Anac autoriza voos da Itapemirim, mas empresa enfrenta desconfiança do mercado

Celebração regulatória em meio a turbulências legais
A Itapemirim recebeu autorização para operar, mas enfrenta recuperação judicial controversa e disputa acionária.
Mark

Como uma empresa em recuperação judicial consegue receber autorização para operar uma companhia aérea?

Mimi

A Anac avalia a capacidade técnica e operacional da empresa aérea em si. A Itapemirim Transportes Aéreos é uma subsidiária nova, e aparentemente atendeu aos requisitos regulatórios. Mas a recuperação judicial da controladora cria um risco reputacional e financeiro que o mercado não ignora.

Luke

Exato. A certificação é um fato. Mas a viabilidade financeira é outra coisa. Ninguém sabe se o grupo tem caixa para sustentar uma companhia aérea enquanto resolve seus problemas legais.

Mark

E esse modelo de negócio que mudou — de baixo custo para serviço diferenciado — isso é um sinal de que não sabem o que estão fazendo?

Mimi

Ou é um sinal de que estão se adaptando. Rotas regionais de baixo custo não funcionam. Talvez tenham percebido isso e ajustado a estratégia.

Luke

Mas a gente não sabe se essa nova estratégia é viável também. Serviço diferenciado em rotas regionais? Quem paga mais por isso? Não há dados que sustentem essa aposta.

Mark

E a disputa com a família Cola — isso pode derrubar a empresa?

Mimi

Pode. Se conseguirem anular a venda, toda a estrutura desaba. Mas por enquanto, a venda foi consumada e a empresa está operando.

Luke

A questão é: por quanto tempo? Se a disputa se arrasta, os credores ficam nervosos, os investidores desaparecem, e a companhia aérea fica sem recursos. A certificação não garante nada disso.

Mark

Então por que a Anac aprovou?

Mimi

Porque a Anac certifica a capacidade operacional, não a saúde financeira. São duas coisas diferentes.

Luke

E é aí que mora o risco. A companhia pode estar tecnicamente pronta para voar, mas financeiramente frágil demais para sobreviver.

  • A certificação foi concedida em tempo recorde, com o primeiro Airbus já realizando voos de teste antes mesmo do anúncio oficial — sinalizando pressa em decolar.
  • Slots para rotas estratégicas entre Ribeirão Preto, Recife, Guarulhos, Porto Seguro e Salvador estão reservados para junho, mas o mercado recebe a novidade com ceticismo.
  • A recuperação judicial do Grupo Itapemirim, ativa desde 2016, acumula irregularidades, auditorias atrasadas e cronogramas descumpridos segundo a própria administradora judicial.
  • Uma disputa entre o proprietário atual e a família fundadora Cola ameaça a estabilidade acionária, com acusações de falsidade ideológica e tentativas de anular a venda da empresa.
  • O modelo de negócio oscilou entre low cost regional e serviço diferenciado em menos de dois anos, deixando especialistas e credores sem clareza sobre a viabilidade da operação.

Em maio de 2021, a Itapemirim Transportes Aéreos recebeu da Anac a autorização para voar comercialmente pelo Brasil, encerrando um processo de certificação de menos de um ano. O feito, celebrado como marco histórico por seus dirigentes, carrega consigo o peso de uma recuperação judicial conturbada desde 2016, disputas acionárias não resolvidas e um modelo de negócio ainda em busca de definição. Como tantas vezes na história da aviação brasileira, a conquista do céu regulatório não garante, por si só, a sustentação no ar.

A Itapemirim Transportes Aéreos obteve em maio de 2021 a autorização da Agência Nacional de Aviação Civil para operar voos comerciais em território nacional. A certificação foi concluída em menos de um ano, com a fase final realizada entre 12 e 15 de abril. Antes mesmo do anúncio, a empresa já havia colocado no ar seu primeiro Airbus — uma aeronave de 15 anos e 180 assentos — em 14 voos de teste. Slots para rotas ligando Ribeirão Preto, Recife, Guarulhos, Porto Seguro e Salvador estavam garantidos para junho.

Sidnei Piva, presidente do grupo, saudou a conquista como um marco para a aviação civil brasileira. Mas a aprovação regulatória não dissipou as incertezas que rondam a empresa. O Grupo Itapemirim está em recuperação judicial desde 2016, processo que acumula atrasos em auditorias e cronogramas descumpridos, conforme relatório da administradora judicial EXM Partners. Ao mesmo tempo, Piva enfrenta uma disputa com a família Cola, fundadora original da Itapemirim, que tenta anular a venda da companhia e apresentou representações por falsidade ideológica.

O próprio modelo de negócio da nova aérea mudou de direção em pouco tempo: em fevereiro do ano anterior, Piva descreveu uma companhia de baixo custo focada em rotas regionais — estratégia questionada por especialistas, já que esse modelo exige rotas de alta densidade para ser viável. Durante os voos de teste, a assessoria passou a falar em serviço diferenciado e atendimento personalizado, sem clareza sobre qual caminho seria seguido.

A empresa afirmou que as pendências apontadas pela administradora estão sendo tratadas e que os pagamentos do plano de recuperação estão em dia. Ainda assim, a combinação de litígios, mudanças de estratégia e irregularidades administrativas mantém em aberto a questão central: se a Itapemirim conseguirá, de fato, sustentar seu voo ou se permanecerá presa às turbulências de sua controladora.

A Itapemirim Transportes Aéreos, braço aéreo do Grupo Itapemirim, conquistou em maio de 2021 a autorização da Agência Nacional de Aviação Civil para operar voos comerciais em todo o país. O processo de certificação levou menos de um ano, com a etapa final ocorrendo entre 12 e 15 de abril. Duas semanas antes do anúncio oficial, a empresa já havia colocado em operação seu primeiro avião — um Airbus com 15 anos de uso e capacidade para 180 passageiros — realizando 14 voos de teste.

O grupo já havia garantido horários de pouso e decolagem para começar operações em junho em rotas que ligam Ribeirão Preto a Recife, Ribeirão Preto a Guarulhos, Porto Seguro a Guarulhos e Salvador a Guarulhos. Essas são algumas das conexões mais disputadas nos principais terminais do país. Sidnei Piva, presidente do Grupo Itapemirim, celebrou o feito em nota, descrevendo-o como um marco na aviação civil brasileira e creditando o sucesso ao empenho dos diretores e colaboradores da organização.

Mas a aprovação regulatória não apagou as sombras que cercam a empresa. O Grupo Itapemirim está imerso em uma recuperação judicial desde 2016, processo que já enfrenta questionamentos sobre sua execução. Simultaneamente, a companhia é palco de uma disputa acirrada entre seu proprietário atual e o anterior. Essas tensões legais e acionárias criam um cenário de desconfiança no mercado quanto à viabilidade do novo empreendimento aéreo.

O modelo de negócio da companhia também já sofreu mudanças significativas em pouco mais de um ano. Durante os voos experimentais, a assessoria do grupo afirmou que a estratégia seria oferecer um serviço diferenciado, com foco no atendimento personalizado e na relação direta entre colaboradores e passageiros. Porém, em fevereiro do ano anterior, Piva havia declarado ao jornal O Estado de S. Paulo que se trataria de uma companhia aérea de baixo custo focada em rotas regionais. Especialistas questionaram essa abordagem na época, já que empresas de baixo custo precisam operar rotas de alta densidade, como a ligação Rio-São Paulo, para se manterem financeiramente viáveis.

O relatório mais recente da EXM Partners, administradora judicial do processo de recuperação, revelou irregularidades preocupantes. O documento de janeiro apontou atrasos relevantes nas análises de auditoria e cronogramas descumpridos para entrega de documentação. Paralelamente, a recuperação judicial tem sido atravessada por acusações entre Piva e a família Cola, fundadora original da Itapemirim. Camilo Cola e Camilo Cola Filho tentam anular a venda da companhia, contestando pendências na assinatura de anexos contratuais, e apresentaram representações por falsidade ideológica contra o comprador.

Quando procurada, a Itapemirim respondeu que as questões apontadas pela administradora judicial estão sendo resolvidas e reafirmou que os pagamentos previstos no plano de recuperação estão sendo honrados. Ainda assim, a combinação de incertezas legais, mudanças de estratégia e atrasos administrativos deixa em aberto a pergunta sobre se a nova companhia aérea conseguirá decolar de fato ou se permanecerá presa às turbulências que cercam sua controladora.

Estamos presenciando um marco importante dentro da história da aviação civil brasileira. Hoje, temos orgulho de anunciar que cumprimos, dentro do prazo oficial, todos os requisitos exigidos pela Anac.
— Sidnei Piva, presidente do Grupo Itapemirim
É a pessoa, o olho no olho, que vamos priorizar entre todos os colaboradores e os passageiros
— Assessoria do Grupo Itapemirim, sobre a estratégia de serviço diferenciado
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