Agentes de IA pessoais vão transformar radicalmente o B2C

Os velhos tempos dos consumidores preguiçosos estão com os dias contados
A inércia que hoje mantém clientes leais será eliminada por agentes incansáveis que negociam automaticamente melhores condições.
Mark

Por que exatamente os agentes pessoais são tão diferentes de um consumidor que simplesmente usa um comparador de preços?

Mimi

Um comparador de preços ainda exige que o humano entre no site, procure, clique, decida. O agente faz tudo isso automaticamente, sem cansaço, e negocia em tempo real. Ele não apenas compara — ele age.

Luke

Mas isso pressupõe que o agente tem acesso às interfaces das empresas. Quantas empresas realmente vão permitir isso?

Mimi

Boa pergunta. No início, muitas vão resistir. Mas a primeira que abrir as portas vai ganhar tanto volume que as outras serão forçadas a seguir.

Mark

E o que acontece com marcas que vendem por emoção, não por preço? Um restaurante de luxo, uma marca de moda?

Mimi

O efeito será menor nesses setores, mas ainda existirá. O agente pode filtrar opções que atendem aos critérios do cliente — localização, tipo de cozinha, faixa de preço — e deixar a decisão final para o humano.

Luke

Você está assumindo que o agente sempre age no interesse do cliente. E se o agente receber incentivos da plataforma que o controla para favorecer certas empresas?

Mimi

Esse é o risco real. Quem controlar o agente controla o acesso ao cliente. É por isso que a Meta e outras gigantes estão investindo bilhões nisso.

Mark

O Brasil tem alguma vantagem aqui?

Mimi

Sim. O open finance já está funcionando, então a infraestrutura técnica para agentes acessarem dados bancários e fazerem transações já existe. Outros países ainda estão construindo isso.

Luke

Mas open finance não garante que as empresas vão cooperar com agentes de terceiros. Elas podem criar seus próprios agentes e tentar manter os clientes dentro do seu ecossistema.

Mimi

Verdade. Mas no final, o consumidor quer simplicidade. Se um agente pessoal centralizado for mais fácil que navegar entre dez agentes diferentes, o agente centralizado vence.

Mark

Então estamos falando de um futuro onde a Meta, Google e Apple controlam a relação entre consumidores e empresas?

Luke

Não necessariamente. Mas sim, estamos falando de um futuro onde quem controla o agente tem muito mais poder do que quem controla o app ou o site.

  • Agentes pessoais como Instinct já estão negociando transações automaticamente em tempo real
  • Instinct levantou US$ 250 milhões a uma avaliação de US$ 2,5 bilhões
  • Brasil tem infraestrutura de open finance já operacional, acelerando adoção de agentes
  • Meta lançou seu agente pessoal Muse na semana passada

Consumidores usarão agentes pessoais em vez de apps e sites tradicionais, mediando interações com empresas de forma mais intencional e objetiva. Agentes eliminarão inércia e custos de transação, negociando automaticamente melhores condições sem cansaço, diferentemente dos consumidores humanos.

Agentes pessoais de IA inteligentes e incansáveis estão prestes a revolucionar o mercado B2C, tornando interações mais racionais, eliminando vieses de marketing e aumentando a competição baseada em preço e características objetivas.

Os agentes de inteligência artificial pessoais estão chegando — máquinas inteligentes e incansáveis que logo mediará a maioria das interações entre consumidores e empresas. Quando isso acontecer, a vida das companhias que dependem de venda direta ao consumidor ficará radicalmente mais difícil.

Bill Gates já havia sinalizado em 2023 que em cinco anos as pessoas não precisariam mais navegar entre diferentes aplicativos. Bastaria pedir ao dispositivo, em linguagem natural, o que desejam fazer. Esse futuro está se materializando agora, e as consequências para o varejo, os bancos, as operadoras de telefonia e inúmeros outros setores serão profundas.

A primeira transformação é comportamental. Consumidores deixarão de entrar em aplicativos bancários para fazer transferências, de visitar sites de lojas para comprar produtos, de acessar portais de operadoras para contratar serviços. Em vez disso, pedirão ao seu agente pessoal — embutido no WhatsApp, no Telegram ou em outro canal — que faça tudo isso por eles. O agente, porém, não se comporta como um humano. Ele é racional de forma implacável. Elimina os vieses que o marketing tradicional explora: a preferência pela marca, a lealdade emocional, a inércia. Se um cliente prioriza preço e prazo, o agente entregará exatamente isso, sem se deixar seduzir por campanhas publicitárias ou design sofisticado. Mesmo que alguém tenha preferência declarada por uma empresa, será difícil manter essa lealdade quando o agente mostrar, com clareza matemática, que um produto concorrente é um negócio melhor.

Em categorias onde as características são fáceis de comparar — cartões de crédito, passagens aéreas, internet, financiamentos de veículos — essa objetividade será devastadora. Em outras, como moda, restaurantes, bens de luxo e educação, o efeito existirá, mas será menos pronunciado. De qualquer forma, a competição se tornará mais feroz e mais centrada em atributos objetivos, especialmente preço. Quem conhecerá melhor as preferências do cliente e influenciará suas decisões não serão mais as empresas, mas sim os fornecedores dos agentes pessoais — as grandes plataformas de tecnologia que controlarem essas máquinas.

A segunda transformação é econômica. Hoje, muito do comportamento de consumo é determinado pela inércia — ou, para ser direto, pela preguiça. A maioria das pessoas não se dá ao trabalho de ligar para seu banco e ameaçar cancelar o cartão de crédito, ainda que saiba que conseguiria zerar a anuidade. O mesmo vale para contas de internet, TV a cabo, celular. Os economistas chamam isso de custos de transação. Agentes pessoais capazes e incansáveis eliminarão esses custos. Uma máquina não se cansa de passar horas ao telefone com um atendente de telemarketing. Ela não desiste. Ela negocia as melhores condições possíveis sem piscar. Isso significa que empresas que hoje lucram com a apatia dos clientes perderão essa vantagem.

As empresas já estão respondendo. Muitas criam seus próprios agentes — integrados aos aplicativos bancários, aos portais de varejo, aos canais no WhatsApp — para que os clientes possam fazer transações em linguagem natural sem sair do ecossistema da marca. É uma experiência melhor do que a disponível até pouco tempo atrás. Mas é um equilíbrio temporário. O que o consumidor realmente quer é uma vida mais fácil, e na maioria dos casos, o caminho mais fácil será concentrar tudo em um único agente pessoal e deixar que ele lide com cada empresa individualmente.

A dinâmica de mercado também mudará. No início, muitas empresas tentarão bloquear ou dificultar o acesso de agentes pessoais às suas interfaces. Mas a primeira companhia que abrir as portas — que estender o tapete vermelho para os bots — levará as outras a capitular. Uma minoria ficará em negação, esperando que o mundo volte aos velhos tempos. Mas os velhos tempos dos consumidores preguiçosos estão com os dias contados. No Brasil, essa transição pode ser ainda mais rápida: a infraestrutura de open finance já está em funcionamento, criando as condições técnicas para que agentes acessem dados e façam transações com facilidade.

Esse futuro já começou. Um agente chamado Instinct viralizou no Vale do Silício nas últimas semanas. Integrado ao email de seus usuários, ele já negociou reembolsos em cursos, cancelou reservas de hotel e identificou conflitos em agendas. Um usuário relatou que enviou sua apólice de seguro do carro ao Instinct, que encontrou opções mais baratas na concorrência, cancelou a apólice antiga e contratou uma nova — tudo em poucas horas. A criadora do Instinct levantou 250 milhões de dólares em financiamento a uma avaliação de 2,5 bilhões, com rumores de uma nova rodada de 1 bilhão em andamento. A Meta lançou seu próprio agente pessoal, chamado Muse, na semana passada. A disputa está apenas começando, e tem tudo para transformar o mercado B2C de forma irreversível.

Nos próximos cinco anos você não terá que usar diferentes aplicativos para diferentes tarefas. Você vai simplesmente pedir ao seu aparelho, em linguagem do dia a dia, o que você quer fazer
— Bill Gates, 2023
Um usuário enviou sua apólice de seguro do carro ao Instinct, que encontrou opções mais baratas, cancelou a apólice antiga e contratou uma nova — tudo em poucas horas
— Relato de usuário do Instinct
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