Alienação parental: quando os filhos vivem reféns de conflitos familiares

Crianças e jovens sofrem danos psicológicos profundos, desenvolvendo mecanismos de defesa, isolamento, absentismo escolar, desmotivação e adições como resposta ao conflito parental crónico.
Se eles viessem para aqui, vinham discutir. Por isso não entram aqui.
Uma criança de cinco anos explica por que razão os pais nunca foram convidados a entrar na sua tenda segura.

Alienação parental é uma campanha sistemática para manipular e formatar a visão do filho, instalando rejeição e ódio pelo outro progenitor. Crianças e jovens desenvolvem mecanismos de defesa como silêncio, isolamento e comportamentos de risco quando vivem em contextos de conflito parental intenso.

  • Alienação parental é uma campanha sistemática para manipular a visão do filho sobre um progenitor
  • Pedro Gomes acompanha dezenas de jovens reféns de conflitos parentais em quase 20 anos de intervenção
  • Crianças desenvolvem mecanismos de defesa como silêncio, isolamento, absentismo escolar e comportamentos de risco
  • O desenho é utilizado como ferramenta terapêutica quando a criança não consegue falar

Artigo explora alienação parental como fenómeno que manipula a visão dos filhos sobre um progenitor, destruindo vínculos afetivos e deixando marcas profundas. Psicólogo Pedro Gomes apresenta casos reais de crianças e jovens vítimas desta dinâmica disfuncional.

Uma rapariga de 16 anos acordou um dia para uma verdade perturbadora: a imagem que tinha do seu pai, aquela que o pintava como vilão, não tinha nascido dela. Tinha sido construída, tijolo a tijolo, pela mãe e pela família materna, e ela aceitara-a como sua própria convicção durante anos. O momento de despertar veio quando ouviu a mãe dizer que ela era igual ao pai — e nesse instante, sentiu a injustiça da coisa toda. Se a mãe podia ser injusta ao falar do pai, então talvez tudo aquilo que acreditava fosse apenas uma versão, não a verdade.

Esta história não é isolada. É um padrão que atravessa todas as camadas sociais, um fenómeno que Pedro Gomes, psicólogo e vice-presidente da Associação de Promoção de Públicos Jovens em Risco, conhece bem demais. Chama-se alienação parental, e é uma violência silenciosa que destrói laços, distorce memórias e deixa cicatrizes profundas. Funciona assim: um progenitor lança uma campanha sistemática para manipular a forma como o filho vê o outro, instalando rejeição, descrédito e ódio. A criança torna-se uma arma num conflito que não lhe pertence. Gomes refere que em quase vinte anos de trabalho teria de multiplicar os dedos das duas mãos por cinco ou seis para contar quantos jovens passou a acompanhar que viviam reféns de dinâmicas parentais disfuncionais — e por trás de muitos casos de absentismo escolar, desmotivação, isolamento e dependências, encontra-se precisamente isto: crianças e jovens presos numa guerra que não declararam.

Quando a alienação se instala, o mundo deixa de ter apenas dois lados. Há o lado da mãe, o lado do pai, a família da mãe, a família do pai — múltiplas frentes de um conflito que a criança não consegue navegar. O silêncio é a resposta mais comum que Gomes recebe nas consultas. As crianças não falam porque cresceram num contexto que não era seguro, e quando o mundo parece ameaçador, as pessoas também parecem. Uma delas guardou bem fundo no coração, fechado a sete chaves, porque magoava.

Miguel tinha cinco anos quando desenhou um "Coração Nuvem" dentro de uma tenda improvisada no gabinete de Gomes — uma réplica do seu quarto, o único lugar seguro que conhecia. As nuvens eram azuis, mas havia tons de cinzento, sinais de medo de uma separação que sentia aproximar-se. Quando Gomes lhe perguntou se os pais tinham sido convidados a entrar naquela tenda, Miguel respondeu com uma clareza que assusta qualquer adulto: "Achas? Se eles viessem para aqui, vinham discutir. Por isso não entram aqui, nem vão entrar." Apenas bonecos do Homem-Aranha e do Super-Homem tinham tido esse privilégio. Gomes confessou depois que é assustador para um pai não ter oportunidade de entrar no mundo secreto do filho — não apenas porque revelaria o nível de sofrimento da criança, mas também porque perderia a chance de conhecer a sua criatividade e fantasia.

Manuel tinha 18 anos quando comparou a guerra da Ucrânia com a sua casa. Quando as bombas caíam em Kiev, os ucranianos fugiam para o metro. Quando os pais chegavam a casa e lançavam as suas bombas, ele fechava-se na cave com música, jogos e livros. Nessa altura, começou a experimentar substâncias porque já não sabia lidar com a dor e a angústia. Rui, com 16 anos, desenhou um coração cheio de mar e ondas revoltas — "Tenho o mar dentro de mim, que fica mais revolto quando os meus pais estão a discutir" — com barcos afundados no meio. Nuno, aos 45 anos, ainda carrega cicatrizes na alma. Desde que se lembra de ser gente, a mãe o acordava do berço, depois da cama, para o levar ao telefone e marcar o número do pai — vezes sucessivas durante a noite, porque a mãe era alcoólica e não conseguia acertar no número. A sua grande memória de infância é um telefone fixo e um número que nunca esqueceu.

Pedro, com 20 anos, desenhou muros — os seus mecanismos de defesa — caos, isolamento, a necessidade de controlar tudo à sua volta. Vivera num ambiente familiar hostil e foi difícil destruir aqueles muros. Mas quando o desafiaram a desenhar o coração que desejava ter, saiu algo muito mais livre. Gomes explica que quando o lado negro se arrasta, há mais momentos de sobrevivência do que de vivência. Mas é possível reerguer-se. Todas estas histórias foram conduzidas por ele e são exemplos de sucesso e de recomeço — crianças e jovens que encontraram um caminho de volta para casa.

Quando o lado negro se arrasta, são mais os momentos de sobrevivência do que os de vivência
— Pedro Gomes, psicólogo
Num processo de alienação parental ocorre uma campanha para manipular e formatar a visão do filho, instalando-se a desilusão, a rejeição, o descrédito e o ódio pelo outro progenitor
— Pedro Gomes, psicólogo
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Como é que uma criança consegue distinguir entre o que realmente sente e o que lhe foi ensinado a sentir?

Model

Muitas vezes não consegue, durante anos. É por isso que o silêncio é tão comum. A criança vive dentro de uma narrativa que lhe foi imposta, e essa narrativa parece-lhe tão verdadeira quanto o ar que respira.

Inventor

E quando finalmente acordam para essa realidade?

Model

Vem a confusão, a raiva, a sensação de traição. Mas também vem a possibilidade de reconstrução. A rapariga de 16 anos descobriu que o seu pai tinha um lado bom e que a sua mãe tinha um lado mau — e isso foi libertador, porque deixou de haver vilões.

Inventor

O desenho parece ser uma ferramenta poderosa aqui.

Model

É porque a criança não precisa de palavras. Miguel desenhou uma tenda onde os pais não podiam entrar, e naquele desenho estava toda a sua verdade — o medo, a proteção, a solidão. Os adultos conseguem ver o que as palavras nunca diriam.

Inventor

Há recuperação possível para estas crianças?

Model

Sim, mas exige tempo e um espaço verdadeiramente seguro. Quando a criança sente que pode confiar, começa a desconstruir os muros que construiu. Pedro desenhou primeiro o caos, depois desenhou o coração que queria ter. Isso é recomeço.

Inventor

E os pais? Conseguem compreender o dano que causaram?

Model

Alguns sim, quando veem os desenhos, quando entendem que o filho fechou a porta do seu mundo secreto. Mas muitos nunca entram naquele espaço. E essa é talvez a perda mais triste.

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