nas forças russas — mas quantos foram recrutados por engano? Quantos estão vivos? Quantos foram capturados? Essas respostas não estão no relatório.

Mark

A Ucrânia também recruta estrangeiros. Por que a Anistia não investigou isso?

Mimi

Porque não conseguiu acessar prisioneiros ucranianos na Rússia. Mas reconheceu que a Ucrânia também recruta.

Luke

Então há uma assimetria na investigação. Não é que a Ucrânia não faça isso — é que a Anistia não conseguiu documentar. Isso é importante deixar claro.

  • Mais de 28 mil estrangeiros de 136 países combatiam nas Forças Armadas russas em abril
  • Recrutadores confiscam passaportes e obrigam assinatura de contratos incompreensíveis
  • Brasileiros, colombianos, cubanos, cidadãos de Sri Lanka e África do Sul foram alvo do sistema
  • Anistia Internacional pediu investigações de governos e Ucrânia para processar responsáveis

Brasileiros, colombianos, cubanos e cidadãos de Sri Lanka e África do Sul foram atraídos com promessas de trabalho e coagidos a assinar contratos militares. Recrutadores confiscam passaportes, obrigam assinatura de documentos incompreensíveis e oferecem residência ou cidadania russa em troca do alistamento.

Anistia Internacional denunciou que a Rússia engana estrangeiros de Brasil, Colômbia, Cuba e outros países com falsas ofertas de emprego para recrutá-los forçadamente para a guerra na Ucrânia.

A Anistia Internacional divulgou nesta quinta-feira um relatório documentando um sistema de recrutamento que funciona como uma armadilha: a Rússia atrai estrangeiros de países vulneráveis — Brasil, Colômbia, Cuba, Sri Lanka, África do Sul — com anúncios de empregos que não existem, depois os força a assinar contratos militares e os envia para morrer na Ucrânia.

A organização de direitos humanos entrevistou prisioneiros de guerra que descreveram o mesmo padrão repetido. Um caminhoneiro sul-africano, por exemplo, recebeu um convite para trabalhar como motorista em Moscou. Assim que chegou, tudo lhe foi confiscado. Seus documentos desapareceram. Ele foi obrigado a assinar papéis que não compreendia. Depois foi enviado para a linha de frente. Agnès Callamard, secretária-geral da Anistia, resumiu a situação com uma frase que não deixa espaço para eufemismo: "Basicamente, são bucha de canhão".

O método é sistemático. Os recrutadores publicam vagas fictícias na internet, principalmente direcionadas a homens com menos de 40 anos em países mais pobres. Quando chegam à Rússia, os passaportes são confiscados imediatamente. Os documentos que assinam — contratos militares — permanecem incompreensíveis para eles. O treinamento é mínimo. A barreira linguística os isola de seus superiores. Depois são enviados para combater. A Anistia também documentou que recrutadores oferecem autorização de residência ou até cidadania russa em troca do alistamento, visando especialmente estrangeiros que vivem de forma irregular no país.

Em junho, uma investigação da agência AFP havia revelado um padrão semelhante com quenianos, atraídos por promessas de empregos bem remunerados no setor civil. Agora a Anistia confirma que o fenômeno é muito mais amplo e sistemático. Segundo a definição das Nações Unidas, o que está acontecendo se encaixa precisamente na definição de tráfico de pessoas: recrutamento por meio de fraude, engano e abuso de poder para fins de exploração.

Os números são significativos. Em abril, as autoridades ucranianas estimaram que mais de 28 mil estrangeiros de 136 países combatiam nas Forças Armadas russas — um número que não inclui cerca de 14 mil soldados norte-coreanos que lutaram durante a ofensiva ucraniana em Kursk em 2024. Nem Rússia nem Ucrânia divulgaram o total de estrangeiros em suas forças. A Anistia não conseguiu entrevistar combatentes estrangeiros presos na Ucrânia porque Moscou classificou a organização como "agente estrangeiro".

Callamard foi direto ao apontar a responsabilidade. "Há muitas pessoas que trabalham para o Estado russo e sabem que aqueles sendo recrutados para serem enviados à linha de frente são vítimas de tráfico. São cúmplices desse fenômeno e deveriam prestar contas." A Rússia já rejeitou anteriormente acusações de que obrigaria estrangeiros a se alistar, e até agora não se pronunciou publicamente sobre o relatório da Anistia.

A organização pediu à Ucrânia e aos governos dos países afetados que abram investigações e processem os responsáveis. Callamard reconheceu que essas investigações provavelmente não serão prioridade para Kiev durante a guerra, mas recomendou que a Ucrânia apure os casos mesmo assim. "Além disso, isso demonstraria que a Ucrânia tem valores e uma abordagem muito diferentes dos da Rússia", afirmou. O recrutamento de estrangeiros por ambos os lados ocorre desde o início da invasão russa há quatro anos e meio, mas o padrão de engano sistemático e coerção documentado agora pela Anistia sugere que a Rússia transformou a vulnerabilidade em estratégia de guerra.

O sofrimento relacionado a essa internacionalização da guerra afeta comunidades e indivíduos muito vulneráveis em todo o mundo
— Agnès Callamard, secretária-geral da Anistia Internacional
Há muitas pessoas que trabalham para o Estado russo e sabem que aqueles sendo recrutados para serem enviados à linha de frente são vítimas de tráfico. São cúmplices desse fenômeno e deveriam prestar contas
— Agnès Callamard
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