No limiar entre a esperança e a desconfiança, a Itapemirim Transportes Aéreos recebeu da Anac, em abril de 2021, autorização para voar comercialmente pelo Brasil — tornando-se a mais nova companhia aérea do país. O feito, celebrado por seu presidente Sidnei Piva como um marco histórico, nasce, porém, envolto em sombras: o grupo que a sustenta arrasta uma recuperação judicial desde 2016, com irregularidades documentadas, uma disputa acionária acirrada e um modelo de negócio que já mudou de forma antes mesmo de o primeiro voo comercial decolar. A aviação civil brasileira ganha um novo ator, mas
Anac autoriza voos da Itapemirim, mas empresa enfrenta desconfiança do mercado
Empresa recebe licença sob nuvem de desconfiança do mercado
Como uma companhia aérea consegue certificação da Anac em menos de um ano? Isso é rápido?
É bastante rápido, sim. Normalmente o processo leva mais tempo. Mas a Itapemirim cumpriu todos os requisitos dentro do prazo — a etapa final foi entre 12 e 15 de abril.
Rápido pode significar duas coisas: eficiência ou falta de escrutínio. Sabemos qual foi?
A reportagem não diz. Só que a certificação foi concedida.
E o grupo já tem rotas confirmadas?
Sim, slots em aeroportos importantes. A partir de junho, voa entre Ribeirão Preto e Recife, Ribeirão Preto e Guarulhos, Porto Seguro e Guarulhos, Salvador e Guarulhos.
Mas há um problema maior aqui, certo? O grupo está em recuperação judicial desde 2016.
Exato. E não é uma recuperação tranquila. A administradora judicial documentou atrasos em auditorias e descumprimento de cronogramas.
Então por que a Anac aprovou?
Boa pergunta. A reportagem não explica se a Anac considerou esses problemas ou se eles não eram relevantes para a certificação aérea.
Também há uma disputa entre o dono atual, Sidnei Piva, e a família Cola, que fundou a empresa. Estão em tribunal.
E o modelo de negócio? Qual é?
Aí está o confuso. Primeiro disseram que seria serviço diferenciado com foco no atendimento. Depois o presidente disse que seria baixo custo com rotas regionais.
E especialistas disseram que isso não funciona economicamente.
Exatamente. Baixo custo precisa de rotas densas, tipo Rio-São Paulo. Rotas regionais não geram volume suficiente.
Então a empresa pode estar condenada ao fracasso?
Não sabemos. Mas há sinais de alerta que o mercado está vendo.
Il Polso
- A Anac certificou a Itapemirim Transportes Aéreos em tempo recorde — menos de um ano —, abrindo caminho para voos comerciais a partir de junho em rotas como Ribeirão Preto–Guarulhos e Salvador–Guarulhos.
- Por trás da licença recém-conquistada, o Grupo Itapemirim carrega cinco anos de recuperação judicial marcada por atrasos em auditorias e descumprimento de prazos documentais.
- A disputa entre o atual dono, Sidnei Piva, e a família Cola — fundadora original da empresa — ameaça anular a própria venda do grupo, com ações por falsidade ideológica em curso.
- O modelo de negócio da companhia aérea mudou de 'baixo custo em rotas regionais' para 'serviço diferenciado' em pouco mais de um ano, contradição que especialistas apontam como economicamente problemática.
- O mercado observa com ceticismo crescente: uma empresa que acabou de ganhar sua licença já acumula incertezas jurídicas, financeiras e estratégicas que colocam em dúvida sua viabilidade real.
No limiar entre a esperança e a desconfiança, a Itapemirim Transportes Aéreos recebeu da Anac, em abril de 2021, autorização para voar comercialmente pelo Brasil — tornando-se a mais nova companhia aérea do país. O feito, celebrado por seu presidente Sidnei Piva como um marco histórico, nasce, porém, envolto em sombras: o grupo que a sustenta arrasta uma recuperação judicial desde 2016, com irregularidades documentadas, uma disputa acionária acirrada e um modelo de negócio que já mudou de forma antes mesmo de o primeiro voo comercial decolar. A aviação civil brasileira ganha um novo ator, mas o mercado ainda não sabe ao certo em que peça ele vai atuar.
A Itapemirim Transportes Aéreos conquistou em abril de 2021 a certificação da Agência Nacional de Aviação Civil para operar voos comerciais em todo o Brasil. O processo durou menos de um ano, com a etapa final concluída entre os dias 12 e 15 de abril. Antes mesmo da aprovação oficial, a empresa já havia realizado 14 voos de teste com um Airbus de 180 passageiros. Sidnei Piva, presidente do grupo, celebrou o momento como um marco para a aviação civil brasileira.
A companhia já detém slots em aeroportos de alta demanda e planeja, a partir de junho, operar rotas entre cidades como Ribeirão Preto, Recife, Porto Seguro, Salvador e Guarulhos — conexões que exigem infraestrutura consolidada e acesso a terminais concorridos.
O problema é que esse nascimento acontece sob nuvens pesadas. O Grupo Itapemirim está em recuperação judicial desde 2016, processo que acumula irregularidades: atrasos em auditorias e cronogramas de entrega de documentos descumpridos repetidamente, conforme relatório da administradora judicial EXM Partners. A empresa garante que os pagamentos previstos no plano estão sendo honrados e que as pendências estão sendo resolvidas.
Somada a isso, uma disputa acionária divide o grupo: Camilo Cola e Camilo Cola Filho, da família fundadora, tentam anular a venda da companhia a Sidnei Piva, contestando irregularidades contratuais e movendo representações por falsidade ideológica contra o comprador.
Há ainda a questão do modelo de negócio. Em fevereiro do ano anterior, Piva havia descrito a futura companhia aérea como uma empresa de baixo custo focada em rotas regionais. Já durante os voos experimentais, o discurso mudou para um serviço diferenciado e personalizado. Especialistas alertam que o modelo de baixo custo só é viável em rotas de alta densidade — e que rotas regionais simplesmente não geram o volume de passageiros necessário para sustentar essa equação financeira. A mudança de narrativa, em tão pouco tempo, apenas aprofunda o ceticismo do mercado diante de uma empresa que estreia com licença na mão e muitas perguntas sem resposta.
A Itapemirim Transportes Aéreos, braço aéreo do Grupo Itapemirim, conquistou em abril a aprovação da Agência Nacional de Aviação Civil para operar voos comerciais em todo o país. O processo de certificação levou menos de um ano — a etapa final ocorreu entre 12 e 15 de abril. Duas semanas antes da aprovação oficial, a empresa já havia realizado 14 voos de teste com um Airbus de 15 anos de idade e capacidade para 180 passageiros. Sidnei Piva, presidente do grupo, celebrou o momento como um marco na aviação civil brasileira, destacando que a empresa cumpriu todos os requisitos da Anac dentro do prazo.
A companhia já possui slots — horários garantidos de pouso e decolagem — em alguns dos aeroportos mais concorridos do país. A partir de junho, planeja operar rotas entre Ribeirão Preto e Recife, Ribeirão Preto e Guarulhos, Porto Seguro e Guarulhos, e Salvador e Guarulhos. Essas são conexões que exigem infraestrutura consolidada e acesso a terminais de alta demanda.
Mas o nascimento dessa companhia aérea acontece sob nuvem de desconfiança. O Grupo Itapemirim está em recuperação judicial desde 2016, processo que apresenta uma série de irregularidades documentadas. Segundo o relatório mais recente da administradora judicial EXM Partners, referente a janeiro, há atrasos relevantes nas análises de auditoria e o cronograma de entrega de documentos já foi descumprido mais de uma vez. A empresa afirmou que essas questões estão sendo resolvidas e que os pagamentos previstos no plano de recuperação estão sendo cumpridos.
Além disso, o grupo está no meio de uma disputa acirrada entre seu atual proprietário, Sidnei Piva, e a família Cola, fundadora original da Itapemirim. Camilo Cola e Camilo Cola Filho tentam anular a venda da companhia, contestando pendências na assinatura de anexos do contrato. Paralelamente, entraram com representações por falsidade ideológica contra o comprador. Esse imbróglio jurídico atravessa todo o processo de recuperação.
Há também incerteza sobre o modelo de negócio da companhia aérea. Quando realizou os voos experimentais, o grupo divulgou que ofereceria um serviço diferenciado, com foco no atendimento personalizado aos passageiros. Mas em fevereiro do ano anterior, Sidnei Piva havia dito ao jornal O Estado de S. Paulo que se trataria de uma companhia de baixo custo focada em rotas regionais. Especialistas questionaram essa estratégia: empresas de baixo custo precisam voar rotas de alta densidade, como Rio-São Paulo, para se manterem financeiramente viáveis. Rotas regionais não geram o volume de passageiros necessário para esse modelo.
Essa mudança de narrativa em pouco mais de um ano, combinada com a recuperação judicial conturbada e a disputa acionária, cria um cenário de incerteza sobre a viabilidade da operação. O mercado observa com ceticismo uma empresa que acaba de receber sua licença mas já carrega o peso de questões não resolvidas.
Citazioni salienti
Estamos presenciando um marco importante dentro da história da aviação civil brasileira. Hoje, temos orgulho de anunciar que cumprimos, dentro do prazo oficial, todos os requisitos exigidos pela Anac.— Sidnei Piva, presidente do Grupo Itapemirim
É a pessoa, o olho no olho, que vamos priorizar entre todos os colaboradores e os passageiros— Grupo Itapemirim, em nota sobre o modelo de serviço