Politraumatismo é a causa mais frequente, mas incêndios a bordo, asfixia e intoxicação podem matar antes do impacto. No momento do choque, traumatismo craniano e ruptura de órgãos internos por desaceleração brusca são fatores críticos.
Além do impacto: as múltiplas causas de morte em acidentes aéreos
A morte pode vir antes do impacto, durante ou depois
Por que a gente fala tanto em impacto se existem tantas outras formas de morrer em um acidente aéreo?
Porque o impacto é o mais visível, o mais imediato. Mas a medicina sabe há tempos que a morte pode vir de um incêndio antes da queda, de asfixia, de despressurização. O problema é que tudo acontece muito rápido.
Mas no caso do helicóptero de Rick, a gente ainda não sabe qual foi a causa real, certo? Os peritos estão investigando.
Exato. Eles vão procurar sinais vitais nos corpos — fuligem nos pulmões, monóxido de carbono no sangue — para entender a sequência dos eventos.
E se não encontrarem esses sinais?
Aí fica mais difícil. Uma lesão instantaneamente fatal pode impedir que o corpo deixe qualquer marca de que estava vivo quando aconteceu.
É por isso que a perícia cruza a necropsia com a análise do local. Não é uma ciência exata, especialmente em impactos de muita energia.
Então há limitações reais no que a gente consegue saber?
Sim. O próprio cirurgião da USP reconhece isso. Em alguns casos, a sequência exata dos eventos não pode ser reconstituída.
Mas a medicina consegue apontar os mecanismos possíveis — e isso ajuda a entender o que aconteceu, mesmo que não seja com certeza absoluta.
E isso importa para quê, além de satisfazer curiosidade?
Importa para investigação de segurança aérea, para melhorar protocolos, para entender falhas. Cada acidente ensina algo.
The Pulse
- Cinco pessoas morreram na queda do helicóptero em Santa Catarina na segunda-feira (21)
- O helicóptero saía de Porto Belo para São Joaquim quando desapareceu
- Politraumatismo é a causa mais frequente, mas incêndios, asfixia e intoxicação podem matar antes do impacto
- Peritos buscam sinais vitais nos corpos para determinar quando cada lesão ou exposição ocorreu
Politraumatismo é a causa mais frequente, mas incêndios a bordo, asfixia e intoxicação podem matar antes do impacto. No momento do choque, traumatismo craniano e ruptura de órgãos internos por desaceleração brusca são fatores críticos.
Análise médica sobre os mecanismos que causam morte em quedas de aeronaves, ilustrada pela queda de helicóptero que matou o cantor Rick em Santa Catarina.
Na tarde de segunda-feira, um helicóptero desapareceu durante o trajeto entre Porto Belo, no litoral norte de Santa Catarina, e São Joaquim, na Serra. Cinco pessoas estavam a bordo. Os corpos foram localizados nesta terça-feira em uma área de mata de difícil acesso, e entre os mortos estava Rick, integrante da dupla musical com Renner. Agora, peritos do Instituto Médico Legal de Florianópolis trabalham para determinar as causas exatas das mortes — uma tarefa que revela como acidentes aéreos matam de formas muito mais variadas do que o impacto inicial sugere.
Quando uma aeronave cai, a morte raramente é simples. Maria Camila Lunardi, presidente da Associação Brasileira de Medicina de Emergência, explica que essas tragédias ocorrem com altíssimo impacto e velocidade extrema, mas o que mata pode acontecer em vários momentos distintos. O politraumatismo — o conjunto de lesões graves provocadas pelo choque — é a causa mais frequente. Porém, muitas vítimas morrem antes mesmo de a aeronave tocar o solo.
Incêndios a bordo representam um desses cenários. Falhas na fiação elétrica, superaquecimento de componentes do motor ou vazamento de combustível em superfícies quentes podem deflagrar chamas durante o voo. A fumaça resultante contém monóxido de carbono, cianeto e gases irritantes que inflamam e obstruem as vias respiratórias. O monóxido de carbono bloqueia o transporte de oxigênio pelo sangue. Nessas circunstâncias, uma pessoa pode morrer por asfixia ou intoxicação bem antes do choque com o solo, além de sofrer queimaduras diretas. Em aviões comerciais que voam em altitudes muito elevadas, existe ainda o risco de despressurização. Quando a cabine se rompe ou o sistema de pressurização falha, a pressão interna cai rapidamente. Segundo o médico legista Osvaldo Sérgio Ortega, essa perda súbita causa hipóxia — falta de oxigênio no organismo — e seu principal efeito é a deterioração do julgamento, perda da capacidade de agir e, posteriormente, inconsciência. Os ocupantes ficam incapacitados enquanto ainda estão vivos, impedidos de reagir à emergência.
No instante do impacto, a gravidade das lesões depende da velocidade, do ângulo da queda e de quanto a estrutura da aeronave se amassa. Pedro Ferreira, cirurgião do trauma do Centro de Trauma do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, aponta que traumatismo craniano pode ocorrer por impacto direto contra painéis, poltronas ou a estrutura da aeronave. Mas há outro mecanismo igualmente letal: a desaceleração brusca, mesmo sem impacto direto no corpo, é capaz de romper vasos vitais. Quando a aeronave para de repente, a estrutura do corpo trava, mas os órgãos internos continuam se movendo para a frente por inércia. Essa força pode romper a aorta, o fígado, o baço e os rins.
Sobreviver ao impacto inicial não significa que o perigo acabou. Nos minutos e horas seguintes, novos fatores podem ser fatais. Uma hemorragia interna contínua pode levar ao choque hipovolêmico, um colapso grave da circulação em que o coração deixa de bombear sangue por falta de volume. Lesões no tórax podem evoluir para pneumotórax hipertensivo, situação em que o ar vaza do pulmão e se acumula sob pressão no espaço pleural, esmagando o pulmão e impedindo a respiração e os batimentos cardíacos. Há também o risco de aspiração de sangue ou vômito por vítimas inconscientes, além de queimaduras graves e inalação de fumaça pós-impacto. Quando a queda ocorre na água, o afogamento é uma ameaça adicional — a vítima pode resistir ao choque, mas morrer por não conseguir soltar os cintos, estar atordoada pelas forças do impacto ou ter fraturas que impeçam a saída da aeronave. Em águas geladas, a hipotermia reduz rapidamente a temperatura corporal, levando à parada cardíaca. Se a pessoa sobrevive ao choque e não tem ferimentos imediatamente fatais, a chance de sair com vida passa a depender do tempo — da rapidez do resgate, da presença de fumaça e do estado das saídas de emergência.
Diante de um corpo com múltiplos traumas, a perícia médica precisa cruzar os achados da necropsia com a análise do local do acidente para reconstituir a linha do tempo das lesões. Ortega ressalta que não existe um sinal isolado absolutamente conclusivo. A chave é a busca por sinais vitais — reações biológicas que provam que o organismo estava vivo quando determinada lesão ou exposição ocorreu. Se os peritos encontram fuligem na traqueia e nos brônquios profundos, significa que a vítima estava respirando durante um incêndio. A presença de carboxihemoglobina no sangue confirma que o monóxido de carbono foi absorvido enquanto o coração ainda batia. Porém, a ausência desses sinais não prova automaticamente que a pessoa morreu antes do impacto. Uma lesão instantaneamente fatal, como a destruição de centros vitais do cérebro, impede que o corpo tenha tempo de produzir qualquer reação inflamatória ou respiratória. Ferreira reconhece as limitações: certos achados pós-morte, como posturas de corpos carbonizados, não são sinal de vida. Em impactos de altíssima energia, nem sempre é possível reconstituir a sequência exata dos eventos.
Notable Quotes
Tragédias como quedas de aeronaves ocorrem de maneira muito rápida e com altíssimo impacto— Maria Camila Lunardi, presidente da Associação Brasileira de Medicina de Emergência
A desaceleração brusca, mesmo sem impacto direto no corpo, é capaz de romper vasos vitais como a aorta, o fígado, o baço e os rins— Pedro Ferreira, cirurgião do trauma do Hospital das Clínicas da USP