Países da região cedem à agenda americana por convite, sanções ou força militar, desde aliados ideológicos como Milei e Kast até adversários como Venezuela e Cuba. Trump conseguiu expandir sua base de apoio na região com representantes da ultradireita, enquanto o Brasil mantém posição única de capacidade para recusar exigências americanas.
América Latina se alinha à agenda de Trump, de Ortega a Kast, sob pressão e incentivos
Não é porque todo mundo ama a China. É porque as pessoas não gostam dos EUA.
Por que Trump escolheu este momento para reativar a Doutrina Monroe? Não era mais fácil deixar as coisas como estavam?
Porque a China não deixou as coisas como estavam. Enquanto os EUA estavam distraídos no Iraque e no Afeganistão, Pequim investiu bilhões na região. Trump viu isso como uma ameaça existencial—não ideológica, mas de poder. Precisava recuperar o controle.
E por que alguns países cedem de bom grado enquanto outros precisam ser bombardeados?
Depende do que cada país quer. Os que cedem por convite—Milei, Kast—acreditam que se alinhar aos EUA traz benefícios: dinheiro, legitimidade, proteção. Os que cedem pela força—Venezuela, Cuba—não têm escolha real. Ortega é um caso curioso: critica o imperialismo americano, mas coopera porque Trump não se importa com democracia.
O Brasil é diferente, não é?
Completamente. O Brasil tem tamanho, recursos e uma elite que acredita em soberania. Pode dizer não. O México, apesar de maior, é economicamente dependente demais. Mas o Brasil? Pode negociar de verdade.
Isso significa que a estratégia de Trump vai funcionar?
Talvez no curto prazo. Mas há um custo invisível. Cada bombardeio, cada deportação em massa, cada aliança com ditadores—tudo isso alimenta ressentimento. Os jovens latino-americanos estão olhando para a China, não porque a amam, mas porque deixaram de confiar nos EUA.
E se um presidente democrata chegar ao poder nos EUA?
Não vai devolver o controle. Pode tentar ser mais diplomático, falar mais sobre democracia, mas o problema que os EUA têm com a China na América Latina é o mesmo que têm globalmente. Ninguém vai abrir mão disso.
Il Polso
- Trump reafirmou a Doutrina Monroe em sua Estratégia de Segurança Nacional publicada em novembro de 2025
- Bombardeios diretos dos EUA contra a Venezuela ocorreram em janeiro de 2026, primeira ação militar direta na América do Sul
- Cinco novos líderes de ultradireita governam a região desde o retorno de Trump: Milei (Argentina), Kast (Chile), Noboa (Equador), de la Espriella (Colômbia), Fujimori (Peru)
- Brasil possui capacidade única de recusar exigências americanas, diferentemente de México e outros países da região
- Pesquisas de opinião mostram avanço da percepção favorável à China entre jovens de 18 a 35 anos, particularmente no Peru
Países da região cedem à agenda americana por convite, sanções ou força militar, desde aliados ideológicos como Milei e Kast até adversários como Venezuela e Cuba. Trump conseguiu expandir sua base de apoio na região com representantes da ultradireita, enquanto o Brasil mantém posição única de capacidade para recusar exigências americanas.
Desde seu retorno ao poder em 2025, Trump reafirmou a Doutrina Monroe, fazendo da América Latina prioridade nas relações internacionais dos EUA através de pressão econômica, ajuda financeira seletiva e ameaças militares.
Quando Donald Trump retornou à presidência no início de 2025, a América Latina deixou de ser um teatro secundário da política externa americana e se tornou prioridade. O que antes era negligência episódica transformou-se em engajamento sistemático, executado através de três ferramentas distintas: incentivos financeiros para aliados, sanções econômicas contra adversários e, em casos extremos, ação militar direta. Em janeiro deste ano, os Estados Unidos bombardearam a Venezuela—a primeira operação militar direta dos EUA na América do Sul em décadas—sinalizando que a retórica havia se convertido em realidade.
A intenção ficou cristalina quando a Casa Branca publicou sua Estratégia de Segurança Nacional em novembro passado. O documento ressuscitava a Doutrina Monroe, aquela política do século 19 que resumia a ambição americana em três palavras: "América para os americanos". Após anos de distração—primeiro pela Guerra Fria, depois pelos atentados de 11 de Setembro e as guerras no Iraque e Afeganistão—Washington voltava os olhos para seu quintal. Parte dessa atenção renovada era reação defensiva: a China havia investido pesadamente na região, e os EUA não podiam permitir que um rival geopolítico consolidasse influência tão próxima de seu território.
O que distingue este momento é que Trump agora possui os meios e a determinação para executar iniciativas que explorou, mas não conseguiu concretizar, em seu primeiro mandato. Quando deixou a presidência em 2021, apenas dois líderes de ultradireita governavam a região: Jair Bolsonaro no Brasil e Nayib Bukele em El Salvador. Desde seu retorno, Trump vê aliados ideológicos multiplicarem-se: Javier Milei na Argentina, José Antonio Kast no Chile, Daniel Noboa no Equador, Abelardo de la Espriella na Colômbia, Keiko Fujimori no Peru. Esses governos cedem às exigências americanas, segundo analistas, não por coerção direta, mas por convite—atraídos pela promessa de recursos, assistência financeira e legitimidade internacional. A Argentina recebeu um resgate financeiro dos EUA que evitou uma crise cambial às vésperas de eleições legislativas cruciais.
Mas nem todos os países cedem por incentivo. A Venezuela transformou-se, nas palavras de especialistas, de uma "suposta grande ameaça" em um "neoprotetorado por imposição". Cuba enfrenta sua maior crise econômica desde a revolução, alimentada pelo bloqueio americano que sufoca sua geração de energia. Até mesmo a Nicarágua, cujos ditadores Daniel Ortega e Rosario Murillo construíram suas carreiras criticando o "imperialismo ianque", mantém-se como parceiro funcional de Trump—aceitando deportados e combatendo o tráfico de drogas em troca de tolerância americana com relação aos direitos humanos e à erosão democrática. O México deslocou milhares de soldados para a fronteira e entregou dezenas de líderes do narcotráfico aos EUA. O Brasil, porém, ocupa posição singular: possui capacidade real de dizer não a Trump, e entre suas elites—mesmo em setores conservadores—persiste um sentimento de soberania que impõe limites à subordinação.
Os analistas divergem sobre as consequências dessa reafirmação da Doutrina Monroe. Alguns veem a estratégia como coerente e duradoura: se Trump conseguir consolidar controle sobre a região, nenhum futuro governo democrata desejará abrir mão dessa vantagem. Outros questionam se existe estratégia real por trás das ações. Os bombardeios contra embarcações acusadas de transportar drogas no Caribe, as intervenções militares unilaterais, o tom agressivo—tudo isso pode ser menos um plano geopolítico e mais uma demonstração de força bruta, um espetáculo destinado a mostrar que os EUA dominam seu hemisfério.
O risco é que essa abordagem transacional, focada em poder e demonstração de superioridade militar, alimente o ressentimento regional. Pesquisas de opinião já mostram deterioração da imagem americana e avanço da percepção favorável à China, especialmente entre jovens. No Peru, a mudança é particularmente acentuada entre pessoas de 18 a 35 anos. Não é que todos amem a China—é que muitos deixaram de gostar dos EUA. Se as intervenções militares continuarem, o resultado pode ser um retrocesso nas relações entre Washington e a América Latina que durará décadas, abrindo ainda mais espaço para a influência chinesa consolidar-se justamente no momento em que os americanos tentam expulsá-la.
Citazioni salienti
Após anos de negligência, os EUA reafirmarão e farão cumprir a Doutrina Monroe para restaurar a preeminência americana no Hemisfério Ocidental— Casa Branca, Estratégia de Segurança Nacional (novembro de 2025)
Se a Nicarágua combater o tráfico de drogas e aceitar deportados, os EUA ficarão satisfeitos. A democracia não está na agenda de Washington— Juan Gabriel Tokatlian, professor de relações internacionais na Universidade Torcuato Di Tella