Agronegócio desloca produtividade brasileira para o interior e reduz desigualdade

A produtividade do agro cresce além das fronteiras tradicionais
Alan Bueno descreve como o Matopiba se tornou o novo polo de crescimento econômico regional.
Mark

Como assim a produtividade "mudou de endereço"? Isso significa que o Sudeste perdeu força?

Mimi

Exatamente. A indústria de transformação no Sudeste caiu de 15,7% para 9,8% do PIB desde 1995. Enquanto isso, a agropecuária cresceu 80,1% entre 2002 e 2019, enquanto a indústria cresceu apenas 5,4%.

Luke

Mas espera — esses números de produtividade vêm de um estudo específico de dois pesquisadores. Quantos municípios foram analisados e qual é a margem de erro?

Mimi

O estudo cobriu mais de 5.500 municípios. Incorpora informalidade além do emprego formal, usando dados da Rais e da Pnad.

Mark

E essa redução de desigualdade que mencionam — é comprovada ou é uma inferência?

Luke

É uma inferência baseada em dados do Instituto Mobilidade e Desenvolvimento Social. A probabilidade de mobilidade social sobe no Centro-Oeste, mas isso não prova que a desigualdade caiu — apenas que há mais oportunidades.

Mimi

Verdade. O que sabemos é que municípios como Sapezal têm receitas municipais altas e investem em educação e saúde, o que favorece mobilidade.

Mark

E quanto aos trabalhadores? Eles estão ganhando mais?

Mimi

Os salários no agro avançaram 35,2% entre 2022 e 2025, acima da média nacional de 24,8%. Mas 94,8% dos produtores dizem que falta mão de obra.

Luke

Isso é contraditório. Se os salários subiram tanto, por que falta gente? Provavelmente porque os trabalhadores estão migrando para serviços, que oferecem outras vantagens.

Mark

Então o agro está puxando a economia, mas não consegue reter trabalhadores?

Mimi

Exatamente. É um crescimento que gera oportunidades em outros setores — advocacia, consultoria, comércio — e os trabalhadores estão aproveitando.

Luke

Mas o grande desafio que mencionam é agregar valor. O Brasil exporta commodities e alimentos processados, não produtos sofisticados. Isso é um limite real?

Mimi

Segundo Roberto Rodrigues, ex-ministro, o Brasil falha ao não abrir novos mercados para produtos mais sofisticados. Deveria ser uma agenda de Estado.

  • Entre 2002 e 2019, produtividade agrícola cresceu 80,1% contra 5,4% da indústria
  • Piauí liderou com 103% de crescimento; Maranhão 86%; Tocantins 69,7%
  • Exportações de alimentos somaram US$ 33 bilhões no primeiro semestre de 2026
  • 94,8% dos produtores relatam dificuldade para contratar mão de obra
  • Probabilidade de mobilidade social sobe de 1,8% para 2,86% no Centro-Oeste

Entre 2002 e 2019, produtividade agrícola cresceu 80,1%, enquanto indústria avançou apenas 5,4%, marcando inversão estrutural na economia. Estados como Piauí, Maranhão e Tocantins lideram crescimento; agro alimenta cadeia de transporte, tecnologia e serviços responsáveis por 70% do PIB.

A produtividade brasileira migra do Sudeste industrial para o interior, impulsionada pelo agronegócio no Centro-Oeste e Matopiba, gerando ganhos de eficiência de até 103% e reduzindo desigualdade regional.

A economia brasileira está se reorganizando geograficamente. Onde antes os ganhos de produtividade se concentravam nos polos industriais tradicionais do Sudeste, agora é o interior do país que puxa o crescimento — impulsionado pela força do agronegócio no Centro-Oeste e pela expansão para novas fronteiras agrícolas no Matopiba. E junto com essa mudança de endereço vem algo mais: a desigualdade social também está diminuindo nessas regiões.

Os números revelam uma transformação estrutural profunda. Entre 2002 e 2019, enquanto a produtividade geral do país cresceu 18,7%, a agropecuária avançou 80,1%. A indústria tradicional, por sua vez, cresceu apenas 5,4%. Essa inversão não é marginal: a participação da indústria de transformação no PIB caiu de 15,7% para 9,8% desde 1995, uma redução de 38%. Consultores atribuem essa queda a uma perda estrutural de competitividade. Mas no agro, estados antes periféricos começaram a decolar. O Piauí liderou com crescimento de 103% na produtividade. Maranhão avançou 86%, Tocantins 69,7%. Em contraste, São Paulo registrou apenas 1,2%, e o Rio de Janeiro, 4%. Mato Grosso tornou-se um símbolo dessa transformação, com crescimento nove vezes acima da média nacional nos últimos anos.

O agronegócio não funciona isolado. Ele se converteu no catalisador de uma vasta rede econômica que irriga transporte, comércio, construção civil, tecnologia, crédito e serviços — este último responsável por cerca de 70% da economia nacional. Quase 70% da produção agrícola nacional abastece a indústria de alimentos, que se tornou uma das maiores do mundo. No primeiro semestre de 2026, as exportações da indústria de alimentos somaram US$ 33 bilhões, alta de 8,5% em receita e 6,3% em volume comparado ao mesmo período de 2025, representando 18% das vendas externas. O Valor Bruto da Produção Agropecuária foi estimado em R$ 1,39 trilhão em julho.

Essa engrenagem produtiva gera efeitos que vão além dos números. Segundo dados do Instituto Mobilidade e Desenvolvimento Social, a probabilidade média de crianças brasileiras estarem entre os 10% mais ricos quando adultas é de 1,8%. No Centro-Oeste, essa probabilidade sobe para 2,86%. Em municípios como Sapezal, em Mato Grosso, ela chega a 3,9%. Fernando Veloso, diretor de Pesquisas do instituto, explica que em muitas dessas cidades a receita das prefeituras é alta e há aproveitamento efetivo disso pelo setor público, com bons serviços em educação e saúde que favorecem a mobilidade social. Roberto Rodrigues, ex-ministro da Agricultura e professor emérito da FGV, descreve o mecanismo: quem investe no agro acaba aplicando seu dinheiro na região onde está. Em vez de comprar imóvel no Rio ou em São Paulo, constrói localmente. Os filhos dessas pessoas abrem escritórios de advocacia ou consultórios. Há uma multiplicação de oportunidades que transborda para toda a comunidade.

Mas essa força produtiva enfrenta gargalos. Levantamento da Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária mostra que 94,8% dos produtores relatam dificuldade para contratar mão de obra, mesmo com os salários no agro tendo avançado 35,2% entre 2022 e 2025 — acima dos 24,8% da média de todos os setores. Uma das razões é a migração de trabalhadores agrícolas para o setor de serviços. Alan Bueno, professor de economia na Universidade Estadual do Paraná e um dos autores do estudo que estima a produtividade do trabalho nos mais de 5.500 municípios brasileiros, resume a mudança: "A produtividade do agro cresce agora além das fronteiras tradicionais. Hoje, o Matopiba é o novo ouro. É o que foi o Centro-Oeste nos anos 1950. Trata-se de um crescimento que faz mudar a realidade regional."

O Brasil construiu essa competitividade agrícola através de décadas de investimento em pesquisa e tecnologia adaptada às condições tropicais, lideradas pela Embrapa. Uma safra maior exige máquinas, fertilizantes, sementes, crédito e tecnologia. Depois da colheita, mobiliza transportadoras, armazéns, silos, ferrovias, portos e comércio. A soja vira óleo e ração; o milho, alimentos e etanol; o leite, derivados. Cleber Sabonaro, gerente de Economia e Inteligência Competitiva da Associação Brasileira da Indústria de Alimentos, afirma que a indústria de alimentos opera com escala e eficiência produtiva, investindo cada vez mais em tecnologia, logística e sustentabilidade.

Mas especialistas apontam um desafio à frente. O grande obstáculo é transformar essa força produtiva em mais valor agregado, ampliar a presença nos mercados globais e reforçar a contribuição do Brasil na segurança alimentar mundial. Para Rodrigues, o Brasil falha ao deixar de abrir novos mercados, sobretudo para produtos alimentícios mais sofisticados — quando deveria fazer dessa questão uma agenda de Estado. A produtividade mudou de endereço, mas agora precisa mudar de escala.

A produtividade do agro cresce agora além das fronteiras tradicionais. Hoje, o Matopiba é o novo ouro. É o que foi o Centro-Oeste nos anos 1950. Trata-se de um crescimento que faz mudar a realidade regional.
— Alan Bueno, professor de economia na Universidade Estadual do Paraná
Quem investe no agro acaba aplicando seu dinheiro na região em que está. Em vez de comprar um imóvel no Rio ou em São Paulo, constrói localmente. Os filhos dessas pessoas abrem escritórios de advocacia ou consultórios, e assim por diante. Há uma multiplicação de oportunidades.
— Roberto Rodrigues, ex-ministro da Agricultura
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